XV

Ocupar-me-ei agora de outros medalhões de diverso tipo e menores

dimensões.

Seguindo a mesma parede, na rua que vai para a _Casa da Índia_,

encontram-se nichos, intervalados por medalhões. As voltas desses nichos,

os pilares que as sustentam e todo o mais trabalho de alvenaria são de

uma perfeição e nitidez que não pode exceder-se; todas as arestas são

finas, como o buril não faria mais perfeitas. São de um belo artífice.

Todos estão ermos; a guerra às estatuetas que os povoavam foi de

extermínio.

Estes medalhões são de fundo azul, têm de diâmetro 0,45m e com a grinalda

que os envolve 0,64m. A grinalda em forma de coroa é tecida de folhagem

verde, flores azuis ou amarelas de cinco pétalas, pequenos frutos, como

romãs verdes e nozes e uns outros frutos, que serão peras amarelas. É

feita de peças combinadas e reunidas ao assentar.

De umas a argilla é vermelha, outras são de grés amarelo claro. Os

medalhões são cercados de uns filetes concêntricos. Têm bustos de baixo

relevo. A imagem, de grés, foi moldada sobre um molde de argila vermelha,

a que ficou aderida, medalhão e moldura são esmaltados.

Pretendi, pelas argilas e grés, formar classes dos medalhões e molduras;

não pude, porém, consegui-lo; há molduras iguais ou do mesmo género, em

barro comum vermelho ou em grés.

Nas figuras mesmo há contexturas diferentes. As de baixo relevo têm

por debaixo o molde de que falei, as de médio relevo não o têm; varia,

contudo, a qualidade do barro.

Passo a descrever estes medalhões e o seu estado de conservação:

1.º Junto ao lago. Busto de homem coroado de louro. Pouco mutilado. Está

de perfil sobre a direita.

2.º Busto de homem. Destruído.

3.º Busto de mulher. Destruído.

4.º Busto de mulher. Destruído.

5.º Busto de mulher. Muito mutilado. Tem medalha amarela ao pescoço,

pendente de um colar.

6.º Busto de mancebo imberbe. Tem capacete, de que saem umas pequenas

asas e tranças entrelaçadas. Veste armadura fechada no alto do peito por

uma pequena máscara. No capacete, nas _bucculas_ e no _thorax_ há listas

amarelas e verdes. Será um Mercúrio de convenção ou arremedo de um busto

de Cipião, célebre escultura do fim do século XV. Estes bustos são como

os das medalhas, cabeça e colo de perfil.

Na parede que, pelo sul, segue a rua que vai do jardim ao lago, há

doze medalhões, correspondendo a cada um uma das esferas ladeadas por

pirâmides, que coroam o muro. Estes medalhões medem o diâmetro dos

anteriores e a moldura é a mesma, com pequenas variantes.

No rebordo da 11.ᵃ moldura, que cerca o busto de Otaviano, encontra-se a

assinatura do artista ou fabricante de que a figura n.ᵒ 137 é um calco

perfeito, e que aqui dou reduzido. Estas letras são lançadas ao correr

do pincel com a tinta azul das flores, cor usada pelos mestres quando

marcavam as suas produções policrómicas.

[Illustration]

Pareceu-me dever ler ali _Donus Vilhelmus_, isto é, _mestre Guilherme_,

porque a palavra _donus_, contração de _dominas_, teve aquela

significação, como também _mestre_ se disse ao jurisperito e ao médico.

Mestre Leão se chamava o distinto físico judeu, que teve a necessária

hombridade para não seguir a opinião da junta médica, que mandava D. João

II para as caldas de Monchique. Mestre João das Leis e mestre Afonso das

Leis eram de uma dinastia de jurisconsultos dos tempos do mestre de Avis

e de D. Duarte.

A maneira como li o nome do artista, ou do artífice, a escrita e os

caracteres levam-me a crer que a procedência das molduras é flamenga e

não italiana. Não deixarei, todavia, de receber outra interpretação,

quando venha de quem tiver a autoridade e os conhecimentos que me faltam.

Em 1628 existia em Delft, na Holanda, um ceramista Willem (Jacobus); é

possivel que o fabricante das nossas molduras fosse pai ou avô deste.

Não direi que estes medalhões venham de mais de uma fábrica, porque os

moldados concêntricos que orlam os fundos são em todos perfeitamente

iguais; nas figuras, contudo, vê-se mais de um artista. As esculturas

acusam maneiras diversas, como a coloração e esmalte. Nuns a imagem é

esverdeada, noutros branca; o esmalte de uns é delgado e transparente,

noutros não parece sobrepor-se à cor, mas fazer com ela um todo. Na

urdidura, se assim vai bem dizer-se, também diferem; nuns a imagem

é da mesma peça que o fundo, noutros foi moldada por si e o fundo

adapta-se-lhes, contornando-a. Os últimos são os mais perfeitos e o

artista denunciou em um deles a sua origem italiana. Seguindo geralmente

a nomenclatura latina, por debaixo do busto de Nero escreveu _Nerone_.

O sistema empregado para a moldação das figuras em separado dos fundos

faz lembrar o que Andrea usou nos medalhões dos _seguintes_ das arcadas

do hospício dos Inocentes em Florença, recortando os fundos a modo de

lhes introduzir as imagens.

Todos foram talhados sobre moldes, pois no reverso dos muitos que há

destruidos veem-se as dedadas do artífice que os obrou.

O esverdeado do branco de alguns indica que o banho estanífero não foi

para todos o mesmo.

Alguns dos medalhões da coleção de que trato podem aproximar-se de um em

barro cozido, esmaltado, representando S. Jerónimo, saído das oficinas de

Andrea.

Em busca da marca das cercaduras destes medalhões da Bacalhôa, debalde

percorri o _Dictionnaire illustré_ de Marechal, o _Guide des amateurs de

faiences_ de Augusto Dammin, o _Manuel du collectionneur de faiences_ e o

_Dictionnaire des marques et monogrammes_ de Ris Paquot, _a Histoire de

la céramique_ de Albert Jacquemart, e outras obras mais. A assinatura,

portanto, da Bacalhôa terá de ser inscrita por nova e não conhecida

ainda. É mais um merecimento destas cerâmicas.

Seguirei por ordem a descrição dos medalhões, caminhando do palácio para

o lago. São todos de médio relevo.

1.º MARC. LIVS. CRAS. Busto branco. Olha à esquerda. Barba toda. Fundo

azul. Figura ligada ao fundo.

2.º TRAIANVS. IMP. Destruído. Busto branco. Fundo azul. Imagem moldada

separadamente.

3.º SCIPIO. AFR. Busto branco esverdeado sobre fundo azul da mesma peça.

Rosto expressivo. Olha à esquerda. Não tem barba.

4.º DIVI. IVL. CIES. Busto branco esverdeado. De uma só peça. Sem barba.

Rosto expressivo. Olha à direita. Corpo de frente.

5.º ANIBAL. CARTA. Busto branco. Fundo azul, separado. Barba toda. Cabelo

puxado para a frente e pouco cuidado. Fisionomia enérgica. Olha em frente.

6.º Destruído. Fundo azul, imagem junta.

7.º MVTIVS. SCE. Busto branco. Fundo azul, separado. Toda a barba

despontada. Olha em frente. Corpo voltado sobre a esquerda. Bem modelado.

8.º NERONE. CLA. Busto branco. Fundo azul, separado. Coroado. O letreiro

está danificado, parecendo dever ler-se MARC. (Marcus) LIVS. (Lieinius)

de louro. Olha um pouco à direita. Olhos cavados. Queixo proeminente. Sem

barba.

9.º ALEXA. M. Busto branco esverdeado. Fundo azul, junto. Olha em frente.

Sem barba. O capacete e as _bucculas_ baixadas emolduram a cabeça e rosto

numa faixa amarela de mau efeito.

10.º POMPEIVS. M. Busto branco esverdeado. Fundo separado. Expressão

enérgica. Toda a barba e bastante crescida. Olha à esquerda. É dos

melhores desta coleção.

11.º OCTAVIAN. AVG. Busto branco esverdeado. Fundo verde, junto. Olha de

frente. Sem barba. NB. É neste que está a assinatura.

12.º Destruído.

Todas as figuras têm pupilas e supercílios a tinta escura. Os nomes são

escritos com a mesma cor em rótulos de formas várias.

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 21 / 84 题