Apearam-se os dous no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter
á varanda. Pizando o primeira degrau, disse Estacio:
--Helena, explique-me suas palavras de ha pouco.
--Quaes?
E como Estacio levantasse os hombros, com ar de despeito, continuou
Helena:
--Perdõe-me; sua pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do
que a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer
meias confissões; mas neste caso a confissão inteira seria imprudencia
maior. Se se tratasse de factos, creia que a ninguem melhor podia
confia-los do que a voce; mas por que motivo irei perturbar-lhe o
espirito com a narração de meus sentimentos, se eu propria não chego
a entender-me?
Estacio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e
entraram na sala de jantar, onde acharam D. Ursula dando as ordens
daquelle dia, a dous escravos. Estacio entrou pensativo; Helena mudou
totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era sincera a
melancholia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara a jovialidade
de costume. Dissera-se que a alma da moça era uma especie de comediante
que recebêra da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que
a obrigava a mudar continuamente de vestuario. D. Ursula viu-a entrar
risonha e ir a ella dar-lhe os costumados--_bons dias_--que era sempre
um beijo,--ou antes dous,--um na mão, outro na face.
--Demorei-me muito? perguntou ella voltando rapidamente o corpo, de
maneira a ver o relogio que ficava do outro lado da sala. Nove horas!
Que passeio, Sr. meu irmão!
Estacio olhava para ella silencioso e não lhe respondeu. Seu olhar não
era de censura, mas de curiosidade, pena e admiração. Os dous foram
logo depois mudar de _toilette_, e o almôço reuniu a familia. D.
Ursula propoz, durante elle, algumas mudanças na disposição da
chacara, mudanças que foram longamente discutidas com o sobrinho, e
aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Ursula desceu
á chacara com Estacio. As alterações foram ainda estudadas e
combinadas no proprio terreno, com assistencia do feitor. Logo que
acabou a deliberação e que o projecto de D. Ursula foi definitivamente
assentado, Estacio reteve-a e lhe disse:
--Preciso falar-lhe um instante.
--Tambem eu.
--Quaes são os seus sentimentos actuaes em relação a Helena? Oh! não
precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são
meras apparencias. Não creio que seja absolutamente amiga della; mas
não póde negar que a antipathia desapareceu ou diminuiu muito.
--Diminuiu, talvez.
--E com razão. Pensa que tambem eu não tive repugnancias
depois que ella aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem
desaparecido,--desapareceriam hoje de manhã.
--Como?
Estacio referiu á tia a scena do capitulo anterior e as palavras que
lhe dissera Helena. D. Ursula sorriu ironicamente.
--Não a impressiona isto? perguntou Estacio.
--Não, respondeu D. Ursula com decisão; a phrase de Helena é achada
em algum dos muitos livros que ella le. Helena não é tola; quer
prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que
começo a gostar della; é dedicada, affectuosa, diligente; tem
maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é
naturalmente sympatica. Ja vou gostando della; mas é um gostar sem fogo
nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença
de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cançada.
Helena preenche essa lacuna. Se alguma cousa, entretanto, a podia
prejudicar nas nossas relações é esse dito.
Estacio tomou calorosamente a defesa da irmã.
--O que eu lhe contei, disse elle, foram apenas as palavras. Não pude
nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ella as proferiu e a
profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vel-a
mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de
dúvida; mas passou logo. Sua natureza tem esse raro poder de concentrar
a amargura no coração; tambem a dor tem suas hypocrisias...
--Mas que dor? que amargura? interrompeu: D. Ursula. A dor de ser
legitimada? a amargura de uma herança?
Estacio protestou calorosamente contra aquelle caminho que a tia dava a
suas ideias; emfim pediu-lhe que interrogasse com cautella a irmã.
--Um homem, concluiu elle, é menos apto para obter taes confissões;
uma senhora, respeitavel e parenta, está mais no caso de lhe captar a
confiança e obter tudo. Quer incumbir-se desse delicado papel?
--Pedes muito, respondeu D. Ursula. Verei se te posso dar metade disso.
Era só o que tinhas para dizer?
--Só.
--Uma creancice! Eu tenho cousa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me:
trata-se...
--Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estacio; la vem elle.
Camargo apparecêra effectivamente a vinte passos de distância.
--Doutor,--disse D. Ursula, logo que este se approximou delles, chega um
pouco fóra de proposito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho,
que ainda não sabe o que o senhor lhe quer.
--Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me approva.
--Completamente,
--Trata-se...--disse Estacio.
--De uma conspiração; todos conspiramos em seu beneficio.
D. Ursula retirou-se para casa; os dous ficaram sos. Uma vez sos,
Camargo pousou a mão no hombro de Estacio, fitou-o paternalmente, emfim
perguntou-lhe se queria ser deputado. Estacio não pôde reprimir um
gesto de sorpreza.
--Era isso? disse elle.
--Creio que não se trata de um supplício. Uma cadeira na camara! Não
é a mesma cousa que um quarto no aljube.
--Mas a que proposito...
--Ésta ideia apoquentava-me ha algumas semanas. Doia-me ve-lo vegetar
os seus mais bellos annos n'uma obscuridade relativa. A política é a
melhor carreira para um homem em suas condições; tem instrucção,
caracter, riqueza; póde subir a posições invejaveis. Vendo isso,
determinei-me a mettel-o na Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução.
Para facilitar-lhe o successo, entendi-me com duas influências
dominantes, o negocio afigurasse-me em bom caminho.
Estacio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.
--Mas doutor, disse elle depois de curto silêncio, houve de sua parte
alguma precipitação. Pelo menos, de via consultar-me. Do modo por que
arranjou as cousas, quasi me acho desobrigado de lhe agradecer a
intenção. Quanto a acceitar, não acceito.
Camargo não perdeu a tramontana. Havia nelle a tenacidade do dogue e a
tactica da serpente. Deixou passar por cima da cabeça a primeira onda
de desagrado, surgiu fóra e insistiu tranquillamente:
--Vejamos as cousas com os oculos do senso-commum. Em primeiro logar,
não creio que tenha outros projectos na cabeça.
--Talvez.
--Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A sciencia é ardua e
seus resultados fazem menos ruido. Não tem vocação commercial nem
industrial. Medita alguma ponte-pensil entre a Côrte e Nictheroy, uma
estrada até Matto-Grosso ou uma linha de navegação para a China? É
duvidoso. Seu futuro tem por ora dous limites unicos, alguns estudos de
sciencia e os alugueis das casas que possue. Ora, a eleição nem lhe
tira os alugueis nem obsta a que continue seus estudos; a eleição
completa-o dando-lhe a vida pública, que lhe falta. A unica objecção
seria a falta de opinião política; mas ésta objecção não o póde
ser. Hade ter, sem dúvida, meditado alguma vez nas necessidades
públicas, e...
--Supponha,--é mera hypothese,--que tenho alguns compromissos com a
opposição.
--Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na camara--embora
pela porta dos fundos. Se tem ideias especiaes e partidarias, a primeira
necessidade é obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe
der a mão,--se não fôr o seu,--ficará, consolado com a ideia de ter
ajudado a a um adversario talentoso o honesto. Mas a verdade é que não
escolheu ainda entre os dous partidos; não tem opiniões feitas. Que
importa? Grande numero de jovens politicos seguem, não uma opinião
examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas affeições,
a que seus paes ou amigos immediatos honraram e defenderam, a que as
circumstâncias lhe impõem. Dahi vem algumas legítimas conversões
posteriores. Tarde ou cedo o temperamento domina as circumstâncias da
origem, e do botão luzia ou saquarema nasce um magnifico lyrio
saquarema ou luzia. Demais, a política é sciencia prática; e eu
desconfio de theorias que só são theorias. Entre primeiro na camara; a
experiencia e o estudo dos homens e das cousas lhe designarão a que
lado se deve inclinar.
Estacio ouviu attento éstas vozes com que a serpente lhe apontava para
a árvore da sciencia do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a
discutir philosophicamente com o reptil.
--Entra-se na política,--disse elle,--por vocação legítima,
ambição nobre, interesse, vaidade, e até por simples distração.
Nenhum desses motivos me impelle a dobrar o cabo Tormentorio.
--Da Boa Esperança,--emendou Camargo rindo;--não supprima tres seculos
de navegação.
Estacio riu-se tambem. Depois falou ao médico de sua indole e
ambições. Não negava que tivesse ambições; mas nem só as havia
políticas nem todas eram da mesma estatura. Os espiritos, disse elle,
nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras especies intermedias. A
uns é necessario o horisonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo
batem as azas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas
longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder o ninho.
Estes eram os obscuros, e, na opinião delle, os mais felizes. Não
seduzem as vistas, não subjugam os homens, não os menciona a história
em suas páginas luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que
abrigaram a prole, a árvore em que pousaram, são as testemunhas
unicas, e morredoras da felicidade de alguns dias. Quando a morte os
colhe, vão elles pousar no regaço commum da eternidade, onde dormem o
mesmo perpétuo somno, tanta o capitão que subiu ao summo estagio por
uma escala de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o
esqueceu duas horas depois. Suas ambições não eram tão infimas como
seriam as do cabreiro; eram as do proprietario do campo que o capitão
atravessasse. Um bom peculio, a familia, alguns livros e amigos,--não
iam além seus mais arrojados sonhos.
Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
--Meu caro Estacio,--disse, elle depois,--esse trocadilho de andorinhas
e cabreiros é a cousa mais extraordinaria que eu esperava ouvir a um
mathematico. Saiba que detesto egualmente a philosophia da obscuridade e
a rhetorica dos poetas. Sobretudo gósto que me respondam em prosa
quando falo em prosa.
--Parece-lhe que poetei? perguntou Estacio rindo.
--Despropositamente! Ora, eu falo de cousas sérias; e convem não
confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que
são a parte ideológica e vã.
--Eu serei ideologo,
--Não tem direito de o ser.
--Pois bem, deixe-me com as minhas mathematicas, as minhas flôres, as
minhas espingardas.
--Não! Ha de intercalar tudo isso com um pouco de política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paleto, Camargo fel-o sentar ao pe
de si, no banco que alli estava mais proximo. Depois falou. O novo
discurso foi o mais longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma
das vantagens da vida pública deixou de ser apontada com uma
complacencia de tentador; todas as glórias, pompas e satisfações da
política, e não só as reaes, mas as ficticias ou duvidosas, foram
inventariadas, pintadas, douradas e illuminadas pelo médico. Sua palavra
revellou um poder de evocação, uma vehemencia, uma energia, que
ninguem era capaz de suppor-lhe. O taciturno desabrochou tagarella. Para
falar tanto e com tal fôrça era preciso que o animasse um grande
sentimento ou um grande interesse.
Estacio, lisonjeado com a affeição que elle lhe mostrava, não teve
ensejo de fazer essa reflexão. Nem se animou a repetir a recusa;
adoptou o alvitre de deferir a resposta para outra occasião.
--Ja lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou prompto a
reflectir, e a consultar o padre Melchior e Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente
não passou o effeito de um sorriso sardonico e dissimulado. Interveiu
uma pitada de rapé, que o médico inseriu lentamente, depois de a
extrahir lentamente de uma boceta de tartaruga, presente do conselheiro
Valle.
--Helena! disse elle com alguma hesitação. Que vem fazer sua irmã
neste negocio?
--É um voto,--redarguiu Estacio; e menos leve do que lhe parece. Ha
nella muita reflexão escondida, uma razão clara e forte, em boa
harmonia com as suas outras qualidades feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projectou-se uma longa ruga, e foi toda
a expressão de seu espanto e desgôsto. A resposta de Estacio
revellara-lhe uma situação nova na familia: o voto de Helena,
consultivo agora, podia vir a ser preponderante. Ésta solução, que
porventura faria estremecer de alegria os ossos do conselheiro, não a
previra o médico. Limitou-se a notal-a de si para si; e, terminando
subitamente a conversa, disse:
--Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com a minha
opinião, não é seu amigo. Em todo o caso, ninguem lhe poderá
affirmar que não é a amizade, a longa amizade.
Estacio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe affectuosamente a mão.
Tinham-se levantado. Era quasi meio dia; Camargo despediu-se alli mesmo;
ia ver dous doentes no caminho da Tijuca. O filho do conselheiro
atravessou sosinho a chacara; ia pensativo, e aborrecido. A política,
na sua opinião, era uma noiva importuna; mas se todos conspirassem a
favor della, não sería elle obrigado a desposal-a? A ésta reflexão
respondeu a voz do padre Melchior, do alto de uma janella:
--Venha ca, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?