IV

No dia seguinte á hora assignada apresentei-me em casa da condessa.

Era um predio de um só andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se-me a

porta da rua, appareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões

brancos, collete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabellos

brancos, polido e nedio como um embaixador, serio como uma estatua,

penteado como um gentleman. Fallou-me em francez e conduziu-me.

As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito

engommado de uma camisa. Ao meio dos degraus corria um tapete de veludo

passado em varetas de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede

uma concha de alabastro, cheia de plantas de longas folhas, em cima das

quaes gotejava a agua de uma pequena fonte. No alto da escada a mobilia

era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras doiradas

encerrando quadros a oleo. A luz, suave e alta, vinha atravez de vidros

baços. Havia o ar sereno e o perfumado silencio de uma tranquillidade

elegante e feliz. Não me parecia o palacio de um fidalgo, nem o palacete

de um burguez, mas sim o ninho domestico de um poeta ou de um artista.

Levantou-se um reposteiro e entrei em uma sala forrada de coiro,

circumdada de sophás e de poltronas com estofos de marroquim cravejado de

aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quaes

representava o busto da condessa, assignado e datado de Milão. Um dos

espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver,

no meio da casa proxima, que era um salão antigo, um piano de ebano

volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o

nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um _fauteuil_, achava-se um

violoncello defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés de

marmore havia alguns livros e vasos com flores. Os moveis estavam

dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas

e intimas. Sentia-se que estava ali, domiciliada n'um aconchego feliz, uma

existencia espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das

coisas, o vago prestigio do perfume, da harmonia, do calor, que as pessoas

que ahi tivessem estado haviam derramado em volta de si, conversando,

lendo, fazendo musica. Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a

mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande

espelho, uma figura immovel, tectrica, espectral. Voltei-me rapidamente, e

não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa.

Horrivel transformação por que ella passára! Durante as poucas horas que

haviam mediado entre esse momento e a ultima vez que a vira, a condessa de

W... tinha envelhecido dez annos. Os olhos profundamente encovados haviam

tomado uma expressão apagada e immovel; a carne tinha uma côr terrea e

opaca; os musculos faciaes, contrahidos na mais violenta oppressão,

davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o

aspecto de uma magreza extrema; os cabellos apanhados todos para traz,

alizados e seguros n'um rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e

despegavam-lhe do craneo as orelhas lividas, de uma saliencia rija e

cadaverica.

Fez-me signal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de

quem entra nos dominios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos em um

dos quartos d'ella. Apontou para um sophá e sentou-se ao meu lado, olhando

para mim, impassivel.

Ficou assim por um momento na mudez de uma dôr intraduzivel, pausa

terrivel em que a alma emerge de um abysmo de lagrimas e se debate

violentamente antes de apparecer na voz. Tinha os labios entre-abertos

como os de quem vae soltar um grito, e o queixo tremulo oscillava-lhe como

o das creanças subjugadas pelo terror no instante de lhes rebentar o

pranto. Por fim disse-me lentamente, com palavras pesadas, firmes,

entrecortadas, como se estivesse retalhando o coração e dando-m'o em

bocados!

--Peço-lhe que não me condemne pelas primeiras palavras que vae ouvir.

E, em voz baixa, depois de um breve silencio, accrescentou:

--Eu matei um homem.

--Que diz?! gritei eu estupefacto. Está louca! enlouquceu!

--Não. Não estou louca, tornou ella grave e serenamente. Não enlouqueci

ainda. E admiro isto. Como têem decorrido estas horas, minuto por minuto,

segundo por segundo, sem que a minha razão succumbisse n'esta desgraça

infinita, sem remedio, sem termo, sem remissão! Matei um homem...

Involuntariamente, sim, mas matei-o. Quero entregar-me aos tribunaes,

estou prompta, estou deliberada. Estendendo os olhos ao meu futuro, não

vejo senão uma esperança, senão um lenitivo unico no prazer de morrer em

tormentos, que eu abençoarei como os maiores beneficios do ceu, de morrer

de fome, de desprezo, de miseria, prostrada no fundo de uma enxovia, no

porão de um navio, ou abandonada em uma praia da Africa, abrazada pelo

sol, sobre as areias ardentes, roida pelo cancro, devorada pela sede e

pela febre. Por mim uma só cousa temo: a loucura que um momento em minha

vida me consinta a alegria horrivel de cuidar que ainda sou amada e feliz;

ou a morte repentina que me arrebate a consolação unica que Deus concede

aos grandes culpados: a liberdade de soffrer. Mas elle... O seu nome

descoberto! o seu cadaver profanado! o seu segredo trahido!...

E fallando, como n'um sonho, abstractamente:

--Desventurado homem! que fatal destino o encaminhou para mim

arremessando-o, de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte?

Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não

se deixou amar por Carmen Puebla, que o adorava e que morreu por elle? Que

cego, que imprudente, que desgraçado que foi!...

E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar n'um pranto convulso e

desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fóra

em borbotões de lagrimas e de soluços.

--Vamos,--disse-lhe eu quando esta crise abrandou,--serenemos um momento,

e pensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto?

--O conde?... interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos.

Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é

meu marido.

E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e

accrescentou com voz demudada e profunda:

--É o meu amante.

Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um

reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz.

A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca,

inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão

depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa

permanecia na mesma posição, n'uma insensibilidade que tanto podia ser a

prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava

surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu

levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada

n'um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia

consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o

despreso que ella n'esse momento me inspirava, e depois de um silencio

repassado de magoa:

--É horrivel isso!

Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante

ao espaldar de uma cadeira.

--Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É

natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas

quedas como incidentes triviaes da existencia domestica. Eu porém que sou

um selvagem, eu que me criei no principio de que a fidelidade é no

caracter de uma mulher um dever tão sagrado como a honra no caracter de um

homem, eu protesto, em nome das unicas mulheres que a minha inexperiencia

me tem permittido conhecer no mundo--em nome d'aquella que me gerou e em

nome d'aquella que eu amo--contra similhante interpretação da liberdade de

amar. Não comprehendo que cáia em tal erro uma pessoa limpa. O adulterio é

uma indecencia e uma porcaria. Matar um homem em taes circumstancias, é

mais do que faltar ferozmente ao respeito devido á inviolabilidade da vida

humana; é faltar egualmente ao respeito da morte... É atirar um cadaver a

um cano de esgoto... É tragico--e coisa ainda mais horrivel--é sujo...

Ella escutava-me em silencio, extatica, como hypnotisada pela minha

instinctiva mas cruel grosseria.

De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um gesto, caiu

desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta.

Quiz chamar alguem, ia a tocar no botão de uma campainha quando me

occorreu a inopportunidade de qualquer intervenção n'esta scena. Fui para

ella, que ficára estirada de costas sobre o tapete. Levantei-lhe a cabeça.

Não lhe senti o pulso. Ergui-a em peso, tomei-a nos meus braços. A fronte

d'ella pendeu sobre o meu hombro, ficando perto dos meus labios a sua face

desmaiada.

Approximei-me de um sophá. Depois, por um sentimento supersticioso de

respeito, colloquei-a n'uma cadeira de braços, e corri aos aposentos

contiguos áquelle em que estavamos. O quarto proximo era um gabinete de

vestir. Trouxe um frasco de agua de Colonia que estava n'um lavatorio.

Humedeci-lhe as fontes e os pulsos, fiz-lhe respirar o alcool.

Auscultei-a. O coração começava a bater. O pulso reapparecia.

Eu tinha-me ajoelhado junto da poltrona em que ella jazia e contemplava

melancholicamente a sua figura exanime.

Os olhos cerrados, a bocca entre-aberta deixando vêr os dentes miudos e

côr de perola, a cabeça reclinada ao espaldar, davam ao seu rosto, assim

em escorso, a expressão de uma figura d'anjo, ascendendo de um tumulo. Os

pés estreitos e finos, calçados em meias de seda e sapatos de setim preto

sobresaíam da orla do vestido n'uma immobilidade sepulchral. Uma das mãos,

atravez de cuja lividez se via a rede tenue e azul das veias, tendo no

dedo annular um circulo de grossos brilhantes entremeiados de rubis,

repousava-lhe no regaço, e do seu roupão de rendas pretas exhalava-se o

mesmo perfume, o perfume d'ella, que ficára na minha mão a primeira vez

que a vi.

Lembrei-me então da sua figura entrevista de noite, ao gaz de um candeeiro

da rua, tornada a vêr depois, á luz do dia, no Rocio, passando em

carruagem descoberta. E estas coisas, tão vivas na minha lembrança,

faziam-me todavia, a impressão de haverem passado ha muitos annos.

Ella estava velha!

Muitos dos seus cabellos, seccos, baços, como mortos, tinham embranquecido

nas fontes e no alto da cabeça.

A contracção violenta de todos os musculos da dôr transformara n'uma só

noite as suas feições e desfigurára a sua physionomia. Os cantos da bocca

tinham descaído ao peso das lagrimas como ao peso dos annos, e dois vincos

profundos sulcavam-lhe as faces flaccidas na mesma direcção obliqua que

tinham tomado os sobr'olhos, riscando-lhe a testa em rugas curvilineas e

transversaes.

Que medonha, que tenebrosa, que incomparavel angustia devia ter passado em

algumas horas por este desgraçado corpo para o devastar assim!

Na rua, a pequena distancia, um realejo tocava um _pot-pourri_ de varias

operas, e, ao som d'esse corrido martellar idiota da musica mecanica,

pareceu-me ver desfilar em louca debandada no ar, entre mim e a pobre

senhora, como n'uma especie de evocação ao mesmo tempo tragica e grotesca,

todos os grandes symbolos das educações sentimentaes, ladainha viva das

paixões elegantes, girando sob a manivella do seu realejo, n'um redemoinho

funebre, de dança dos mortos, em torno d'esse corpo desfallecido, como as

visões da vida passada, figuradas nos velhos retabulos, em torno do leito

das monjas moribundas.

Era como se, no decorrer d'essa musica, automatica como um andar de

somnambulo, eu visse perpassar no espaço a grande ronda das tentações que

na vida levaram comsigo o destino d'esta creatura: os pallidos Manriques e

os febris Manfredos, trazendo sob a capa das poeticas aventuras a bravura

cavalleirosa de campeador Ruy de Bivar ou do paladino Rolando, a

melancolia de Hamlet, a exaltação sentimental de Werther, a revolta do

Fausto, a sociedade de D. Juan, o tedio de Childe Harold; e toda a legião

dramatica das bellas mulheres amadas: Francesca, Margarida, Julietta,

Ophelia, Virginia e Manon.

E, em grinalda de beijos seccos, de beijos de pau, matraqueados no

instrumento da rua, todas essas figuras d'amorosas legendas bailavam

mysteriosamente ao som da _Traviata_, da _Lucia_, do _Balle in maschera_.

--_Amor! amor! amor!_--tal foi de certo a letra da grande aria que

constantemente lhe cantaram atravez de toda a sua existencia de mulher

bella, instruida e rica.

Foi n'esse mundo moral que a sua imaginação habitou e que se fez o seu

pobre espirito de linda creatura ociosa e desejada.

Como poderia ella adivinhar a honesta serenidade dos destinos simples no

meio de uma existencia tão complicadamente artificial como a sua?

Fóra dos interesses da elegancia, da moda, talvez da arte, que conhecia

ella de serio e de grave na vida senão a religião e o amor? Tinha um

missal e um marido. É pouco para o equilibrio de uma alma, principalmente

desde que o missal cessa de convencer e o marido cessa d'amar.

As que tem um salão, uma carroagem, um camarote na opera, um cofre cheio

de joias, um quarto cheio de vestidos, não pódem ser as singelas mulheres

que passam a vida a dar de mamar aos filhos e a vender cerveja, como diz o

Iago, de Shakespeare; nem podem resumir o seu destino facil em ter filhos,

chorar e fiar na roca, como diz Sancho Pansa. Esta não vendia cerveja, não

a ensinaram a fiar... Chorou apenas.

Quem sabe se na sua dourada existencia a amargura das lagrimas a não

compensou hoje de tudo quanto ignora da amargura da vida!

E tive uma paixão sincera com um remorso profundo das palavras crueis que

lhe dissera.

Que poderia eu fazer para a salvar? Não o sabia. Achava-me porém resolvido

a tudo, a sacrificar-me inteiramente, para lhe valer.

Devo dizer tambem que, vendo-a, ouvindo-a, eu não suppuz nem por um

momento que no homicidio de que ella se accusava podesse haver o que se

chama verdadeiramente um crime, isto é, uma intenção infame ou perversa.

Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem falla assim,

nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta fórma a uma

pessoa quasi extranha, quasi desconhecida. Ella tinha-m'o dito com a mesma

simplicidade com que o gritaria da janella para a rua, sem a minima

preoccupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha

deante de mim senão uma extranha nevrose, um caso de hallucinação, de

delirio raciocinado. Mas o delirio não faz padecer tanto. Tenho visto

muitos loucos no hospital. A expressão d'elles, ainda a mais dolorida, não

apresenta nunca a profundidade d'esta. É preciso ter toda a integridade da

sensibilidade e da rasão para soffrer assim. No padeccimento dos loucos ha

um não sei quê, sem nome talvez na symptomatologia do soffrimento, mas a

que poderiamos chammar--a isolação da alma.

Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um

recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de

episodios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de

medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe:

--Sabe mais alguem d'este caso?

--Sabe-o a minha creada de quarto, a que me acompanhava hontem quando nos

viu, e sabel-o-ha dentro em pouco meu primo H... a quem hoje escrevi. Meu

primo porém está em Cascaes. O morto é um extrangeiro. Ninguem, a não ser

meu primo, o conhece em Lisboa. Ignorava-se mesmo que elle existisse aqui.

Entregal-o aos tramites policiaes, ter de revelar o seu nome, descobrir a

sua naturalidade, a sua familia, eis o que principalmente eu queria

evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunaes, mato-me, fujo,

enterro-me viva... como quiserem!

--E sabe seu primo como elle morreu?

--Não. Vai saber apenas que está morto...

--Póde contar com o silencio da sua creada, por alguns dias ao menos?

--Posso. Por toda a vida.

--Evite, se póde, que seu primo receba hoje a sua carta. E... _elle_, onde

está?

--Na mesma rua em que nos encontrámos hontem, no predio n.^o...

--Para entrar na casa...

--Ha uma chave--respondeu ella.

E tendo meditado um momento:

--Hontem--prosseguiu--quando lhe disse que viesse hoje a minha casa,

estava louca de desesperação e de horror. Parecia-me que tudo quanto se

approximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se

affastava fugia para longe com o meu ultimo amparo, com o derradeiro

soccorro que eu ainda poderia ter n'este mundo!... Foi n'este delirio que

lhe pedi a V..., um extranho, um desconhecido, que viesse vêr-me... Para

quê?.. nem eu sabia para quê... Para contar isto a alguem, para me

decidir, para ter uma solução, para apressar um desenlace qualquer, para

fugir de mim mesma... Ir á policia era entregar esse infeliz á mais

horrorosa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conheço,

ir bater á porta de uma familia tranquilla, que me receberia na casa de

jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os

seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: Eu, que aqui

estou, tinha um amante, e matei-o; venho convidal-os para esta festa de

vergonha e de ignominia!... Não. Era melhor fugir para o desconhecido,

entregar-me ao acaso... Em tudo isto pensei confusamente, não sei como,

sem continuidade, sem nexo, aos pedaços, depois que o vi, durante esta

noite medonha. Não tenho hoje mais lucidez de espirito do que tinha

hontem... Não sei o que hei de fazer... Sinto apenas que estou perdida,

que é preciso que alguem venha, que é preciso que me levem... O senhor

parece-me um homem generoso, leal, compadecido e bom... Sabe já o que me

succedeu, sabe onde _elle_ está. Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o

numero da porta. Aqui tem a chave.

E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um

cilicio, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma

argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-m'a.

Deixou-se cahir n'um _fauteuil_, inclinou a cabeça para traz e ficou

prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpecimento

profundo que d'ordinario se succede ás grandes crises nevralgicas.

Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me

occorreria mais tarde como desfecho possivel para esta situação tão

imprevista, tão extraordinaria, guardei a chave. Senti que me era preciso,

primeiro que tudo, sahir d'alli, retomar o ar livre, achar-me a sós

commigo mesmo, reflectir, raciocinar.

--Minha senhora--disse-lhe então--se amanhã, até ao meio dia, eu lhe não

tiver reenviado esta chave, será signal que me prenderam, que está tudo

perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não fôr restituida

esta chave, fuja, esconda-se, faça como quizer. Interrogada, negue tudo.

Eu preferirei mil vezes acceitar a responsabilidade d'esta morte a

imputar-lh'a, e, por caso algum do mundo, será jámais o seu nome proferido

por mim. D'aqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a

sua razão, para não enlouquecer, se quer um conselho de physiologista,

violente-se um pouco, abra uma janella, sente-se deante de um caderno de

papel e escreva o que se passou. Depois queime o que escrever. O unico

meio de dominar uma situação como a sua, o unico meio de verdadeiramente a

comprehender, é analysal-a. Houve um philosofo que deixou aos infelizes

esta maxima: «Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema.» Vá escrever.

Faça as suas memorias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime

depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre.

Ella conservava sempre a attitude extatica em que cahira na cadeira de

braços. Tinha a bocca entre-aberta, o labio inferior tremia-lhe, com esse

tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e

grossas lagrimas silenciosas, corriam-lhe em fio pelas faces e gotejavam

lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer,

procurando articular uma palavra d'agradecimento. Profundamente

enternecido, dei um passo para traz, inclinei-me com respeito, e sahi.

V

Tendo fechado a porta do aposento em que ella ficára, ao passar na sala em

que primeiro estivera, occorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das

mezas achavam-se dois grandes albuns. Folheei-os rapidamente. Um d'elles

encerrava apenas uma serie de apontamentos de viagem tomados por uma só

pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lapis e em portuguez.

Entre os apontamentos escriptos estavam collados ou pregados nas paginas

alguns especimens de plantas e de flôres, e viam-se delineados varios

esboços de construcções e de fragmentos architectonicos. Era um album de

estudos. O outro continha uma collecção de pensamentos, de maximas, de

versos, de desenhos, de aquarellas, firmados por muitos nomes diversos. Eu

devorava com os olhos o conteúdo de cada lauda.

Não ousára perguntar á condessa o nome do seu amante. Comprehendia que a

bocca d'ella nunca mais poderia pronuncial-o, e não obstante, eu precisava

de sabel-o, de ver letra d'elle. Estava certo de que esse nome

desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que eu estava lendo, que

a letra desejada se encontraria no meio dos escriptos que me estavam

passando pelos olhos. Como poderia porém adivinhal-o, sem tempo, sem

vagar, sem o socego de espirito necessario para meditar a intenção de cada

uma das phrases que ia lendo?... Era-me forçoso abandonar este recurso, e

o album que tinha nas mãos era todavia, talvez, o unico meio que me

restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei um momento, e sahi por

fim, levando o livro comigo.

Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa,

acantoei-me na carroagem e puz-me a ler successivamente cada um dos

trechos em verso e em prosa, de que se compunha a collecção.

Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta informação era

insufficiente para que eu o distinguisse n'aquella torre de Babel. De

pagina para pagina ia-me surprehendendo uma nova lingua. Havia francez,

italiano, allemão, inglez, hispanhol... O nome de Ernesto Renan apparecia

sobposto a duas palavras chaldaicas; Garcin de Tassy, orientalista na

Sorbonne, firmava um periodo em lingua hindustanica; Abd-el-Kader tinha

deixado simplesmente o seu nome arabe; a princesa Dora Distria assignava

de Turim um pequeno texto albanez. Nomes portuguezes, apenas dois.

A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da

variedade dos nomes e da differença de linguas.

Ao chegar a casa, vi que o numero que a condessa me indicara era o de um

predio de um só andar, pobre de apparencia, quasi fronteiro á casa que eu

habitava, perto de uma esquina, collocado ao lado de um predio mais

saliente, e tendo a porta n'um angulo reintrante que a escondia da parte

principal da rua. Para o lado opposto até á esquina proxima havia uns

armazens deshabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual

sobresaiam as ramas seccas de um canavial. A situação topographica da casa

onde estava o morto permittia-me pois entrar e sair d'ella sem ser visto.

Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse

o nome que desejava conhecer.

Dei a volta á chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta

cerrada, estava caida uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha

pequena, lisa, em branco. O outro era um pedaço de _enveloppe_; tinha no

alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um

canto havia inutilizada uma estampilha franceza; no subscripto lia-se:

_Mr. W. Rytmel_.

Este nome achava-se no album da condessa por baixo de dois versos

inglezes.

A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pellica branca com

cordões pretos. Por dentro tinha em letras azues a marca de um luveiro de

Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome

do morto.

Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estremeci de horror.

Estendido n'um sophá estava o cadaver. A expressão do seu rosto inculcava

um socego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como marmore.

Collocado perto d'elle estava um copo com um pouco de liquido. Era opio.

Percorri o aposento com um relance d'olhos. No forro de setim preto do

chapeu, que estava caído no chão, vi bordadas em vermelho uma corôa de

barão e duas grandes lettras--um W. e um R.

Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente á minha

banca e abri o album defronte de mim na pagina em que estavam os versos

assignados por W. Rytmel.

É de saber que tenho aquella especie de habilidade que Alexandre Dumas

considera aviltante e vilipendiosa para a intelligencia: sou, como terá

visto pela letra d'estas cartas, um excellente calligrapho. Copiei

escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes

consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a

construir, com letras da mesma fórma das que tinha copiado, outras

palavras differentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos

ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que

se dera a catastrophe, e fiz em inglez com escripta que ninguem no mundo

duvidaria ser a da pessoa que escreveu no album os versos assignados pelo

nome de Rytmel, uma declaração pessoal do suicidio por meio do opio.

D'este modo, quer mais tarde me occorresse, quer não, o meio mais

conveniente de sepultar o cadaver, as suspeitas de homicidio

desappareciam.

A condessa estava salva desde que, antes de mais ninguem, eu entrasse na

casa e collocasse junto do corpo o bilhete que escrevera.

Mas eu ficava sendo um _falsario_. Repeti a mim mesmo esta palavra

sinistra e estremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu

procurava debalde. E no entanto o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me

que o primo da condessa poderia vir de Cascaes prevenido por ella, e

cheguei a sahir de casa com pregos e um martello para encravar a fechadura

da porta e retardar a entrada no predio onde se achava o morto.

Occorreram-me mil idéas phantasticas, cada qual mais absurda. Passeei por

muito longe, a pé, meditando, inquieto, nervoso, congestionado, estafado,

devorado de febre, palpando no fundo do bolso o bilhete terrivel com que

poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando

todavia para mim uma parte egual no seu remorso.

Finalmente, por volta da meia noite, sem bem saber porquê, nem para quê,

levado por uma attracção terrivel, atraz de uma suprema inspiração,

cingi-me com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei

inesperadamente com o doutor e com a pessoa conhecida no decurso d'esta

historia pelo nome de _mascarado alto_.

O primo da condessa, tendo chegado de Cascaes ao meio dia, acompanhado de

dois amigos intimos, inquieto pelo desapparecimento de Rytmel, que era seu

hospede e vivia como homiziado em casa d'elle em Lisboa, foi ao predio

mysterioso de que possuia uma chave e que sabia ser frequentado

regularmente pelo inglez, e encontrou ahi o cadaver. Conhecendo as

relações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na

necessidade de manter o maior sigillo em volta d'aquella catastrophe, e

julgando por outro lado indispensavel que o testemunho de um medico

constatasse a morte, que poderia ser apenas apparente, planeou e realisou

a emboscada em que surprehendeu o doutor ***, que elle sabia casualmente

que passaria n'essa tarde pela estrada de Cintra.

Sabem o que se passou n'essa noite.

O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias · 第 41 / 61 题