Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um cer

A PARANOIA

Julio de Mattos

ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

_...Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo

querito della pura pazzia._

EUGENIO TANZI

Lisboa

Livraria Editora

Tavares Cardoso & Irmão

5, Largo de Camões, 6

1898

A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS

PREFACIO

Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas

pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais

apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se

apropriaram a designação de _mentaes_, os delirios systematisados,

esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas

causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes

objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose

por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da

psychiatria.

Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a

génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os

somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.

Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do

ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a

pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus

trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das

sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por

confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o

problema posto.

Por outro caminho,--introduzindo no controvertido thema a criterio da

evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes

pshychiatras.

Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na

sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do

delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus

ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas

anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de

uma especie em plena evolução.

Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas

_progressivamente_ por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão

inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle

não segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas

ideativas?

Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só

depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os

verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os

actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na

desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os

sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os

egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente

conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos,

n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se

dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.

PRIMEIRA PARTE

Historia dos delirios systematisados

I--PHASE INICIAL

De Areteu a Esquirol--Confusão dos delirios systematisados com a

melancolia--A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e

expansiva.

Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento

os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro

seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e

inequivocas referencias aos perseguidos.

Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes

medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos

adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna

suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte

disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos

mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança

continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2].

[1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la

folie,_ pag. 10

[2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38.

A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e

melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece

explicar-se desde já.

Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu

caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava

igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de

angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepção,

delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione

defixus_). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado

foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental

depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que

succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia

da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que

acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é

limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo,

geral e dispersivo.

Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o

elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões

que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos

equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a

mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi

exclusivo».[1]

[1] Vid. Morel,_Traité des maladies mentales_, pag. 54.

Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e

analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura

como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera,

restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido

_in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo

XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu

ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os

megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja

razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um

objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o

auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo

e cuja razão, _só parcialmente lesada_, lhe permittia «dissertar

perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos

melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de

hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes

«possuidos das idéas de opulencia e de realeza».

A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o

acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos

estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na

melancolia o delirio é muitas vezes alegre».

Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no

quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os

delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o

delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry

descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com

paixão excitante».

A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a

estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma

triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia

igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,

caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz

elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas

oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a

idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,

outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e

mesmo o desespero»[1].

[1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag.

165.

Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as

idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de

_monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou

especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania

propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de

Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre

outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a

monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á

melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio

parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas,

não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o

symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.

Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol

transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que

lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o

extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás

psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente

perigosa.

No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo

_monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario

da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é

confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com

significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,

ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e

de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o

mesmo que a melancolia dos antigos--uma affecção parcial do

entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra

_monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no

sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade:

ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania

affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções

procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo

entra no quadro da monomania--o mais amplo, diz Esquirol, de toda a

classificação.

De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do

significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do

caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão,

Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.

Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado

prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem

duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,

Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos

a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a

solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas

as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor

grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa

invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as

outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer

delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o

intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde

acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve

exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O

delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a

verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem

redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_

significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava

que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as

outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e

preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.

[1] Falret, _Des maladies mentales_

[2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_

«Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,

dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas

que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas,

se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu

lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias

pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no

monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só

ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de

grupo distincto.»[2]

[1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.

[2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.

Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.

A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio

limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos

antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos

conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha

compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por

um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por

um delirio parcial e fixo.

Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_

entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_

descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,

encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado

do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta

classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os

delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma

variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as

manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.

II--PHASE ANALYTICA

De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de

perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit

secundaria; a Verrücktheit originaria--Começo de interpretação

pathogenica.

Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o

delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie

pathologica entre as alienações mentaes».

No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista

começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio

symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas

_loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos

_delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira

vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e

essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de

resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma

evolução caracteristica.

Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe

dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido

e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita

victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro,

_de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa.

Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com

uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo

que ella é _absurda_; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema

delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro

d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes

_que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e

arrasta-se em outros, que só _muito gradualmente_ e por uma _progressão

bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance

delirante.

Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle _se

não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal_;

é indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem

presentir a invasão das doenças graves_. O periodo de estado, esse, é

como a _floração_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se

pelo reconhecimento dos perseguidores--a policia, o jesuitismo, os

magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.

Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que

desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do

ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações

sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos

de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que

naturalmente se produzem,--a passagem de um trem, os passos de uma

pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são

objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das

allucinações auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio

de perseguições;_ e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para

que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de

delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que

seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre

ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este

caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do

ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um

phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido,

diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente

necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo

elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a _fundar

inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes_, alguns ha que

percorrem _todos os periodos da doença_.

[1] Lasègue, _Le délire des persécutions_ in _Ètudes médicales_, tom.

1., pag. 554.

[2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

[3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

[4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações

de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões

nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á

conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz

elle, offerecem os exemplos mais frequentes--sopros internos, subitos

calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros

accidentes tão moveis da hysteria»[4].

[3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 556.

[4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 557.

Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu

tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia

sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações

anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente

elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão

secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões

morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á

mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago

mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi

invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial

seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o

phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro.

«É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de

resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus

soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição

faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são

extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas

concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em

condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha

posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de

exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou

desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois,

crêr que intenções hostis são a causa das impressões que

experimento»[2].

[1] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

[2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante,

a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de _grandes

perturbações de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando

constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e

auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa

egualdade de humor_ «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia

continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3].

[3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 551.

Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do

delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta

psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica,

25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam

perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa

insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de

sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao

caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos

não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente

clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um

_elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem

equivalente no estado de saude._

Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os

caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista

declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas

indicações therapeuticas».

Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria

memoria de Lasègue.

Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde

1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos,

affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam

por delirar n'um sentido ambicioso.

Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de

generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha,

contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que

elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia

ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se

julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos

criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado,

Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á

_lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como

exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois

perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um

alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em

constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão

alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se

igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol

figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de

saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das

perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por

parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de

Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas

observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que

um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro

a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente,

mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem

regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio

ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a

affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios

hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não

constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena

distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos

_Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em

1860.

Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet,

notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e

de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou

incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se

preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville,

retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com

predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a

passagem--tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos

incidia sobre ella--do delirio de perseguições ao de grandezas.

Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante,

o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.

Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a

titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos

relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos,

Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste

inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial

e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo,

este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.

A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de

Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas

pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado,

ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de

perturbações sensoriaes, e chronicidade.

O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes

d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle

define como um delirio de grandezas logicamente coordenado,

associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a

idéas de perseguição.

Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre

outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente

original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um

delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no

trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de

grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.

Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de

perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz

a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de

factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar

para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se

apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um

facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é

primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.

Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza

mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise

n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um

perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o

delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas

de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na

loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera

Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um

caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem

um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante

mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o

perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.

Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a

passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto,

deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.

A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao

de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico.

«Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as

proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com

explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos

lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não

podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de

pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as

instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo

que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem

cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os

protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao

conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes

personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos

individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e

principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio

melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia

preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados

pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem

dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o

apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem

explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes

doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco

importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu

atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade

que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo,

dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se

comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque

tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que

fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de

que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque

não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque

pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].

[1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag.

345.

E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se

nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu

orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do

mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma

origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é

relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na

loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de

perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de

grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].

[1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.

Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de

Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no

delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo

logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo

Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio

persecutorio.

Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de

grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções

ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de

surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação

regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as

situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve

Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando,

figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado

pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de

que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção

de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e

fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e

consequencia das idéas de grandezas»[1].

[1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.

É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a

explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a

vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de

partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a

dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.

Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a

allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros;

a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e

reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.

Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque

o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle

auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente

o encontrou.

De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:

Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de

estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é

invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde

originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio

persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem

mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é

muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de

autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_.

Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio

parcial de grandezas.

Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria

franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que

tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o

conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand

du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso,

certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse

clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o

contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua

extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o

delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel,

com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é

ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para

o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á

parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta

passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita

dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio

do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da

doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem

de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.

[1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11.

Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de

perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação

indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um

grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela

definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_

invariavel para cada doente.

Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro

periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes

os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem

de preciso.

Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao

segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro

raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos

outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta,

que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria

saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes

infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus

soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este

mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas

devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente

naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em

perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].

[1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.

Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar

preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de

illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar

uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se

abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle,

os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras

allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha

variavel»[2].

[2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.

Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na

doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma

quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como

Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa

preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida.

Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e

as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo

quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de

perseguições--na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du

Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.

Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo

eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852,

Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem

do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por

Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de

ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos,

depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao

electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como

podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso

admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um

alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido

necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade

verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e

de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um

notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu

evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas;

attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto

poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a

partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra

direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não

cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na

côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o

cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o

chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o.

N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza

pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os

inimigos existem ainda»[1].

[1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.

«Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros

sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova

transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão

dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco

o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são

tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são

infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me

mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado

n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é

dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado

do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que

se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações

odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um

interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques,

principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas

então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o

meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha

corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até

hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome

de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha

familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque

de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].

[2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.

Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara

a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos

naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um

acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma

situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação

mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com

que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que

apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua

imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]

[1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.

Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio

de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém,

como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas

apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue.

Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se

refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições

idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na

paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e

pelo sulfureto de carbone.

Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem

notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes,

ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a

existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de

caracter differente--vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e

a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um

incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.

* * * * *

Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na

ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam

os delirios systematisados.

Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no

seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que

só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção

Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente

professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios

parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar,

dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia

mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção

de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos

perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas

transcripções que seguem.

Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu

mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas

activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e

tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade,

reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de

Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza

e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas

passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder

d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos

inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal,

são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e

roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]

[1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag.

386.

Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e

allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como

na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente

que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam

com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a

accessos de colera»[1]

[1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações

de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere

tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as

coisas ... As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir

um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas

do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido ... Alguns

d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior

deixou de existir»[2]

[2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.

Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma

longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem

ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo

que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um

vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a

linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio,

Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu

systema geral de absurdos»[4].

[3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

[4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor

allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do

mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem

morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais

estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a

familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma

sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde

abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da

vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo

elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario,

as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].

[1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

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