VI

No dia seguinte ás onze horas da manhã, todos nós, os que haviamos ficado

n'essa casa fatal, nos achavamos reunidos, de rosto descoberto, em torno

do cadaver.

O doutor havia sido conduzido ao ponto da estrada de Cintra, em que fôra

tomado na vespera.

F..., encarcerado durante a noite em um quarto interior da casa, havia

communicado com um allemão que habitava o predio contiguo, e passára-lhe

de manhã por um buraco feito no tabique, a carta ao doutor, publicada mais

tarde no _Diario de Noticias_. Em seguida arrombou a porta do quarto que

lhe servia de carcere, e depois de uma altercação violenta, arrancou a

mascara ao primo da viscondessa. Os outros dois mascarados, vendo o seu

companheiro descoberto, tiraram egualmente as mascaras. Um d'elles era

intimo amigo de F...

--Que é isto?... Como póde isto ser?... gritou F... exaltado.

E apontando em seguida para o cadaver, continuou:

--Aquelle homem está morto, e foi roubado. Depressa expliquem-se! como

póde isto ser?

--Meus senhores,--exclamou o _mascarado alto_--o segredo que eu tenho tido

em meu dever guardar dentro dos muros d'esta casa, e que espero fique para

sempre sepultado n'ella, pertence a uma senhora. Uma parte d'este segredo,

aquella que mais particularmente nos interessa, a que explica a presença

d'aquelle cadaver diante de nós, conhece-a este senhor.

E voltando-se para mim ao dizer estas palavras, accrescentou:

--Em nome da nossa dignidade, emprazo-o pela sua honra a que declare o que

sabe.

--Jurei não o dizer--respondi eu--não o direi nunca. Ao entrar aqui, em

presença de um perigo que julguei imminente sobre a cabeça das pessoas

mais particularmente envolvidas n'este mysterio, perdi os sentidos,

desmaiei mulheril e miseravelmente. Falta-me diante do perigo a energia

physica, que é a feição visivel do valor. Não imaginem por isso que tambem

careço de força moral precisa para guardar um segredo, á custa que seja da

minha propria vida! Interrogado por gente mascarada, que não conhecia,

era-me licito mentir, pôr tambem na resposta uma mascara. Diante de gente

de bem, que me interroga invocando a sua honra, o meu dever é calar-me.

Previno-os de que são absolutamente inuteis todas as tentativas que

fizerem para me obrigarem a outra coisa.

--Não é difficil de cumprir o seu dever! observou com ironia o mascarado

alto. O corpo d'aquelle desgraçado não póde ficar ali por mais tempo. É

urgente que tomemos uma deliberação decisiva e que salvemos a

responsabilidade que pesa sobre nós, de modo tal que fique para sempre

tranquilla a consciencia que nos dictar o conselho que houvermos de

seguir. Visto que este senhor se recusa a principiar, começarei eu.

E traçou sobre uma folha de papel as seguintes linhas, que ia pronunciando

ao mesmo tempo que as escrevia:

«_Minha prima._

«Na rua de... n.^o... acham-se n'este momento reunidos diante de um

cadaver os seguintes homens: (seguiam-se os nossos nomes). É um tribunal

supremo constituido pelo acaso e que vae julgar em derradeira e unica

instancia o crime sujeito pela fatalidade á nossa jurisdicção. Se em

presença d'este tribunal a minha prima tiver que depôr, peço-lhe que o

faça.»

--Perdão...--observei eu.--Peço licença para accrescentar uma linha:

«A. M. C. não devolve a chave.»

* * * * *

Elle escreveu o que dictei, assignou, dobrou o papel, e disse a um dos

seus amigos:

--Vae já entregar este escripto á condessa de W...

Meia hora depois uma carruagem que percorrera a rua a galope parou á porta

do predio em que estavamos. Rolámos para dentro da alcova o sofá em que se

achava o cadaver, e cerrámos o reposteiro da sala. Abriu-se a porta, e a

condessa entrou.

Seguira o alvitre que lhe propus. As vinte e quatro horas decorridas desde

que eu a deixára até ao momento de partir para ali, tinha-as empregado em

escrever com uma eloquencia apaixonada e febril a historia da sua

desgraça. O caderno que lhe remetto encerra, senhor redactor, a copia da

longa carta dirigida por ella a seu primo. Cedo o logar que estava

occupando nas columnas do seu periodico á publicação d'este documento, que

verdadeiramente se poderia chamar _O auto de autópsia de um adultério_.

Depois direi o destino que démos ao cadaver, e o fim que teve a condessa.

+A Confissão d'ella+

I

Parece-me ás vezes que tudo isto se passou n'uma vida distante como um

romance escripto, que me causa saudades e dôr, ou uma velha confidencia de

que a minha alma se lembra. Mas de repente a realidade cae arrebatadamente

sobre mim, e creio que soffro mais então, por ter a consciencia de que não

devia nunca ter deixado de soffrer. Foi bom que me determinasse a esta

confissão. Contar uma dôr é consolal-a. Desde que me determinei a escrever

estas confidencias, ha no meu peito um alivio e como um movimento de dôres

crueis que desamparem os seus recantos.

O principio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer.

Lembra-me o dia, a hora, a côr da relva, a côr do meu vestido. Foi no fim

do penultimo inverno, em maio. _Elle_ estava tambem em Paris. Viamo-nos

sempre. Ás vezes saíamos da cidade, iamos passar o dia a Fontainebleu,

Vincennes, Bougival, para o campo. A primavera era serena e tepida. Já

estavam floridos os lilazes. Levavamos um cabazinho da India com fructa,

n'um leito de folhas de alface. Riamos como noivos...

Havia tres mezes que estavamos em Paris: o conde--creio que o

disse--estava na Escossia com lord Grenley caçando a raposa nas tapadas do

principe de Beaufort.

Houve então um baile no _Hotel de Ville_, um d'esses bailes officiaes em

que uma multidão de praça publica se acotovella sob os lustres,

brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma walsa com um coronel

austriaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veiu a

mim, toda risonha:

--Conheces este nome: _miss Shorn?_

--Não. Uma americana?

--Uma irlandeza. Uma maravilha, O prefeito dançou com ella; a condessa

Waleuska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometteu-lhe um desenho. Vae ser

apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a

insignificante. Bonitos cabellos, sim. Não se falla n'outra cousa! Mas tu

deves conhecel-a...

--Porque?

--Tem dançado com Captain Rytmel, parecem intimos. Tu ris?

--Eu?

--Não... tu riste!

--Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida!

--_Tiens, tiens!_--murmurou ella, olhando muito para mim.

E affastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Ás vezes, na nossa

alma, toca-se de repente a rebate, e as desconfianças adormecidas,

acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel.

--Captain Rytmel approximara-se.

--Vem radiante, disse-lhe eu. Quem é miss Shorn?

Elle respondeu gravemente:

--É a amiga intima de minha irmã.

Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste.

Os movimentos da dança lembravam-me as cerimonias d'um culto. O meu ramo

ficou espalhado pelo chão. N'esse instante, sem saber porquê, detestei

Paris, o ruido, o imperio; desejei as sombras de Cintra, os retiros

melancolicos de Bellas, cheios dos murmurios da agua.

Quiz sair. N'uma das ultimas salas uma mulher alta, loira, tomava das mãos

d'um velho extremamente magro e distincto a sua _sortie de bal_.

Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto d'ella, e

fallando baixo para mim:

--Miss Shorn! disse elle.

Era realmente linda. Grandes cabellos loiros, fortes, luminosos; os olhos

largos, intelligentes, serios; um corpo perfeito.

N'essa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam accesos.

Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos hombros o

_burnous_. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem apparecia ao fundo

do quadro n'um vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços

nús, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciencia de que eu

estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser

linda!

D'ali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps.

Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um logar na tribuna do _Jockey_.

Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a córte, a diplomacia;--a

tribuna resplandecia de fardas, de joias, de plumas, de reflexos de seda.

As musicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos

batalhões em marcha, o luzir das bayonetas, as vozes de commando, o

galopar dos cavallos, o brilho dos capacetes, o ceu resplandecente, como

um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava extranhos sentimentos de

guerra e de gloria. E todo o corpo estremecia quando aquellas poderosas

massas passavam gritando:

--Viva o imperador!

Sou uma pobre mulher, mas estremecia tambem!

A infanteria tinha passado. Rytmel fôra fallar com miss Shorn, que estava

em companhia de lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prussia, ficara

collocado junto d'ella.

Ia passar a artilheria e a cavallaria. O imperador, com o seu estado

maior, tinha vindo collocar-se ao pé da tribuna do _Jockey_. Nós todos nos

inclinavamos para ver os generaes que o cercavam: Montauban, o que tomára

Pekim; Canrobert com os seus longos cabellos brancos; a espessa figura de

Besaine; o altivo perfil trigueiro de Mac-Mahon, que viera da Algeria...

Miss Shorn era tambem muito olhada na tribuna do _Jockey_. Dizia-se que a

imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a

conhecer, um ramo de violetas do polo.

Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planicie, d'onde a

cavallaria devia partir, e corria um arrepio d'enthusiasmo perante um tão

grande poder militar. N'essa manhã fallava-se em certas reservas entre o

gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se Sadowa, mil cousas que eu

não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com o seu

tumido sorriso prussiano.

No entanto, a cavallaria formara em linha. Os clarins tocavam, as

bandeiras desdobravam-se: e de repente aquella enorme massa despediu á

carga cerrada do fundo do campo, para a tribuna do _Jockey_.

Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob

o compasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já

os coroneis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar offegante

dos cavallos. O imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de

pé... De repente, por um movimento unico, toda aquella enorme columna

estacou firme, vibrante, immovel, reluzente, agitando as espadas, e

gritando:

--Hurrah! Viva o imperador!

A tribuna, de pé, respondeu:

--Hurrah!

Então, vendo uma tão admiravel cavallaria, uma tão grande força, tanto

prestigio imperial, e tomados do indomavel orgulho das tradições ou

possuidos da febre do sangue militar, muitos officiaes, que estavam nas

outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas, gritaram:

--A Berlim! a Berlim!

Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados:

--A Berlim! a Berlim!

E na tribuna algumas vozes clamavam tambem:

--Sim, sim, a Berlim!

O imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão aberta como

impondo silencio, ou como dizendo: _Esperae!_

Áquele grito inesperado todo o estado maior se tinha apertado em torno do

imperador, e eu que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal

Mac-Mahon deter subitamente o cavallo, voltar meio corpo rapidamente, e

com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do

animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava

o embaixador da Prussia. Eu segui o olhar do marechal, olhei tambem, e

vi... como hei de dizel-o? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, curvado,

fallando-lhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ella

olhava-o, extremamente séria, com um longo olhar demorado e convencido, em

que eu vi todo o fim da minha vida!

O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias · 第 42 / 61 题