Entrados em casa, Procopio Dias não se apressou a dar ou pedir a
explicação. Ceou primeiro, porque confessou haver adquerido esse
costume, e Jorge não se demorou em obsequial-o. A ceia improvisada,
composta de viandas frias e dous ou tres calices de vinho puro, deixou-o
em paz com a natureza. Satisfeita esta, era a hora da explicação.
Não veiu ella com facilidade. Indolentemente reclinado n'uma ottomana,
Procopio Dias fumava com volupia e falava com precaução, usando a voz
pausada e avara de um homem para quem o digerir, é meditar. Se alguma
ideia lhe avoaçava lá dentro, era difficil percebel-o atravez do olhar
exhausto e morbido. Entretanto, a curiosidade de Jorge não lhe
permittiu mais longa dilação e Procopio Dias foi compellido a
salisfazel-a, quando o moço, parando deante delle, fracamente lh'o
pediu.
--Parecia-me mais facil do que é, disse elle, sobretudo porque apezar
de nos conhecermos ha algum tempo, não estou certo da opinião que o
senhor forma de mim. Boa?
--Boa.
--Dê-me sua mão. Promette-me ser franco?
--Prometto:
--Qual das duas o leva á casa de Luiz Garcia?
Sobresaltado, Jorge retirou vivamente a mão.
--Bem vê, tornou Procopio Dias; é uma dellas.
Passada a primeira impressão, Jorge sentou-se tranquillamente, menos
comtudo do que affectava estar.
--Na verdade, a sua pergunta é das mais exquisitas que eu esperava
ouvir. Ignora as relações de amizade que me prendem áquella casa,
relações que herdei de minha familia, e que eu apenas continuo? Qual
das duas! Não ha alli duas; ha uma, uma sómente, uma... e...
--Não é essa? não é Yayá?
Jorge fez um gesto negativo.
--Acredite que me restitue a tranquillidade ao coração, disse Procopio
Dias sentando-se de todo. Não é meu rival? não tem nenhuma ideia?...
nenhuma ideia vaga?... É isso o que precise saber... é só isso, e é
tudo.
--O senhor gosta de Yayá?
Procopio Dias fez primeiro um gesto affirmativo; depois balbuciou a
confissão plena de seus sentimentos, mas com um ar de envergonhado,
meio sincero e meio fingido, e tão a ponto e natural, que era difficil
saber onde acabava a sinceridade e onde começava a simulação.
Animou-se a pouco e pouco, e não lhe escondeu nada. Confessou que a
filha de Luiz Garcia lhe transtornara de todo o espirito e que elle
estava resoluto aos maiores sacrificios para obter-lhe a mão.
--Ás vezes suppunha que o senhor andava nas minhas fronteiras, concluiu
elle, ideia que me affligia, porque o senhor tem sobre mim vantagens
incontestaveis. A suspeita desvanecia-se e eu tranquillisava-me. Hoje,
porém, confesso-lhe que a suspeita reappareceu e entrou a devorar-me o
coração; e ainda assim, tinha intervallos, porque ora me parecia que o
seu objecto era Yayá, ora que era a outra...
--Perdão, interrompeu Jorge; eu já lhe disse o que devia, e não posso
consentir que voltemos ao mesmo ponto. Uma de suas suspeitas é
injurias para mim.
--Tem razão; eu devia tel-o pensado, assentiu Procopio Dias. Mas que
quer? Nada se deve imputar aos dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em
todo caso, pode crer que a minha indole não é tão tolerante com o
vicio que me fizesse desejar haver dado em balda certa. Não sou
rigoroso; sei que as paixões governam os homens, e que a força de as
reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia
em que a natureza se fizer communista e distribuir egualmente as boas
qualidades moraes, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo cousa
nenhuma.
--Deixe-me falar-lhe com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que
o senhor é ainda menos rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua
suspeita, em relação á outra, tivesse fundamento, o senhor não me
ouviria com indignação.
--Talvez estimasse.
Jorge não disse nada; olhou sómente para o interlocutor, com um ar de
estupefacção, a que o outro sorriu benevolamente. Fez-se uma curta
pausa. Procopio Dias rompeu emfim o silencio:
--Talvez estimasse, sem deixar de indignar-me depois; isto é, a
indignação no momento seria abafada pelo interesse. Attenda-me,
doutor; sejamos justos com o natureza humana. Virtudes inteiriças são
invenções de poetas. Não me fazia bom cabello que a senhor gostasse
da outra, e menos ainda que ella lhe correspondesse, porque, em summa;
ambicionando entrar na familia, não desejaria que a familia tivesse a
menor macula. Esta é a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais
ridicula que pareça esta confissão, por mais grosseira que seja a
minha casca, a verdade é que amo a enteada apaixonadamente: é o meu
pensamento de todos os dias. Ora, dado que o senhor amasse a outra, qual
era o primeiro movimento do meu coração? Ligal-os ao meu interesse.
Desde que entre os dous houvesse um segredo, e que esse segredo fosse
descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ella eram os meus melhores
alliados, e a resistencia daquella menina, e a vontade do pae, tudo
cedia em meu favor.
Procopio Dias proferiu estas palavras com simplicidade e convicção.
Seus olhos plumbeos pareciam duas portas abertas sobre a consciencia. A
expressão do rosto era a de um cynismo candido. Jorge contemplou-o
alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer subjugado pelo
raciocinio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza não mostrava
que Procopio Dias já não suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:
--O que o senhor acaba de dizer não será animador, mas persuado-me que
é a realidade pura. Admira-me sómente que tenha tanta penetração e
superioridade para ver e confessar os vicios da natureza humana...
--Sou pratico, tornou o outro sorrindo. Raras vezes me irrito, comquanto
lastime sempre o que é fraqueza ou perversão. Assim, por exemplo, eu
não lhe ficaria querendo mal se o senhor me houvesse illudido agora
acerca de seus sentimentos, porque o seu interesse e o seu dever é
negal-os.
--Perdão; já lhe dei minha palavra...
--Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra
não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de
honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a
mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho
de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está
pervertida.
--Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.
--Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias
sorrindo.
--Pois juro-lhe...
Procopio Dias levantou-se de subito.
--Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio;
creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo
unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra!
Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta
expansão pode ter um lado grotesco,--hade ter de certo. O que lhe
affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente
da fortuna não dos homens...
Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge
acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do
outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava
de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns
mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser
acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.
--O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é
aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade
commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de
pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia,
com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com
um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor,
porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha
descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar
lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu
despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.
--Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?
--Nunca; receio que não me deixasse acabar.
--Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.
--Sabe disse?
--Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás
vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz
ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não
o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter
esperanças...
Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge
lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois
fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido.
Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições
de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos,
e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo.
Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão
tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em
Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.
Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de
ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e
olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe
apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer
philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas;
limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.
--Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso;
depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um
rapaz de espavento.
Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o
espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem,
que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era
turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir
ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e
mysteriosa de todas as forças sensuaes.
A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente,
como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão
aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até
esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi
justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um
favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de
uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança
de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos
da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e
compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam
dellas; não era difficil apagal-as de memoria.
Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o
que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.
Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas
as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras,
devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração,
trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o
cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora
divina e casta, ora ardente e lubrica,--lubrica, porque elle em sua
imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.
No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no
assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle,
dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o
não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não
pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.
--Não podia attribuir-lhe outro motivo, redarguiu Jorge sorrindo.
--Não ficou mal commigo?
--Mal? A prova é que se dependesse de mim casal-o, casava-o amanhã
mesmo.
Procopio Dias agradeceu-lhe a sympathia e o obsequio, e saiu. Jorge foi
dalli vestir-se para ir passar alguns minutos no escriptorio. Emquanto
se vestia, pensava na situação do ex-fornecedor do exercito. Não eram
amigos, mas o caso de Procopio Dias interessava-o; era sympathico a seus
olhos. Não indagou se essa sympathia brotava do medo; persuadia-se
ingenuamente do contrario. Um marido apaixonado e opulento! Duas
vantagens que uma moça nas condições de Yayá, devia acceitar com
ambas as mãos. Talvez Procopio Dias não fosse mal acceito ao coração
da moça; sómente, havia nesta uns vestigios de creança, que o tempo
devia apagar.
--Naquella edade um pretendente é uma especie de boneca, dizia Jorge
atando a gravata; o que é preciso, a todo trance, é fazer da boneca um
esposo.
Chegando ao escriptorio, ao meio dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes
consternado. Tinha dormido até onze horas, chegara tarde á casa em que
trabalhava, o patrão convidara-o a fazer as contas. Era uma pequena
casa de commercio, onde o Sr. Antunes, que entendia de escripturação
mercantil, trabalhava desde algum tempo, graças ao obsequio de Jorge:
--Mas já foi despedido? perguntou este.
--Devo fazer as minhas contas e retirar-me no fim do mez.
Jorge escreveu duas linhas ao patrão do Sr. Antunes. De tarde, foi este
a Santa Thereza. Jorge ia sentar-se á mesa do jantar; o Sr. Antunes já
tinha jantado, mas acompanhou-o.
--Venha, venha, disse o moço; preciso ralhar-lhe.
Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe
disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim,
reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do
commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de
oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.
--Isso mesmo, disse o pae de Estella.
--Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego.
Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa
difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.
--Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça
com um gesto de enfado.
Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou
de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil,
porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de
uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos
contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior
ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia
todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o
corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.
Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e
acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio
Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa
conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez
lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor
não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a
ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o
bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta:
«Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado,
como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço
carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que
fumava discretamente um charuto do bacharel.
--Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer
que Yayá vae casar.
--Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um
instante:--É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou
eu.
--Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente
ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo
ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...
--Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me
dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante
cousa. Aquella menina não tem cabeça.
--Oh! exclamou Jorge rindo.
--Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde
dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada.
Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!
--Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e
muitas vezes serio...
--Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.
--Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.
--Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella;
não lhe tem muita sympathia, é o que é.
--Como sabe você disso?
--Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as
costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de
pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu
o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai
porque já não podia aturar nem um nem outro.
Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara
sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não
significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava
longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes
alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais,
pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era
callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não
gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia
essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se
da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na
vespera com alguma cordialidade.
--Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não
perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella,
quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.
--Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.
--Tambem Estella gosta de mim.
Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á
revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá
lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não
gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?
A preoccupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge
appareceu em casa de Luiz Garcia. Foi a propria Yayá quem veiu
abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:--Entre, Sr. doutor,
que já se fazia esperado. Jorge não pode esconder o assombro que lhe
produzira aquella recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e
estendeu-lhe a mão.
--Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar
o que está aqui dentro.
--Não é uma estrella.
--Não, senhor; é um cavallo.
No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o taboleiro do xadrez:
acabava de dar uma licção á filha, que lh'a pedira desde antes do
jantar. Yayá levou até lá o filho de Valeria. Pela primeira vez
sentou-se ao pé dos dous para vel-os jogar; fincou os cotovellos na
mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ella, em tres
semanas.
--Tres semanas! repetiu o pae a sorrir e a olhar para Jorge.
Das qualidades necessarias ao xadrez, Yayá possuia as duas essenciaes:
vista prompta e paciencia benedictina; qualidades preciosas na vida, que
tambem é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras
perdidas, outras nullas.