Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe.
A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua
não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada.
Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo,
cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.
O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a
cabeça apoiada nas mãos.
O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os
olhos cerrados, como adormecido.
Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas
estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros.
Entrava uma luz lugubre, esverdeada.
--Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o
exame do quarto, movel por movel.
Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma
cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de
velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de
setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não
usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com
flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas
dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova
estava uma bengala grossa com estoque.
Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade
significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava
n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar
de entrevistas, e não um interior regular.
A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos
via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o
tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da
cama.
Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou
carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o
relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha
d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde
averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu
frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou
em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou
contra o suicidio.
Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com
aquelle aposento e que devessemos visitar.
--Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas.
Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a
fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu
d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.
Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o
frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer.
Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto
da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a
hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era
natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado
fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto,
esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse
gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte
ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a
gravata do morto.
Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do
supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava
presumpções ao crime.
Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava
escripta a declaração do suicida.
--A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na
verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta!
Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas.
Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta,
d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia
folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao
mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel,
nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e
preparada fóra.
--Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é
d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro.
A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse
qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração
não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle
papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem
um livro, um _buvard_, um lapis.
Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque
elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de
pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.
Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende
vulgarmente nas lojas não tem corôas.
Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha
carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado
ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_.
Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se
sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.
Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz,
distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o
papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua
brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este
dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente
vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente
efficaz e seguro.
--Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de
escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados
por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida.
N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta
por inteiro.
Voltando-se então para M. C.:
--Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta
declaração foi falsificada.
--Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com
surpreza.
--Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios
d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300
libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?