--Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este
homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.
--Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a
minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.
Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada
sobre as feições do mancebo:
--Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer
este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é
que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o
matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher.
--Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda.
--Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente
perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada
por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado
com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete
feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o
vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta
evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...
--Ou a qualquer outro fim.
--E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres
compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?
--Muitos homens o usam!
--Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o
mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a
uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a
ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os
dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro...
O mascarado calava-se.
--E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e
que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita
está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco,
como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um
buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de
segurar o cabello!
--Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra.
--E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira?
E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente,
examinou-o e guardou-o.
M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das
minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois
com voz humilde, quasi supplicante:
--Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço,
de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto
trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?
--E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata?
O mascarado calou-se succumbido.
--No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro
vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror
que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que
caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O
que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo
insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é
sair.
--Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado.
E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:
--Um momento! Eu volto já!
E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa,
fechando-a á chave pelo outro lado.
Fiquei só, passeando agitadamente.
A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de
pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado
durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na
sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem
ao clarão do sol.
Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz
repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas
amedrontadas pelo estridor de um tiro.
Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no
travesseiro.
Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a
alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello
louro, um cabello de mulher.
Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.
--Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre
cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi,
patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter
malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos,
fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te,
consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto,
tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu
adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é
inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás
dizer?
De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de
espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro,
reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu
aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello
pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos
labios,disse commigo:
--Ora! por um cabello! que loucura!
E não pude deixar de rir.
Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã.