Dei um salto, corri á porta do beliche:
--_Stewart! Stewart!_
_Stewart_,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.
--Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo?
--Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.
Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo.
--Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação
angustiada.
A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda
pesada entrar, alagar a _cabine_.
Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos
brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais
lugubre. A officialidade estava impassivel.
--Que foi? que foi? perguntei a alguem.
--Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel
vendaval...
--Estamos perdidos!
--O navio é seguro, respondeu o outro.
Ao lado diziam:
--O capitão devia deitar as lanchas ao mar.
O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O
navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem
os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o
ceu impassivel, a agua negra,--e senti um immenso despreso pela vida.
Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns
diziam que ficariamos _á capa_, esperando firmemente o mau tempo; outros
que o navio estava perdido... Um official disse ao passar:
--Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas
vezes d'Aden a Bombaim.
Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se
caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim,
appareceu:
--Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo
grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas
com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco
dias.
No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma.
Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.
A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado
para as _cabines_, indifferentes ao perigo. Algumas _ladies_, tranzidas,
mas graves, ficaram no convez.
Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem
cessar.
Captain Rytmel approximou-se de mim.
--É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante
navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval
nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo,
Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?
Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e
pallida.
--Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o
perigo!
Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam
uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma,
reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.
--Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se,
havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma
baleia morta!...
Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era
necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me
equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A
sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos.
Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de
temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.
Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada
no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos
crusadas.
--Morremos, hein? perguntou ella.
--Tem medo? disse eu.
--Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me
custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao
menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!...
--Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.
--Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes,
deshonra a Peninsula. Ahi está.
--Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por
ella.
--E que me importa a mim esse cavalheiro?
E deu uma curta risada.
No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi
á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo
deprehendi, debaixo da _tenda_. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar,
apesar do ruido do vento.
Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do
espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um
perigo,--e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao
criterio da vida trivial,--tudo me levou a ir escutar, apesar das
repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião:
--E custa-lhe morrer?
--Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o
primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque,
francamente, sou eu feliz?
--Se a minha amisade é para si um interesse profundo...
A condessa calou-se.
--Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da
minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa.
Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que
esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu
espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão
da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de
mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a
sua alma...
--Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos
passear, vamos ver o mar.
O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de
vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina
trabalhava-se sempre.
Rytmel continuava fallando á condessa.
--Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.
--Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas
horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma
justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta
confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um
bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...
--Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos
levaria? ou ao despreso ou á tortura...
Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia
lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam
como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os
martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.
De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua
voz era alta e vibrante:
--Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?
--Penso, condessa.
--Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o!
E depois de um momento:
--Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a
certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.
N'este momento um ruido extranho tomou o navio.
Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga.
Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha
retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio
movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei
para a abertura que desce á machina.
--Que é? perguntei a um official que subia.
--Um milagre de Pernester!
Todos tinham corrido. Era uma anciedade.
O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior
da machina sobe ao pavimento do navio.
Estava radiante.
--Imaginem que Pernester...
--Sim, sim, interrompi, mas então?
--Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.
--Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.
O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho,
grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse
n'um tom suave:
--_Now, I should enjoy a nice glass of beer..._