No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A
agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte _La Valette_,
elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em
redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia
e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade
ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular.
Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.
Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da
celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes
inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres
primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o
palacio dos grã-mestres, os palacios chamados _Estalagens_, e que eram
pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas
brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os
arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso,
que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de
cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam
jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O
ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por
um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny,
_viajante por tedio_, dizia elle.
Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação
combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em
todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites
nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das
grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem
do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de
_miss_ e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize,
dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de
Rytmel.
Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto
sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia,
dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios
no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella
paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem
perdidamente namorado.
Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me
determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente
os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me
n'uma discripção completa e delicada.
Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord
Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus _blue
devils_. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo _yacht_, chamado _The
Romantic_, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir
ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley
ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.
Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro,
onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da
condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de _ladies_, não a
encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção
dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de
Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de
allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre
Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as
opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se
apenas pelo gosto de o vêr contrariado...
Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a
Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.
--Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.
--Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que _transformação
fecunda_ fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da
imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu
estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores
inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do
_Morning Post_. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a
grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no
divino Ganges paquetes a tres _schellings_ por cabeça; fazem beber ás
_bayaderas_, _pale ale_, e ensinam-lhes o jogo do _criket_; abrem
_squares_ a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores,
desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os
por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de _porter_, que
quando não vão ser forçados em _Botany-Bay_, vão ser governadores da
India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de
rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!
Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:
--Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu
logar, a sua hora e as suas armas.
E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e
transmitti-lhe as palavras do meu amigo.
Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços
na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o
achava um adoravel _gentleman_, que pedia das suas palavras as mais
humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas
quaesquer...
--Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as
armas...
--Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho
que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter
e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.
Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em
Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais
severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não
se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no
alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o
seu _yacht_ e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre.
As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o
pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de
nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol
davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no
ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley
deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a
pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a
clavicula partida. Foi deitado n'uma _cabine_ preparada. Levantou-se o
pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.
Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.
--Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.
--Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está
tramando aqui dentro d'este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio
apenas... Diga ao conde que vigie a condessa!
Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde,
Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o
capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma
visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto
a excursão, e offerecia o seu _yacht_. O conde esquivava-se, dizendo que o
mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.
--Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa,
tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.
--Mas, então?
--Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês!
Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez!
Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim
no corredor e tomou-me pela mão.
--Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.
Era Carmen.
--Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.
E desappareceu.