Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger

conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que

d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas

linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais

tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo

os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si

analogos modelos.

Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação

nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo

que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas

primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas

secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este

nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes,

embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por

completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu

começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno

numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo

particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_

é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á

mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em

outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle

colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da

demencia.

[2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

[3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo

tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em

sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão

geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu

anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da

metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase

de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella

suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das

quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a

_Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto

é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario

ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

[1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.

[2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.

Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma

clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo

a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a

demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas

ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de

perseguições.

Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram

absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se

em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura

essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados

allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e

depressivo.

Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente

distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição

e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias

ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da

personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente

chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez

_monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell,

não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de

_Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das

allucinações.

Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da

excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e

acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre

Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do

seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria

allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as

alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio

e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes

estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._

Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_

descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma

variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre

Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo

são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente

phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra,

originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data

preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da

_Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de

ser um dos seus modos de terminação.

Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados,

admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora

acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865

mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou

melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.

Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito

de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera

clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre

Verrücktheit_.

* * * * *

Voltemos aos trabalhos francezes.

Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da

sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela

ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações

que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os

perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios--a ponto,

dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança,

Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam

armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como

Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma

ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem

de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das

aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos

alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o

celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas

variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma

_passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se

defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes

suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás

auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se

mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e

respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos

doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado,

de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo

especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do

delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.

Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo

espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou

commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza

clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á

personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes

ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua

antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos

reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,

incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os

doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o

abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior

valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros

individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos

a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos

factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta,

um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que

passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção

delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,

offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.

Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel

professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção

clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,

a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas

medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França,

essa unidade do delirio de perseguições.

Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos

activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que

profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia--tudo n'elles é

differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas

no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos

passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,

como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por

erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na

marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração

de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de

perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma

historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com

razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os

representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de

perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose

senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais:

na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em

erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,

n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia

ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou

passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de

perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret,

acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.

Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as

idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no

diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.

A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem

desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de

hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições

ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou

na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje

aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual

desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado

de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes

passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,

perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma

palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados

hereditarios»[1].

[1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3

A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier:

«Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação

superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame

escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na

direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não

demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de

interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do

mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade

sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].

[2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.

Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha

periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma

evolução progressiva ... Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos,

mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de

grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].

[1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.

A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos

doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou

convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se

attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,

estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,

nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos

a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por

um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].

[2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.

Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos

citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores

conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas,

chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A

explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo

Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a

intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel

actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não

é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas

que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e

circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo

pôr em duvida.

Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante

cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores

hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento

seguido, hostilisam o medico assistente.

As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os

perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de

loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias

psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças

mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo

apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a

titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua

experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem

soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o

delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos

auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples

variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao

lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle,

fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._

III--PHASE SYNTHETICA

De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A

loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a

Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional

insanity--Determinação pathogenica.

Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se

esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os

delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a

qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais

precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.

Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da

hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso

da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica

do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da

hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma

hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se

assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria,

disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais

extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e

afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se

assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre

exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma

reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos,

basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio

predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado

nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos)

chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo

menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam;

quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias

occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria

policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na

phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de

perseguições_ melhor do que todas exprime»[2].

[1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706.

[2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.

Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação

frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos,

escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de

contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas

systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo

e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de

passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem,

as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos

hypocondriacos»[3].

[3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.

Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,

Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_

mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma

alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia

procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para

os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos

doentes._

Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na

hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica,

naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os

contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia

geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso

dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o

das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a

sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam

ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de

grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros

classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a

memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de

1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no

capitulo anterior.

Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre

os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista

d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da

psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias

Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental

franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das

idéas.

É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de

Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios

systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de

Gérente.

Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a

provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio

hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas,

mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão

phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os

delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a

evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos

que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de

certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie

morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1].

[1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10.

O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma

doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía

nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres

periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um

mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga

sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_

mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado

essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi

sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental,

n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação

permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados

physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual,

sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois,

um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um

alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_.

Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que

a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente

e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples

torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo

inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.

Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que

procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que

varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas

concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras

germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de

perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania).

Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações

auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que

póde ser muito longa.

Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica,

enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em

sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas

angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma

restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza,

ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva.

Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e

sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo

periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

A Paranoia · 第 2 / 12 段