II

Soube d'ahi a dias que a senhora com quem me encontrára era a condessa de

W. A figura d'ella tinha-me ficado moldada na memoria como o rosto de um

cadaver em uma mascara de gesso. Estava no Rocio quando me disseram o seu

nome, ao vêl-a passar em carruagem descoberta.

Ia reclinada para o canto de uma victoria, quasi deitada, morbida,

abstrahida, indifferente, como se uma aureola invisivel a segregasse dos

aspectos e dos ruidos da rua, grosseiros de mais para lhe tocarem. Tinha

uma seducção hallucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de

mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que

menos appetecia ver do que respirar. Levava no seio uma rosa côr de palha,

e uma pequena madeixa de cabellos finos, dourados, transparentes, soltos

do penteado, cahia-lhe na testa.

Cravei os olhos n'ella e tirei o meu chapeu; ella viu o meu cumprimento,

olhou-me, como se eu lhe apparecesse pela primeira vez, com a mesma

indifferença com que olharia para uma vidraça vasia ou para uma taboleta

sem distico, e proseguiu inalteravel e immovel como a imagem preguiçosa da

formosura arrebatada do seu pedestal por um cocheiro agaloado e por dois

cavallos a trote.

Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto[1]

pude com algumas palavras rancorosas a respeito da politica a commoção que

sentia.

Momentos depois, passou na mesma direcção que tinha tomado a carruagem da

condessa, um _coupé_ escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas

cerradas. Esta circumstancia, aliás naturalissima, encheu-me de indignação

e de rancor. Imaginei possivel que aquelle trem seguisse o da condessa e,

não sei por que processo do coração ou do espirito, nasceu-me o desejo de

arrombar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro.

--Estás a tremer! disse-me o amigo a quem eu dera o braço.

--Não é nada... um estremecimento nervoso.

--Impallideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarnadas...

--Foi uma vertigem. Dá-me isto ás vezes.

--Ahi tens! é o effeito das vigilias e do abuso do tabaco nas funcções do

coração.

--E debilidade resultante da fome, exclamei eu sorrindo e mal podendo

conservar-me de pé. Adeus que vou jantar!

E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, emquanto o meu

companheiro accrescentava:

--Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e bromureto.

Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fóra do casaco o bater do

coração.

Não tornei mais a encontral-a senão na noite da catastrophe.

O meu romance mysterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu logar á

tragedia em que entramos juntos.

O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias · 第 39 / 61 题