XI

Entrados em casa, Procopio Dias não se apressou a dar ou pedir a

explicação. Ceou primeiro, porque confessou haver adquerido esse

costume, e Jorge não se demorou em obsequial-o. A ceia improvisada,

composta de viandas frias e dous ou tres calices de vinho puro, deixou-o

em paz com a natureza. Satisfeita esta, era a hora da explicação.

Não veiu ella com facilidade. Indolentemente reclinado n'uma ottomana,

Procopio Dias fumava com volupia e falava com precaução, usando a voz

pausada e avara de um homem para quem o digerir, é meditar. Se alguma

ideia lhe avoaçava lá dentro, era difficil percebel-o atravez do olhar

exhausto e morbido. Entretanto, a curiosidade de Jorge não lhe

permittiu mais longa dilação e Procopio Dias foi compellido a

salisfazel-a, quando o moço, parando deante delle, fracamente lh'o

pediu.

--Parecia-me mais facil do que é, disse elle, sobretudo porque apezar

de nos conhecermos ha algum tempo, não estou certo da opinião que o

senhor forma de mim. Boa?

--Boa.

--Dê-me sua mão. Promette-me ser franco?

--Prometto:

--Qual das duas o leva á casa de Luiz Garcia?

Sobresaltado, Jorge retirou vivamente a mão.

--Bem vê, tornou Procopio Dias; é uma dellas.

Passada a primeira impressão, Jorge sentou-se tranquillamente, menos

comtudo do que affectava estar.

--Na verdade, a sua pergunta é das mais exquisitas que eu esperava

ouvir. Ignora as relações de amizade que me prendem áquella casa,

relações que herdei de minha familia, e que eu apenas continuo? Qual

das duas! Não ha alli duas; ha uma, uma sómente, uma... e...

--Não é essa? não é Yayá?

Jorge fez um gesto negativo.

--Acredite que me restitue a tranquillidade ao coração, disse Procopio

Dias sentando-se de todo. Não é meu rival? não tem nenhuma ideia?...

nenhuma ideia vaga?... É isso o que precise saber... é só isso, e é

tudo.

--O senhor gosta de Yayá?

Procopio Dias fez primeiro um gesto affirmativo; depois balbuciou a

confissão plena de seus sentimentos, mas com um ar de envergonhado,

meio sincero e meio fingido, e tão a ponto e natural, que era difficil

saber onde acabava a sinceridade e onde começava a simulação.

Animou-se a pouco e pouco, e não lhe escondeu nada. Confessou que a

filha de Luiz Garcia lhe transtornara de todo o espirito e que elle

estava resoluto aos maiores sacrificios para obter-lhe a mão.

--Ás vezes suppunha que o senhor andava nas minhas fronteiras, concluiu

elle, ideia que me affligia, porque o senhor tem sobre mim vantagens

incontestaveis. A suspeita desvanecia-se e eu tranquillisava-me. Hoje,

porém, confesso-lhe que a suspeita reappareceu e entrou a devorar-me o

coração; e ainda assim, tinha intervallos, porque ora me parecia que o

seu objecto era Yayá, ora que era a outra...

--Perdão, interrompeu Jorge; eu já lhe disse o que devia, e não posso

consentir que voltemos ao mesmo ponto. Uma de suas suspeitas é

injurias para mim.

--Tem razão; eu devia tel-o pensado, assentiu Procopio Dias. Mas que

quer? Nada se deve imputar aos dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em

todo caso, pode crer que a minha indole não é tão tolerante com o

vicio que me fizesse desejar haver dado em balda certa. Não sou

rigoroso; sei que as paixões governam os homens, e que a força de as

reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia

em que a natureza se fizer communista e distribuir egualmente as boas

qualidades moraes, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo cousa

nenhuma.

--Deixe-me falar-lhe com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que

o senhor é ainda menos rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua

suspeita, em relação á outra, tivesse fundamento, o senhor não me

ouviria com indignação.

--Talvez estimasse.

Jorge não disse nada; olhou sómente para o interlocutor, com um ar de

estupefacção, a que o outro sorriu benevolamente. Fez-se uma curta

pausa. Procopio Dias rompeu emfim o silencio:

--Talvez estimasse, sem deixar de indignar-me depois; isto é, a

indignação no momento seria abafada pelo interesse. Attenda-me,

doutor; sejamos justos com o natureza humana. Virtudes inteiriças são

invenções de poetas. Não me fazia bom cabello que a senhor gostasse

da outra, e menos ainda que ella lhe correspondesse, porque, em summa;

ambicionando entrar na familia, não desejaria que a familia tivesse a

menor macula. Esta é a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais

ridicula que pareça esta confissão, por mais grosseira que seja a

minha casca, a verdade é que amo a enteada apaixonadamente: é o meu

pensamento de todos os dias. Ora, dado que o senhor amasse a outra, qual

era o primeiro movimento do meu coração? Ligal-os ao meu interesse.

Desde que entre os dous houvesse um segredo, e que esse segredo fosse

descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ella eram os meus melhores

alliados, e a resistencia daquella menina, e a vontade do pae, tudo

cedia em meu favor.

Procopio Dias proferiu estas palavras com simplicidade e convicção.

Seus olhos plumbeos pareciam duas portas abertas sobre a consciencia. A

expressão do rosto era a de um cynismo candido. Jorge contemplou-o

alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer subjugado pelo

raciocinio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza não mostrava

que Procopio Dias já não suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:

--O que o senhor acaba de dizer não será animador, mas persuado-me que

é a realidade pura. Admira-me sómente que tenha tanta penetração e

superioridade para ver e confessar os vicios da natureza humana...

--Sou pratico, tornou o outro sorrindo. Raras vezes me irrito, comquanto

lastime sempre o que é fraqueza ou perversão. Assim, por exemplo, eu

não lhe ficaria querendo mal se o senhor me houvesse illudido agora

acerca de seus sentimentos, porque o seu interesse e o seu dever é

negal-os.

--Perdão; já lhe dei minha palavra...

--Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra

não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de

honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a

mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho

de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está

pervertida.

--Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.

--Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias

sorrindo.

--Pois juro-lhe...

Procopio Dias levantou-se de subito.

--Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio;

creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo

unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra!

Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta

expansão pode ter um lado grotesco,--hade ter de certo. O que lhe

affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente

da fortuna não dos homens...

Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge

acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do

outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava

de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns

mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser

acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.

--O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é

aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade

commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de

pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia,

com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com

um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor,

porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha

descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar

lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu

despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.

--Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?

--Nunca; receio que não me deixasse acabar.

--Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.

--Sabe disse?

--Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás

vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz

ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não

o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter

esperanças...

Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge

lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois

fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido.

Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições

de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos,

e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo.

Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão

tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em

Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.

Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de

ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e

olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe

apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer

philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas;

limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.

--Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso;

depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um

rapaz de espavento.

Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o

espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem,

que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era

turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir

ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e

mysteriosa de todas as forças sensuaes.

A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente,

como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão

aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até

esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi

justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um

favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de

uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança

de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos

da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e

compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam

dellas; não era difficil apagal-as de memoria.

Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o

que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.

Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas

as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras,

devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração,

trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o

cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora

divina e casta, ora ardente e lubrica,--lubrica, porque elle em sua

imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.

No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no

assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle,

dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o

não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não

pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.

--Não podia attribuir-lhe outro motivo, redarguiu Jorge sorrindo.

--Não ficou mal commigo?

--Mal? A prova é que se dependesse de mim casal-o, casava-o amanhã

mesmo.

Procopio Dias agradeceu-lhe a sympathia e o obsequio, e saiu. Jorge foi

dalli vestir-se para ir passar alguns minutos no escriptorio. Emquanto

se vestia, pensava na situação do ex-fornecedor do exercito. Não eram

amigos, mas o caso de Procopio Dias interessava-o; era sympathico a seus

olhos. Não indagou se essa sympathia brotava do medo; persuadia-se

ingenuamente do contrario. Um marido apaixonado e opulento! Duas

vantagens que uma moça nas condições de Yayá, devia acceitar com

ambas as mãos. Talvez Procopio Dias não fosse mal acceito ao coração

da moça; sómente, havia nesta uns vestigios de creança, que o tempo

devia apagar.

--Naquella edade um pretendente é uma especie de boneca, dizia Jorge

atando a gravata; o que é preciso, a todo trance, é fazer da boneca um

esposo.

Chegando ao escriptorio, ao meio dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes

consternado. Tinha dormido até onze horas, chegara tarde á casa em que

trabalhava, o patrão convidara-o a fazer as contas. Era uma pequena

casa de commercio, onde o Sr. Antunes, que entendia de escripturação

mercantil, trabalhava desde algum tempo, graças ao obsequio de Jorge:

--Mas já foi despedido? perguntou este.

--Devo fazer as minhas contas e retirar-me no fim do mez.

Jorge escreveu duas linhas ao patrão do Sr. Antunes. De tarde, foi este

a Santa Thereza. Jorge ia sentar-se á mesa do jantar; o Sr. Antunes já

tinha jantado, mas acompanhou-o.

--Venha, venha, disse o moço; preciso ralhar-lhe.

Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe

disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim,

reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do

commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de

oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.

--Isso mesmo, disse o pae de Estella.

--Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego.

Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa

difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.

--Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça

com um gesto de enfado.

Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou

de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil,

porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de

uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos

contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior

ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia

todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o

corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.

Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e

acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio

Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa

conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez

lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor

não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a

ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o

bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta:

«Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado,

como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço

carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que

fumava discretamente um charuto do bacharel.

--Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer

que Yayá vae casar.

--Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um

instante:--É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou

eu.

--Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente

ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo

ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...

--Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me

dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante

cousa. Aquella menina não tem cabeça.

--Oh! exclamou Jorge rindo.

--Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde

dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada.

Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!

--Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e

muitas vezes serio...

--Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.

--Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.

--Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella;

não lhe tem muita sympathia, é o que é.

--Como sabe você disso?

--Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as

costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de

pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu

o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai

porque já não podia aturar nem um nem outro.

Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara

sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não

significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava

longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes

alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais,

pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era

callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não

gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia

essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se

da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na

vespera com alguma cordialidade.

--Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não

perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella,

quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.

--Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.

--Tambem Estella gosta de mim.

Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á

revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá

lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não

gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?

A preoccupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge

appareceu em casa de Luiz Garcia. Foi a propria Yayá quem veiu

abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:--Entre, Sr. doutor,

que já se fazia esperado. Jorge não pode esconder o assombro que lhe

produzira aquella recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e

estendeu-lhe a mão.

--Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar

o que está aqui dentro.

--Não é uma estrella.

--Não, senhor; é um cavallo.

No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o taboleiro do xadrez:

acabava de dar uma licção á filha, que lh'a pedira desde antes do

jantar. Yayá levou até lá o filho de Valeria. Pela primeira vez

sentou-se ao pé dos dous para vel-os jogar; fincou os cotovellos na

mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ella, em tres

semanas.

--Tres semanas! repetiu o pae a sorrir e a olhar para Jorge.

Das qualidades necessarias ao xadrez, Yayá possuia as duas essenciaes:

vista prompta e paciencia benedictina; qualidades preciosas na vida, que

tambem é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras

perdidas, outras nullas.

Yayá Garcia · 第 19 / 26 题