Soube d'ahi a dias que a senhora com quem me encontrára era a condessa de
W. A figura d'ella tinha-me ficado moldada na memoria como o rosto de um
cadaver em uma mascara de gesso. Estava no Rocio quando me disseram o seu
nome, ao vêl-a passar em carruagem descoberta.
Ia reclinada para o canto de uma victoria, quasi deitada, morbida,
abstrahida, indifferente, como se uma aureola invisivel a segregasse dos
aspectos e dos ruidos da rua, grosseiros de mais para lhe tocarem. Tinha
uma seducção hallucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de
mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que
menos appetecia ver do que respirar. Levava no seio uma rosa côr de palha,
e uma pequena madeixa de cabellos finos, dourados, transparentes, soltos
do penteado, cahia-lhe na testa.
Cravei os olhos n'ella e tirei o meu chapeu; ella viu o meu cumprimento,
olhou-me, como se eu lhe apparecesse pela primeira vez, com a mesma
indifferença com que olharia para uma vidraça vasia ou para uma taboleta
sem distico, e proseguiu inalteravel e immovel como a imagem preguiçosa da
formosura arrebatada do seu pedestal por um cocheiro agaloado e por dois
cavallos a trote.
Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto[1]
pude com algumas palavras rancorosas a respeito da politica a commoção que
sentia.
Momentos depois, passou na mesma direcção que tinha tomado a carruagem da
condessa, um _coupé_ escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas
cerradas. Esta circumstancia, aliás naturalissima, encheu-me de indignação
e de rancor. Imaginei possivel que aquelle trem seguisse o da condessa e,
não sei por que processo do coração ou do espirito, nasceu-me o desejo de
arrombar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro.
--Estás a tremer! disse-me o amigo a quem eu dera o braço.
--Não é nada... um estremecimento nervoso.
--Impallideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarnadas...
--Foi uma vertigem. Dá-me isto ás vezes.
--Ahi tens! é o effeito das vigilias e do abuso do tabaco nas funcções do
coração.
--E debilidade resultante da fome, exclamei eu sorrindo e mal podendo
conservar-me de pé. Adeus que vou jantar!
E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, emquanto o meu
companheiro accrescentava:
--Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e bromureto.
Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fóra do casaco o bater do
coração.
Não tornei mais a encontral-a senão na noite da catastrophe.
O meu romance mysterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu logar á
tragedia em que entramos juntos.