Dissolvida a reunião, Helena recolheu-se à pressa, com o pretexto de
que estava a cahir de somno, mas realmente para dar á natureza o
tributo de suas lagrymas. O desespêro comprimido tumultuava no
coração, prestes a irromper. Helena entrou no quarto, fechou a porta,
soltou um grito e lançou-se de golpe á cama, a chorar e a soluçar.
A belleza dolorida é dos mais patheticos expectaculos que a natureza e
a fortuna podem offerecer á contemplação do homem. Helena torcia-se
no leito como se todos os ventos do infortunio se houvessem desencadeado
sôbre ella. Em vão tentava abafar os soluços, cravando os dentes no
travesseiro. Gemia, intercortava o pranto com exclamações sôltas,
enrolava no pescoço os cabellos deslaçados pela violencia da
afflicção, buscando na morte o mais prompto dos remedios. Colerica,
rompeu com as mãos o corpinho do vestido, e o joven seio, livre de sua.
casta prisão, pode á larga desaffogar-se dos suspiros que o enchiam.
Chorou muito; chorou todas as lagrymas poupadas durante aquelles mezes
placidos e felizes,--leite da alma com que fez calar a pouco e pouco os
vagidos de sua dor.
Calar somente, não adormecel-a, por que ella ahi lhe ficou,--companheira
daquella noite cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cançaram, e
foram mais intervallados os soluços, Helena jazeu immovel no leito, com
o rosto sobre o travesseiro, fugindo com a vista á realidade exterior.
Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quasi morta, uma hora longa,
longa, longa,--como só as tem o relogio da afflicção e da esperança.
Quando a tormenta pareceu extincta, a moça sentou-se na cama e olhou
vagamente em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se tropega á
_toilette_, que communicava com a alcova por uma porta; alli parou
deante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo
mesma. Uma das janellas estava aberta; Helena foi alli aspirar um pouco
do ar da noite. Ésta era clara, tranquilla e quente. As estrêllas
tinham uma scintillação viva que as fazia parecer alegres. Helena
enfiou um olhar por entre ellas como procurando o caminho da felicidade.
Esteve á janella cêrca de meia hora; depois entrou, sentou-se e
escreveu uma carta.
A carta era longa, escripta a golphadas, sem nexo nem ordem; continha
muitas queixas e imprecações; uma ternura expansiva de mistura com um
desespêro profundo; fallava daquelles que, tendo nascido sob a
influência de ma estrêlla, só tem felicidades intermittentes e
mutaveis; dizia que para ella a propria felicidade era um germen de
morte e dissolução,--ideia que repetia tres vezes, como se tal
observação fosse o transumpto de suas experiencias certas. A carta
fallava tambem de um homem, cujo egoismo de pae não conhecia limites, e
que a todo o trance queria que a filha desposasse uma grande riqueza e
uma grande posição,--«homem--dizia ella, que me viu a principio com
olhos avessos, pela diminuição que eu trazia á herança.» No fim
dizia que havia naquellas linhas muito de obscuro e incompleto; que
opportunamente contaria tudo; mas que desde ja podia dar a triste
notícia de que lhe era forçoso abster-se de sahir.
Helena releu o escripto e meditou longo tempo sôbre elle; accrescentou
ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel em dous pedaços, chegou-os
á vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta,
mas não chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera á primeira,
e só então recorreu ao remedio melhor de uma alma ulcerada e pia:
rezou. A prece é a escada mysteriosa de Jacob: por ella sobem os
pensamentos ao ceu; por ella descem as divinas consolações.
Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas ás mãos da
madrugada. O somno fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso
repousar. Assim mesmo vestida atirou-se sôbre o leito. Não dormiu,
não se póde dizer que dormisse; ficou alli n'um estado, que não era
vigilia nem somno, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os
olhos, pareceu accordar de um sonho; sua imaginação recompoz as phases
todas do acontecimento da vespera. Depois suspirou, e ficou longo tempo
a olhar para o chão, com a fixidez tragica e solemne da morte.
--Era justo! murmurava de quando em quando.
Levantou-se emfim; levantou-se abatida e cançada. Viu-se ao espelho; a
descorada face e a linha roxa que lhe circulava as palpebras
difficilmente podiam deixar de impressionar a familia. Helena disfarçou
como pôde esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais
verosimil: o cançasso da vespera e a insomnia de toda uma noite. A
explicação não achou obstaculo no ânimo da tia e do irmão. Somente
o padre Melchior, presente a ella, fitou na moça um olhar dubitativo,
que a obrigou a baixar os cilios.
Se Helena padecia, o logar de Estacio não era ao pe della? Assim o
pensou o sobrinho de D. Ursula, que em todo esse dia resolveu não sahir
de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distrahil-a, pediu-lhe que fosse
repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena
obedeceu ás instrucções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete,
onde se occupou em examinar e colleccionar alguns papeis. Era o dia
marcado para solicitar de Eugenia o consentimento matrimonial, e elle
não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava
elle, ora relendo as páginas de sua predilecção, ora mandando saber
se dormia socegada, ora contemplando o desenho com que ella o
presenteára na vespera. Sentia-se tão feliz naquella aurora do anno!
Pouco antes do jantar ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou
que a irmã apparecesse á porta. Vinha como fôra; mas a Estacio
pareceu que effectivamente o descanço e o somno lhe haviam restaurado
as fôrças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto.
Helena parou e Estacio foi ter com ella, travou-lhe da mão, fel-a
entrar.
--Estás melhor? perguntou.
--Estou boa.
--Não dizia eu que era melhor desistir da ideia da reunião? Éstas
festas prolongam-se, e fatigaram, sobretudo as pessoas franzinas...
Helena ergueu os hombros.
--Anda sentar-te um pouco.
--Primeiro hade responder-me a uma cousa.
--Que é?
--Que dia é hoje? perguntou ella.
--Anno bom.
--Lembra-se do que me prometteu?
--Perfeitamente. Ves estes papeis? disse elle mostrando sôbre a
secretária uma porção de papeis classificados e postos por ordem.
Occupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-me umas últimas
contas, que o procurador hade trazer amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
--Não, disse ella; não hade ir depois, hade ir hoje mesmo. Que tem as
contas com a autorisação que deve pedir a Eugenia? Va logo de noite.
Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de
excellente agouro. Dará um anno feliz.
--Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu
Estacio depois de silêncio; mas não tenho dúvida em fazel-o ja. Uma
vez preenchida a formalidade.
--Pedil-a-ha immediatamente ao pae.
--Não!
--Porque?
--Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos.
Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se
eternamente. Quero sondar meu proprio espirito, e...
--Mas tudo isso é uma estravagancia! interrompeu Helena sentando-se na
borda da rede em que Estacio costumava ler. Pretenderá voce recuar
depois de lhe falar a ella?
--Oh! não! Mas uma vez que caminho para solução tão grave, não ha
inconveniente em ir pe ante pe. Admiras-te? perguntou elle vendo que a
irmã fazia um gesto de impaciencia.
--Zango-me.
--Mas...
--Voce é insupportavel. Falta ao que prometteu.
--Ja disse que hei de cumprir.
--Não recuará?
--Não.
--Irá pedil-a hoje mesmo?
--A ella.
--A ella e ao pae.
--Ao pae escreverei uma carta.
--Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...
--Quando convier ao Dr. Camargo.
--Antes do fim do mez.
--Tão cedo!
--Dou-lhe mez e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vel-os casados,
tanto por voce como por ella, coitada! que o ama tanto...
--Cres? perguntou vivamente Estacio.
--Se creio! Posso affirmal-o. Não será amor como voce quizera que
fôsse, mas é o amor que ella lhe pode dar, e é muito. Está dito!
Palavra?
Estacio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.
--Vou confiar todo o meu destino á cabeça mais leve do universo, disse
Estacio com os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me
queixo; mas de seu espirito, que nunca deixou as roupas da infancia.
Demais, á medida que me approximo da hora solemne, sinto que me repugna
o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os
meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto
para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estacio reflectiu
longamente na situação em que se achava; reconheceu que estava
moralmente obrigado a pedir Eugenia, desde que seus corações se tinham
aberto um para o outro, celebrando um contracto, que elle só não podia
romper. A consciencia rebellou-se contra as resoluções do coração,
e a decisão foi curta.
Naquella mesma noite, ouviu Eugenia a esperada palavra. A alegria que se
lhe derramou nos olhos foi immensa e caracteristica. Um pouco mais de
recato não era descabido em tal occasião. Não houve nenhum; seu
primeiro acto de mulher foi uma meninice. Eugenia ignorava tudo, até a
dissimulação de seu sexo. Concedendo a mão a Estacio, não era uma
castellã que entregava o premio, mas um cavalleiro que o recebia com
alvorôço e submissão.
Transposto o Rubicon, não havia mais que caminhar direito á cidade
eterna do matrimonio. Estacio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr.
Camargo pedindo-lhe a mão de Eugenia, carta sêcca e digna, como as
circumstâncias a pediam. Antes de a remetter, mostrou-a a Helena, que
recusou lel-a. Não a leu, nem lhe pegou. Elle teve-a alguns instantes
na mão, sem atrever-se a dal-a ao escravo que esperava por ella. Por
fim, deitou-a sôbre a secretária.
--Amanhã, disse elle sorrindo para Helena.
Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.
--Leva á casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.