XV

Cheguei ao fim das minhas confidencias.

Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Cintra. Vi-a, ao

fim d'esse verão, em Cascaes. Ella mostrava-se alegre, o que era talvez

uma maneira de estar triste! Cascaes estava imbecilmente jovial: _batia-se

o fado!_ No inverno seguinte a condessa encontrou-se, em Paris e em

Londres, com Rytmel. Voltou d'essa viagem mais triste e mais pallida.

Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se affastava de mim.

Apartei-me, n'uma reserva discreta. Nunca mais nos nossos dialogos, todos

exteriores e ephemeros, se alludiu á viagem de Malta.

Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e

mais intimas. A nossa amisade, que a exaltação e o acaso das paixões

formara, affirmava-se agora n'uma communhão serena de sentimentos e de

idéas. N'uma d'essas cartas Rytinel fallava-me de miss Shorn, uma rapariga

irlandeza...

«É uma neta dos bardos, uma sombra ossianica, a alma da verde Erin!»

dizia-me elle.

No começo d'esta primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas

palavras:

«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos;

uma casa affastada e livre n'um bairro pobre; um _coupé_ escuro com bons

_stores_; reserva e amisade.--_Frater, Rytmel_.»

Executei escrupulosamente as suas determinações.

Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton.

Pareceu-me mais triste, mais concentrado.

Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que

habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo

n'alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa,

fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d'elle saiu uma

confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo

elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no

indefinido da conversação.

A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento.

Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha

relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n'um _coupé_

cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta.

De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço,

em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe

vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias

mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo.

Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a _Imitação_.

N'um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito

era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração.

Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das

cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na _Trapa_, no socego

immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o.

Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um

certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N'esse tempo estava ella

absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle

Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então

escreviam pequeninos poemas no tablado do _Theâtre du Prince Royal_.

Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:

«Meu primo: Se um gelado tomado n'um terraço com uma velha amiga não

sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era

uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão).

Traga o seu amigo Rytmel.»

Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na

estrada de... n'um _coupé_ com os _stores_ corridos.

A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta,

apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d'outr'ora,

cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante.

Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel

luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da

agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler.

A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas

massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras

pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se

n'um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As

cousas pareciam contemplar e sonhar.

Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas

chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da

condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado

desenho, a pura perfeição d'aquella maravilhosa e pequena chavena, que a

condessa chamava a _sua taça_.

--O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho... disse Rytmel,

sorrindo.

--E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque,

representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por

ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar

ponho-a dentro d'essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido

por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba!

Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na

minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da

condessa,--encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande

antiguidade á tradição do amor!

Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu

no entanto olhava a condessa.

Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o

seio. E o luar dava-lhe aquelle limbo poetico que todas as claridades

mysteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão ás

figuras louras.

Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o

teclado de marfim, chorou um momento. O silencio, o infinito da luz, a

attitude contemplativa das cousas, o murmuroso chorar da agua nas bacias

de marmore, tudo nos tinha insensivelmente lançado n'um estado de suave e

vago romantismo...

De repente a condessa elevou a voz e cantou. Era a ballada do _Rei de

Thule_.

Alguem tinha traduzido aquella ballada em rimas populares. E era assim que

a condessa gostava de a dizer, em logar d'usar as palavras italianas com a

sua banalidade de _libretto_.

Houve outr'ora um rei de Thule

A quem, em doce legado,

Deixou a amante ao morrer

Um copo d'ouro lavrado.

Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado á balaustrada,

enlevado no penetrante encanto d'aquella canção, olhava a agua do tanque,

onde tremia a claridade da lua, conservando a taça na mão.

Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz

continuava, triste como a propria ballada:

Sempre o rei achava n'elle

Um sabor da antiga magoa,

E se por elle bebia

Tinha os olhos rasos d'agua.

--Não cante mais, disse Rytmel de repente, voltando-se.

Á luz da lua eu vi-lhe os olhos humidos como os do rei da canção, e na sua

mão tremia a pequena chavena dourada.

Ella voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz proseguiu,

vibrando mais saudosa no silencio:

N'alta esplanada normanda

Batida da fria onda

Reune os seus irmãos d'armas

A uma tavola-redonda...

Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado:

--Foi talvez como n'uma noite d'estas, disse ella. Estamos em plena

legenda. O terraço batido da agua, a lua, os velhos amigos reunidos, a

lembrança da pobre amante, que se apaga na memoria d'elle, o presentimento

da morte... Que linda noite para o rei atirar a sua taça ao mar!

E cantou os derradeiros versos da ballada:

Foi-se com tremulos passos

Na amurada debruçar...

E com as suas mãos antigas

Atirou a taça ao mar!

Junto ao seu corpo real

Estão os pagens a velar

E a taça vae viajando

Por sobre as aguas do mar...

De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimento, ou

irreprimivel impulso d'um coração que se revela, Rytmel deixara cahir a

pequena chavena ao tanque, entre as folhas dos nenufares.

A condessa ergueu-se, extremamente pallida, apertando com ambas as mãos o

coração: e com os olhos marejados de lagrimas, disse para Rytmel:

--O rei de Thule ao menos esperou que ella morresse!

Elle desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse perder-se aquella

fragil preciosidade de Sévres. A condessa deu-me o braço um pouco tremula,

e penetrámos na sala.

D'ahi a dias foi a catastrophe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a

minha penna, com a consciencia de que ella foi sempre tão digna, quanto a

minha intenção foi sincera.

+AS REVELAÇÕES DE A. M. C.+

I

Senhor Redactor.--Dirigindo-lhe estas linhas, submetto-me á sentença de um

tribunal de honra, constituido para julgar a questão levantada perante o

publico pelas cartas do doutor *** estampadas n'essa folha. Obriguei-me a

referir quanto se passou por mim como actor d'esse doloroso drama, e venho

desempenhar-me d'este encargo. Possam estas confidencias, escriptas com o

mais consciencioso escrupulo, conter a lição que existe sempre no fundo de

uma verdade! A existencia intima de cada um de nós é uma parte integrante

da grande historia do nosso tempo e da humanidade. Não ha coração que,

desvendado nos seus actos, não offereça uma referenda ou uma contestação

aos principios que regem o mundo moral. Quando o romance, que é hoje uma

fórma scientifica apenas balbuciante, attingir o desenvolvimento que o

espera como expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão

sobre uma só paixão um caracter completo e com elle toda a psychologia de

uma época, assim como os Cuviers reconstituem ja hoje um animal

desconhecido por meio d'um unico dos seus ossos.

* * * * *

Sabem que sou natural de Vizeu. Criei-me n'uma aldeia encravada entre dois

montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pae, quando lhe

esgalhava alguma arvore mimosa do quinteiro; abençoado por minha mãe como

a esperança dos seus velhos annos; coberto de prophecias de gloria, como o

pequeno Marcello da freguezia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de

lhe ajudar á missa, aos dez annos de idade, me argumentava na sachristia

as declinações latinas. Era escutado este prodigio por um auditorio

composto do sachristão e do thesoureiro, que com os chapeus debaixo do

braço, coçavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e attonitos. A um

recanto, minha mãe sorria, com os olhos banhados de ternura, do fundo da

caverna formada em redor do seu rosto pela côca de uma ampla e poderosa

mantilha de panno preto.

Fiz depois os estudos preparatorios no lyceu da cidade, e vim finalmente

matricular-me em Lisboa na escola de medicina.

Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existencia adstricta a

uma pequena mezada, á convivencia de alguns companheiros de estudo e ao

trato de duas senhoras velhas e pobres, irmãs de um capitão reformado,

antigo aboletado de meu pae, em cuja casa de hospedes eu tenho por modico

preço a minha moradia na capital.

A unica luz que atravessava a sombra da minha vida de desterro, de

desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Therezinha...

Therezinha! a doce, a meiga, a querida companheira, á qual eu consagro

principalmente estas paginas, que são o capitulo unico da minha vida que

ella não conhece, a confissão sincera, a historia completa do unico erro

de que posso accusar-me perante a sua innocencia, a sua bondade, e o seu

amor!

Therezinha! adorada flôr escondida entre as estevas dos nossos montes, que

ninguem conhece, que ninguem viu, de quem ninguem se occupa, e que no

emtanto inundas ineffavelmente a minha mocidade e a minha vida com o

sagrado perfume de um amor casto, puro, imperturbavel e calmo como a luz

das estrellas.

Se tu as entenderás, minha innocente amiga, estas palavras!

Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e mysteriosa, cuja historia

eu ponho confiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o balsamo da cura

para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolencia

e do perdão para a vaga e sobresaltada melancolia do convalescente

ajoelhado aos teus pés!

Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a

minha consciencia um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem

reticencias, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade

é que te amo! que te amo, e que te amarei! Outra imagem, incoercivel,

vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho

doentio, varada sempre pelo teu olhar candido que atravez d'ella se fixava

e se embebia constantemente no meu.

Uma noite, ha dois mezes, recolhendo-me por volta das nove horas a minha

casa, que fica situada em um dos bairros excentricos de Lisboa, encontrei

parada uma carruagem de praça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com

uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta

com um grande veu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra

mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma voz singularmente

fina, tremula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim:

--Onde quer que lhe mande pagar?... Não trago mais dinheiro.

--Importa-me pouco isso, respondeu o cocheiro. Quem não tem dinheiro anda

a pé. Já lhe disse á senhora quanto é que me deve pela tabella. Se não

paga o resto, chamo um policia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor.

Ella então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do veu

que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convulsamente uma luva.

Suppuz que iria tirar um annel. O cocheiro apressou-se a passar as guias

pela grade da almofada e apeou. Tinha-me no emtanto approximado, e no

momento em que elle dava o primeiro passo, impellido por uma forte

commoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez

cambalear e cair de encontro á parelha. E dando-lhe em seguida uma libra,

que trazia no bolso:

--Ahi tem pela bofetada; contente-se com o que lhe deram pela corrida.

Diria que alguem por traz de mim suggerira estas palavras romanticas, a

tal ponto ainda hoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução

d'effeito oratorio, para similhante contingencia!

O cocheiro levantou a moeda, examinou-a á luz da lanterna, subiu outra vez

á almofada, e partiu dizendo-me:

--Boa noite, meu amo!

Eu, atarantado, confuso, tirei machinalmente o chapeu, e titubiei algumas

palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu

lado.

Era a primeira vez que me achava perto de uma d'essas formosas senhoras da

sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguem! Tinha uma

carnação lactea e aveludada, como a petala de uma camelia,--prodigio de

mimo só comparavel ao de uma outra mulher que não conheço, e que uma noite

passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e

envolta em uma grande capa branca de listas côr de rosa.

Aquelles que as conhecem, que as vêem e lhes fallam todos os dias, é

possivel que se não impressionem com o aspecto d'estas creaturas

transcendentes. Para quem as encontra de perto pela primeira vez em sua

vida não ha cousa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar

com as mais violentas commoções, a olharem denodadamente para o perigo,

para a desgraça ou para a gloria, tremem diante d'esta simples coisa: o

primeiro contacto de uma mulher elegante! D'ahi vem o velho prestigio

magnetico das rainhas sobre os pagens, das castellãs sobre os menestreis.

É uma sensação unica. O ser humano bestificado converte-se por momentos

n'um vegetal que vê.

Eu ficara immovel e mudo.

Ella correu-me de cima a baixo com um olhar rapido, e dizendo-me

_obrigada_ com uma commoção tremula, estendeu-me d'entre a nuvem negra das

suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva.

Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnetica, convulsa e

fria, e senti percorrer-me todos os nervos um estremecimento electrico

despedido do _shake-hands_ que ella me deu de um só movimento sacudido,

fazendo tinir os elos de uma grossa cadeia que lhe servia de bracelete.

Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instinctivamente as palavras

monstruosas de uma formula que se usa em Vizeu, mas que estou bem certo

nunca até esse dia haviam sido ouvidas por tal creatura, e que certamente

lhe produziram o effeito do grito stridulo de um animal selvagem, escutado

pela primeira vez entre mattos desconhecidos.

Vergonha eterna para mim! essas palavras, que eu desgraçadamente

conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha bocca deixou

bestialmente cair, foram estas:

--Para o que eu prestar estou sempre ás ordens.

E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, voltei rapidamente

costas, e affastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido,

como se houvesse proferido uma obscenidade sacrilega. Dava-me vontade de

me metter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a

olhar para traz, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas

phantasticas, que não ouvia. Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os

candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas,

os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus

barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das

tendas.

Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e

puz-me a passear ás escuras no meu quarto.

Nas trevas appareciam-me illuminadas por um clarão satanico essas duas

mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua--a minha e a

d'ella--uma trigueira, aspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada.

Depois entravam a reconstruir-se á minha vista os vultos completos das

pessoas.

Ella, de uma pallidez eburnea, com o perfil melancolico de uma madona a

que tivessem levado dos braços o seu bambino, movendo-se mollemente entre

rendas e setim com uma ondulação de sereia.

Eu, inteiriçado e embasbacado diante d'ella, não sabendo como segurar o

chapeu e a bengala, na mais flagrante e minuciosa ostentação dos meus

defeitos e da minha pobreza incaracterisada e burgueza. Ao lado de quanto

n'ella havia ideal, transcendente, ethereo, ia eu vendo, enormemente

avultado e saliente, quanto o meu aspecto offerecia mais baixo e mais vil:

o casaco comprado ao barato n'um algibebe; as botas de duas solas

torpemente desformadas e orladas de lama; as calças com umas joelheiras

que me dão ás pernas na posição vertical o desenho das de um homem que se

está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo maximo

da mão direita sujo de tinta de escrever!

Eramos verdadeiramente os antipodas um do outro, postos na mesma latitude

pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquellas

palavras terriveis que me zuniam nos ouvidos como os prenuncios de uma

congestão:

«Para o que eu prestar estou sempre ás ordens!»

Não sei que extranha attracção amarrava o meu espirito á lembrança da

mulher que eu acabava de ver! Não era indefinida sympathia, não era

occulto desejo, não era um vago amor. Interrogava-me detidamente, e o

unico movimento que encontrava no meu coração--sinceramente o

confesso--era o do odio. Odio áquella mulher, odio inexplicavel,

monstruoso, como aquelle que imagino ser o de um engeitado á sociedade em

que nasceu!

A distincção aristocratica, a elegancia da raça d'aquella gentil creatura

aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de

rebellião demagogica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma

arma prohibida, no fundo da sua alma.

Aquella mulher tinha certamente, um espirito menos culto do que o meu, uma

rasão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para

compensar estas depressões assistia-lhe uma superiodade repugnante,

inadmissivel: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição

delicada, um leito de pennas, a infancia resguardada na sombra, entre

estofos, sobre tapetes, ao som de um piano,--isto basta, para que fique

ridiculo, miseravel, desprezivel ao pé d'ella um homem que se creou ao

clarão do dia, á luz do sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e

por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhaes!

E entre mim e ella será isto perpetuamente uma barreira.

Ella ficará sempre bella, dominativa, seductora por natureza,

instinctivamente captivante, querida, amimada, estremecida, dentro da sua

zona de aromas, de veludos, de cristaes e de luzes!

Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a

minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e

inutil,--desgraçado quando não quiser tornar-me tão ridiculo, e irrisorio

quando tiver a vaidade de não querer ser desgraçado!...

Accendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei estudar.

Impossivel. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim

percorri-as com a vista pelo espaço de tres ou quatro paginas,

machinalmente, sem comprehender o sentido de uma só palavra. Deixei o

livro e fiquei por algum tempo inerte, estupido, neutro, com a vista fixa

nas orbitas ôcas de uma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para

mim com o escancellado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos

desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deitei-me.

Tinham-me feito a cama n'esse dia com dois d'esses lençoes de folhos

engommados, com que minha mãe enriquecera liberalmente o meu bahú de

estudante. Estes lençoes tinham a aspereza do linho novo e o cheiro

caracteristico do bragal da provincia.

--Pobre mãe, coitada! pensava eu, deitado e embebido n'essa longinqua

exhalação olphactica da casa paterna. Coitada de ti, que na simplicidade

dos teus juizos julgaste dotar-me com um luxo que faria commoção em

Lisboa, orlando-me dois lençoes com esta enorme renda longamente

trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigaveis! Se soubesses que

este paciente lavor das tuas mãos em dois annos de applicação consecutiva,

ninguem aqui o admirou, ninguem o viu, ninguem attentou n'elle, a não ser

a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrilegas, se os

padres na minha terra se embrulhavam nos meus lençoes em dias de missa

cantada! Que importa porém que o não apreciem os outros?... Toda esta

gente é má, corrupta, perversa! Agradeço-t'o eu, minha obscura, minha

velha amiga. Nos arabescos d'esta renda, que eu estou apalpando na mão e

que tu me consagraste, figura-se-me sentir o correr caprichoso e ondeado

das lagrimas que choraste emquanto o vento ramalhava nas arvores, a

saraiva estrepitava nas janellas, e tu desvelavas as tuas noites de

inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu

pequeno. Quando sinto no rosto o aspero contacto dos teus eriçados folhos

bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom

que me tocasse com a ponta das suas azas purificadoras e brancas!

Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de

longe, havia na minha cama outro perfume que contrastava singularmente com

este. Era o que aromatisava a pelle d'aquella mulher desconhecida, e que

me ficara na mão que ella apertou. Respirei-o com uma curiosidade

irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! collei os labios na

mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse mysterioso

respiro de um paraiso ignoto e longinquo.

É monstruoso, infernal, o turbilhão das idéas que esse aroma extranho,

penetrante e cálido, me revolveu na cabeça.

Sentia os fogachos, as palpitações, a hallucinação da febre.

Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o

travesseiro inundado em lagrimas...

Perdôa-me, Therezinha! minha Therezinha, perdôa-me...

Não foi pensando em ti, meu puro anjo, que eu chorei tanto n'essa noite!

O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias · 第 38 / 61 题