A nova ordem de cousas perturbou profundamente o animo de Estella. O
procedimento de Jorge, por occasião da molestia do marido não lhe
pareceu esconder nenhuma intenção particular; mas durante a
convalescença, e sobretudo depois della, afigurou-se-lhe que a ideia do
moço era insinuar-se na familia. Para que? Estella suppunha que o amor
de Jorge, ao fim de tão longo periodo, estaria acabado de todo, como
producto da primeira estação. Não lhe negou um pouco de gratidão,
quando viu os obsequios que prestara ao marido enfermo, com tanta
solicitude, discrição e dignidade. Agora, porém, ao ver a frequencia
e a convivencia, suppoz alguma cousa mais do que a simples affeição
tradiccional. Que encanto podia offerecer a casa de uma familia retirada
e obscura a um homem creado em mais apparente plana social? Seu meio era
outro; tendencias de espirito ou ambições de futuro o deviam levar a
outra esphera. Esta consideração lhe pareceu decisiva. Concluiu que a
paixão, vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e
se assim era, Jorge devia estar peor que em 1866, porque então os
sentimentos rompiam com violencia e sinceridade, ao passo que agora o
seu principal aspecto era a dissimulação. O amor, se amor havia,
trazia já os olhos abertos e dispunha da razão; de estouvado,
tornava-se cautelloso e subtil.
--Que ideia faz elle de mim? perguntou Estella a si mesma.
Quando esta palavra lhe soou no espirito, Estella sentiu-se diminuida e
humilhada aos olhos de Jorge. Cumpria pôr termo a uma vida de
reticencias e dubiedade. Estella cogitou no meio de fazer cessar a
intimidade dos dous homens; quando menos, a frequencia de Jorge naquella
casa. Pensou em pedil-o directamente a Jorge; mas rejeitou desde logo a
ideia, aliás incompativel com sua indole; depois, pensou em dizer tudo
ao marido.
Uma noite, na primeira semana de Novembro, Estella assentou
definitivamente revelar ao marido a unica pagina de seu passado. Estava
sósinha, no jardim, e vira desmaiar o crepusculo da tarde--uma tarde
cinzenta e amortecida. De quando em quando o espirito volvia ao passado,
e toda ella estremecia com uma sensação extranha, mysteriosa e
insupportavel. A noite caiu de todo, e a alma de Estella mergulharia
tambem na vaga e perfida escuridão do futuro, se a rude voz do escravo
não a viesse acordar.
--Nhanhã está apanhando sereno, disse Raymundo.
Estella ergueu-se e foi dalli ao gabinete do marido. Luiz Garcia
trabalhava, á claridade de um lampeão, que toda convergia para elle e
os papeis que tinha deante de si, graças ao effeito de um _abat-jour_.
O resto do aposento ficava na meia obscuridade.
--Que é? perguntou Luiz Garcia sem levantar a cabeça.
Estella parou do outro lado da secretaria; Luiz Garcia ergueu então a
cabeça e olhou para ella, sem lhe poder ver o transtorno das feições.
--Que é? repetiu.
Vendo-o entregue ao trabalho, por amor della e da filha, Estella
hesitou; pareceu-lhe crueldade dar-lhe, em troca da protecção e do
affecto, um desengano e uma afflicção. Hesitou um instante, e passou
da hesitação á renuncia. Conteve-se e saiu. Escolheu o silencio.
Mas o silencio só por si não melhorava nada; tarde ou cedo, o marido
viria a ler em seu rosto o constrangimento, em relação a Jorge,
constrangimento inexplicavel, que elle podia interpretar contra ella.
Foi então que a serpente lhe ensinou a dissimulação. A necessidade
deu-lhe a intuição machiavelica; isto é, a occasião não consentia
um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma cordialidade
de superficie, friamente cortez, mas cortez. Desse modo, salvava-se a
paz domestica, e era o essencial. Ao mesmo tempo mostraria a destemidez
de seu coração, capaz de affrontar todo o artificio do outro.
Com o tempo, verificou Estella que o procedimento de Jorge, se alguma
intenção escondia, não a deixava sequer suspeitar; não lhe parecia
já dissimulação, mas abstenção. Elle proprio a evitava; fugia ás
conversas longas, sobretudo ás conversas solitarias. Era respeitoso e
frio.
Com effeito, Jorge não havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia á
feição do tempo; mettia-se por um atalho, sem saber se iria dar á
estrada recta ou a um abysmo. Nenhuma preoccupação lhe ensombrava a
fronte risonha e placida. Dir-se-hia que, após longa e trabalhosa
jornada, vingara o cume das delicias humanas.
A verdade é que o amor de Jorge tinha como que despido a qualidade de
sentimento para constituir-se ideia fixa. Nascido de uma primeira
explosão de juventude, curtiu alguns annos de ausencia. A ausencia
disciplinou os primeiros ardores, quebrou os impetos, afrouxou o alento;
o amor atou aos hombros as azas de um mysticismo quieto. Não parou
nessa evolução. Do coração em que pousava tomou impulso e alou-se ao
cerebro, onde assumiu a fixidez das resoluções definitivas. Não era
já uma paixão, mas uma convicção, isto é, outra cousa. Pensava
muitas vezes na consequencia de herdar em breve prazo a esposa de Luiz
Garcia, resolução que lhe parecia necessaria; era o que elle dizia a
si mesmo. E esse casamento tinha dous resultados: era uma reparação e
uma desforra: reparação do mal que elle fizera, desforra do tratamento
que ella lhe deu. Ambos tinham que reprochar um ao outro. O casamento
absolvia-os. Talvez na balança commum não fossem eguaes as dividas,
mas Jorge tinha certo fundo de equidade, e entendia que, se padecera
muito e longo, não excedeu o padecimento á injuria, que, a seus olhos,
fora grave.
Os ralhos da consciencia eram agora menos frequentes e menos rispidos:
é o effeito natural dessa ordem de situações violentas. Os mais
rigidos podem chegar assim ás complacencias inexplicaveis, e o que é
hoje nobre repugnancia, é amanhã hesitação pueril. Jorge não ficou
extranho a essa lei do costume. De si para si julgava-se innocente,
porque era impassivel, esquecendo a lettra do decalogo que não defende
sómente a acção, mas a propria intenção.
Duas circumstancias perturbaram, entretanto, o espirito de Jorge, antes
do fim daquelle anno.
A primeira foi a assiduidade de Procopio Dias, que lhe pareceu pouco
explicavel. Procopio Dias era recebido com agazalho mais cordial do que
elle. Em relação a Jorge, o procedimento de Estella era cautelloso e
apenas affavel; o de Yayá era de algum modo medroso ou hostil; uma e
outra pareciam alegrar-se quando Procopio Dias assomava á porta. Era
uma expressão differente. Este acompanhava-as ás vezes nos passeios,
ou conversava-as largo tempo, fazendo-as rir com uma espontaneidade, que
não tinham a falar com Jorge. Obedecia aos desejos da madrasta e aos
caprichos da enteada, quaesquer que fossem, com tamanha tolerancia e bom
humor, que fazia despeitar o outro, sem o saber. Jorge attentou nos
dictos e acções do intruso, e com o tempo veiu a tranquillisar-se.
--É um celibatario necessitado da companhia de mulheres, disse comsigo.
Procopio Dias não parecia outra cousa; a atmosphera feminina era para
elle uma necessidade; o ruge-ruge das saias a melhor musica a seus
ouvidos. Graças á edade, Yayá era mais familiar do que Estella; ás
vezes chegava a «judiar» com elle, excesso que o pae ou a madrasta
reprimia, e reprimia sem necessidade. Procopio Dias não manifestava nem
sentia o menor despeito; achava-lhe graça e chegava a fazer coro com
ella.
A segunda circumstancia que projectou alguma sombra no espirito de
Jorge, foi justamente a hostilidade de Yayá Garcia.
--Que diabo fiz eu a esta menina? perguntava Jorge a si mesmo.
Durante a molestia e a convalescença do pae, Yayá tratara Jorge com
muita gratidão e cordialidade. Algum tempo depois, começou a diminuir
essa apparencia, até que cessou de todo e se converteu n'outra cousa,
que visivelmente era repugnancia, com uma pontasinha de hostilidade.
Luiz Garcia viu logo a differença, tanto mais facil de notar quanto que
Estella, se não era já tão expansiva como nos primeiros dias, tratava
ainda assim o filho de Valeria com uma affabilidade, que salvava as
apparencias; a unica excepção era a filha. Não deixou de a advertir;
ponderou-lhe que Jorge era filho de uma pessoa a quem elles deviam
estima, e de quem ella mesma houvera uma recordação posthuma; que essa
circumstancia devia atenuar a antipathia, se Jorge lhe era antipathico.
Yayá ouvia e calava-se; emendava-se n'um dia, para reincidir toda a
semana.
--És uma extranhona, disse uma vez o pae depois de lhe repetir a
advertencia.
Podia ser estranhice. A vida que Yayá tivera durante largo tempo
dera-lhe o amor exclusivo da solidão e da familia. Mas no caso presente
parecia ser alguma cousa mais do que isso. O rosto com que recebia Jorge
não era o mesmo com que via outras pessoas. Jorge ás vezes chegava
quando ella estava ao piano; Yayá interrompia-se habilmente, fazia
gottejar dos dedos umas tres ou quatro notas soltas e divergentes e
erguia-se. Se elle ia conversar com ella e a madrasta, Yayá tomava a
parte minima do dialogo e esquivava-se cautelosamente. Não sorria nunca
se elle dizia uma cousa graciosa ou fazia cumprimento; não animava
nunca a adopção de qualquer projecto que viesse delle; não lia os
romances que elle lhe emprestava. Se era convidada a dizer o que pensava
de um ou outro desses livros, fazia descair os cantos da boca commum
gesto de indifferença. Não falava nunca de Jorge; apparecia-lhe o
menos que podia. Este procedimento constante, não affrontoso, porque
ella o disfarçava, impressionou o espirito do moço, que não lhe pode
descobrir a causa verdadeira, ou pelo menos verosimil.
A verdadeira causa era nada menos que um sentimento de ciume filial.
Yayá adorava o pae sobre todas as cousas; era o principal mandamento de
seu cathecismo. Instigara o casamento, com o fim de lhe tornar a vida
menos solitaria, e porque amava Estella. O casamento trouxe para casa
uma companheira e uma affeição; não lhe diminuiu nada do seu quinhão
de filha.
Yayá viu, entretanto, a mudança que houve nos habitos do pae, pouco
depois de convalescido, e sobretudo desde os fins de Setembro. Esse
homem sêcco para todos, expansivo sómente na familia, abrira uma
excepção em favor de Jorge; sem mostrar maneiras ruidosas, aliás
incompativeis com elle, era menos reservado, de mais facil e continuado
accesso. Não foi porém esse primeiro reparo que produziu em Yayá a
notada mudança; foi outro. Luiz Garcia deu a Jorge algumas
demonstrações de confiança pessoal, e no dia em que a filha viu a
primeira, recordou-se da carta que escrevera ao moço na noite em que a
molestia do pae se aggravara, e da confidencia dos dois, cujo assumpto
nunca lhe chegara aos ouvidos. Neste instante sentiu borbulhar no
coração uma primeira gotta de fel. Imaginou que Jorge viera roubar-lhe
alguma cousa. Não cogitou se haveria assumpto que dous homens devessem
tratar exclusivamente entre si; suppoz-se despojada de uma parte da
confiança do pae, e porque amava o pae sobre todas as cousas, seu amor
tinha os ciumes, as coleras, os arrebatamentos do outro amor, e
consequentemente os mesmos odios e lastimas.
Conhecia o pae toda a intensidade da affeição filial da moça, e não
era menor a do seu amor; mas elle dizia comsigo philosophicamente, e
não sem pezar, que a natureza se encarregaria de lhe ensinar outro
sentimento, menos grave, mas não menos intenso e imperioso. Quando elle
assim reflectia, contemplava a filha com um olhar já humido das
primeiras saudades.
Yayá estava então em toda a limpidez de uma aurora sem nuvens. Era
leve, agil, subita--com um pouco de destimidez; ás vezes aspera, mas
dotada de um espirito ondulante, esguio e não incapaz de reflexão e
tenacidade. Nisto podia ficar o retrato da menina, se não conviesse
falar tambem dos olhos, que, se eram limpidos como os de Eva antes do
peccado, se eram de rôla, como os da Sulamites, tinham como os desta
alguma cousa escondida dentro, que não era de certo a mesma cousa.
Quando ella olhava de certo modo, ameaçava ou penetrava os refolhos da
consciencia alheia. Mas eram raras essas occasiões. A expressão usual
era outra, meiga ou indifferente, e mais de infancia que de juventude.
Talvez a boca fosse um pouco grande; mas os labios eram finos e
energicos. Em resumo, as feições dos onze annos estavam alli
desenvolvidas e mais accentuadas.
Uma tarde Luiz Garcia recebeu ordem de ir immediatamente á casa do
ministro. Saiu, deixando a mulher e a filha, anciosas pelo resultado.
Jorge appareceu pouco depois. A demora de Luiz Garcia foi longa, e Jorge
ter-se-hia retirado, se não fora a chegada do Sr. Antunes, que deu um
sopro de vida á conversa que expirava. Nove horas, dez horas, onze
horas bateram sem que Luiz Garcia voltasse. Yayá estava impaciente;
receiava alguma doença subita do pae, um desastre qualquer. Eram onze
horas e um quarto quando este entrou offegante, porque viera depressa,
tendo encontrado Raymundo, que, ouvindo as ancias da moça, saíra a
encontral-o e a dizer-lh'as.
Yayá atirou-se-lhe aos braços.
--Medrosa! disse Luiz Garcia abrangendo-lhe a cabeça com as mãos.
Sentou-se um instante para repousar; com a mão esquerda comprimia o
coração. Logo depois ergueu-se, chamou Jorge e foi até uma das
janellas. Conversaram em voz baixa dez minutos. Disse-lhe que talvez
fosse obrigado a sair no fim daquella semana; tratava-se de uma
necessidade de serviço; salvo uma hypothese, a viagem era inevitavel.
Yayá não tirava os olhos de um e de outro; despediu-se de Jorge dando
lhe as pontas dos dedos. Foi no dia seguinte que Estella lhe disse que
talvez fossem obrigadas a sair por algum tempo. Ouvindo a noticia, Yayá
comprehendeu a confidencia da vespera, e ficou consternada. Ella era a
ultima que a recebia, e o primeiro fora um extranho, um intruso,--esteve
quasi a dizer um inimigo. Nenhuma palavra do pae; nenhuma communicação
directa.
--A ultima!
Esse resentimento exagerado era o proprio effeito da organização da
moça, e, outrosim, de sua educação quasi solitaria. Para affastal-a
de Jorge não foi preciso mais; o despeito apoderou-se inteiramente
della. Se até ali pouco lhe havia falado, esse pouco diminuiu ainda com
o tempo; fez-se quasi nada.
E essas duas forças, uma de impulsão, outra de repulsão, tendiam a
esbarrar-se, no caminho de seus destinos.
X
Ora, quatro ou cinco dias depois, Luiz Garcia que, na previsão de
viagem, começara a arranjar alguns papeis esparsos e antigos, dispoz-se
a concluir esse trabalho, não obstante haver sido dispensada a
commissão. Era dia de anno bom,--uma bella manhã, fresca, limpida,
azul. Tinham ido á missa na capella do convento; almoçaram em familia,
com a presença do Sr. Antunes, que inaugurara uma sobrecasaca, e trazia
nessa manhã um aspecto, não sómente venerador, mas até veneravel.
Yayá accordara extremamente alegre e boliçosa. O Sr. Antunes
levara-lhe um ramalhete de cravos, dizendo que era para que ella
recebesse outros ramalhetes durante todo o anno, e a menina, depois de o
receber e agradecer com uma mesura, foi pol-o n'um vaso, sobre o
parapeito da janella da alcova. O Sr. Antunes despediu-se della, meia
hora depois de almoçado.
--Já vae?
--Vou jogar uma partida de bilhar com o Jorge, disse familiarmente o pae
de Estella. Viremos cedo.
--Elle vem jantar?
--Quero ver se o trago.
--Mas... papae não está prevenido, objectou Yayá.
--Está; foi elle proprio que me autorisou a trazel-o. Verdade é que
fui eu que o pedi. Devemos muito áquelle moço, e ao defunto pae e á
mãe, a Sra. D. Valeria, que Deus tenha. Até logo.
Yayá ficou só, e um instante pensativa; mas, logo depois ergueu os
hombros, pegou de um trabalho de agulha, inventado para matar o tempo, e
caminhou para o gabinete do pae, onde o foi achar com Estella.
--Virgem Nossa Senhora! disse a moça parando á porta.
Ao pé da secretaria estava uma vasta cesta, transbordando de papeis;
sobre a secretaria papeis; papeis na mão de Luiz Garcia; outros na mão
de Estella; alguns esparsos no chão. Era uma liquidação de seis
annos. Luiz Garcia tinha o costume de guardar tudo, cartas, exemplares
de jornaes em que havia alguma cousa de interesse, apontamentos, simples
copias. De longe em longe inventariava e liquidava o passado. Havia já
alguns annos que não fazia a costumada operação. Começara quando
suppunha ter de deixar o Rio; agora tratava de concluir. Estella tinha
entrado pouco antes da enteada; sentara-se em uma cadeira rasa, e
entretinha-se a receber ou apanhar algum pedaço de jornal velho, e a
ler algum trecho em que os olhos acertavam de cair.
--Que é? disse Luiz Garcia logo que a filha soltara a exclamação.
--Papae vae ficar afogado em papel, disse a moça.
Luiz Garcia não respondeu; voltara os olhos para uma carta que tinha na
mão, e que sem duvida, lhe trazia alguma recordação amarga, porque
elle sorria tristemente. Leu-a toda; releu alguns trechos; depois fez um
gesto de desdem, rasgou-a e deitou os pedaços á cesta.
Yayá foi sentar-se do outro lado, a poucos passos do pae.
Na secretaria, ao pé deste, havia um maço de cousas que serviam, um
maço pequeno; a grande maioria era a dos destroços inuteis. Não é
isso mesmo a imagem do passado? Luiz Garcia desdobrava ás vezes um
jornal, avaramente guardado havia annos; duas cruzes ou alguns traços
indicavam o trecho que nesse tempo lhe chamara a attenção. Relia-o
agora; buscava o motivo da reserva e sorria. A impressão que
communicara algum interesse ao escripto desapparecera de todo; o
escripto era um esqueleto. Tambem as cartas eram assim. Raras escapavam
á destruição; as mais dellas eram dilaceradas, umas em dous
pedaços,--as infimas,--outras em trinta, as que podiam ter alguma
gravidade. Estella, que o ajudava, pegou casualmente em uma carta, cuja
lettra do sobrescripto lhe não pareceu extranha.
--Eu conheço esta lettra, disse ella.
--Deixa ver.
Estella deu-lhe a carta.
--É do Dr. Jorge, disse o marido.
Abriu-a, e depois de ler algumas linhas, sorriu. Leu-a depois até o
fim. Quando acabou, dobrou-a e ficou a olhar para a mulher; tornou a
desdobral-a machinalmente.
--Vou restituil-a, disse elle depois de curta pausa; talvez se
envergonhe de haver escripto estas cousas...
E dirigiu os olhos á carta, com uma insistencia de aguçar o mais
embotado appetite. Depois, volveu a cabeça um pouco para traz, onde
ficava a filha, a distancia, de olhos baixos; abafou a voz e disse a
Estella:
--Nunca soubeste do verdadeiro motivo que o levou á guerra?
Estella ficou ainda mais pallida do que era; o sangue todo refluiu-lhe
ao coração, donde lhe não saiu uma só palavra; foi com um gesto
negativo que ella respondeu. E se não podia empallidecer mais, podia
corar e corou de vergonha. Luiz Garcia não viu nem a primeira, nem a
segunda impressão de suas palavras. Enrolava e desenrolava com os dedos
um dos cantos da carta. Naturalmente relembrava os successos daquelles
cinco annos, as confidencias da mãe e do filho.
--Quem diria que depois de tamanho sacrificio.... O que são rapazes! O
que são paixões! Elle gostava de uma moça; não sei quem era, mas
supponho.... A mãe fez quando pode para domal-o; quando desesperou,
lembrou-se de o mandar para o sul; elle acceitou. Fui confidente de um e
de outro. Tempos depois de embarcar.... espera.... a data hade estar
aqui.... 67.... Ainda em 67 durava a tal paixão; afinal pareceu que só
esperava o fim da guerra para acabar tambem. Morreu-lhe a paixão e elle
engorda. Nunca suspeitaste nada?
--Não, murmurou Estella.
Luiz Garcia deu a carta á mulher, que a recebeu tremula e fria.
--Lê, que é interessante, disse elle.
Estella olhou para o papel e para o marido, vacilante, sem saber o que
faria e o que pensasse.
--Lê; é curioso, disse este, que voltara aos demais papeis, abrindo
uns, separando outros, tranquillo e indifferente.
Estella, sem levantar a cabeça, olhou ainda de esguelha para elle, como
a procurar-lhe na fronte a intenção escondida, se por ventura havia
alguma, e esse gesto era tão travado de receio e hesitação, era
sobretudo tão dissimulado, que ella propria o sentiu e arrependeu-se.
Cravou depois os olhos no papel, sem ler, sem fitar nenhuma linha, uma
palavra unica. Não via as lettras; via, ao longe, dous pombos que
voavam e a candura de seus labios embaciada por uns labios de homem;
nada mais. A mão tremia; ella firmou-a sobre a borda da secretaria; mas
o tremor, ainda que pouco perceptivel, não cessou.
--Leste? perguntou Luiz Garcia dobrando um jornal que acabava de passar
pelos olhos.
Estella fez um gesto para que esperasse um instante. Não reparava que
havia decorrido tempo sufficiente para haver lido a carta duas vezes.
Fez um esforço; voltou a pagina; duas ou tres phrases lhe feriram os
olhos: «Meu amor não sabe o que seja impaciencia ou ciume ou
exclusivismo; é uma fé religiosa que pode viver inteira em muitos
corações»--«O essencial é saber que amo a mais nobre creatura do
mundo»--«A paixão veiu commigo, e se não cresceu é porque não
podia crescer; mas transformou-se. De creança que era, fez-se homem de
juizo.» Chegou ao fim da carta ou pareceu ter chegado; dobrou-a, e não
se atreveu a dizer nada; depois tornou a abril-a.
--Que poesia, hem? disse Luiz Garcia sorrindo.
E o sorriso era tão natural, tão despreoccupado, tão honesto, que
Estella ficou tranquilla. Tinha em grande conta a dignidade e a
sinceridade do marido; não podia suppôr-lhe tanta hypocrisia nem
tamanha indifferença. Sorriu tambem, mas um sorriso de acquiescencia,
sem convicção nem espontaneidade. Luiz Garcia inclinou-se para ella;
falou-lhe com a mesma voz abafada de pouco antes; referiu-lhe o amor que
Valeria tinha ao filho e a estrategia usada para o fim de o arredar do
Rio de Janeiro.
--Naquelle tempo, disse elle, não sei se cheguei a arrepender-me de a
ter apoiado; hoje não. O filho ficou são e salvo de seus amores, com
um posto e honras de sobra.
--É verdade, murmurou Estella, que o escutara com a attenção dispersa
e impaciente.
Logo depois ergueu-se e foi á janella. Alli sacudiu a cabeça com um
gesto energico. Talvez lutavam nella forças contrarias; ou era o seu
passado que emergia da sombra do tempo, com todas as cores vivas ou
escuras, com as delicias occultas e nunca revelladas, e ao mesmo tempo
com as amarguras e resistencias. Era isso; era o coração que mordia
impaciente o freio da necessidade e do orgulho, e vinha pedir ainda uma
vez o seu quinhão de vida, e pedia-o em nome daquella carta, expressão
remota de um amor desenganado e impassivel. Estella suffocava esses
impetos, mas elles vinham. Após alguns minutos, deixou a janella,
tornou á cadeira onde estava. Luiz Garcia lia então um retalho de
jornal. Não chegou a levantar os olhos.
Defronte, Yayá tinha os olhos cravados na madrasta. Ouvira a principio
o nome de Jorge e não lhe prestara muita attenção; mas uma ou duas
palavras soltas do pae haviam-lhe despertado a curiosidade. Yayá ergueu
a cabeça, inclinou-a depois, ouviu a confidencia do pae, não obstante
ser feita em voz baixa, e emfim não retirou mais os olhos de Estella.
Viu-a receber a carta, com a mão tremula; viu-a empallidecer ainda
mais; viu-lhe a confusão e o enleio. Porque o enleio e a confusão? Um
amor extincto de Jorge, uma paixão que o levara á guerra, que tinha
ella, que tinham elles tres com isso?
Yayá olhou a principio com curiosidade, depois com espanto, até que os
olhos luziram de sagacidade e penetração. O estylete que elles
escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e estendeu-a até ir ao fundo
da consciencia de Estella. Era um olhar intenso, aquilino, profundo, que
palpava o coração da outra, ouvia o sangue correr-lhe nas veias e
penetrava no cerebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem
ligação. Yayá adivinhou o passado de Estella; mas adivinhou de mais.
Galgou a realidade até cair no possivel. Suppoz um vinculo anterior ao
casamento, roto contra a vontade de ambos, talvez persistente, mau grado
aos tempos e ás cousas. Tudo isso viu uma simples innocencia de
dezesete annos. Seu pensamento cristalino e virginal, nunca embaciado
pela experiencia, ignorava até as primeiras scismas de donzella. Não
tinha ideia do mal; não conhecia as vicissitudes do coração. Jardim
fechado, como a esposa do Cantico, viu subitamente rasgar-se-lhe uma
porta, e esses dez minutos foram a sua puberdade moral. A creança
acabara: principiava a mulher.
A impressão foi tão profunda, que apezar da força de resistencia que
havia em sua organização, Yayá não pode ter-se alli mais tempo. Saiu
e refugiou-se na alcova. Certo, aquelle amor intruso, se o havia, era
para affligir e prostrar um coração de filha, amassado de ternura,
para o qual a forma superior e exclusiva do sentimento era a paixão que
a prendia a seu pae, como um vinculo indestructivel. Depois vinha o
affecto que votava á madrasta, sua mãe electiva, affecto não menos
sincero e real, e que já agora podia diminuir, quem sabe até se morrer
todo?
Sentada na beira da cama, com os pés juntos, as mãos fechadas entre os
joelhos, os olhos cravados no espelho que lhe ficava defronte, Yayá
trabalhava mentalmente na sua descoberta. Confrontava o que acabava de
ver com os factos anteriores, de todos os dias, isto é, a frieza, a
indifferença, a stricta polidez dos dous, e mal podia combinar uma e
outra cousa; mas ao mesmo tempo advertia que nem sempre estava presente
quando Jorge alli ia, ou fugia-lhe muita vez, e podia ser que a
indifferença não passasse de uma mascara. Demais, a commoção da
madrasta era significativa. Estendeu o espirito pelo tempo atraz, até o
dia da primeira visita de Jorge, e lembrou-se que elle estremecera
ouvindo a voz de Estella, circumstancia que lhe pareceu então
indifferente. Agora via que não.
Uma hora inteira gastou nesse cogitar solitario, a sós com a suspeita e
o remorso. Tambem remorso, por que de quando em quando atterrada com a
vista do caminho andado, a alma recuava e estremecia; tinha horror de si
mesma. Mas a figura pallida da madrasta surgia ao pé della, com a
expressão que lhe vira pouco antes, e a consciencia fazia as pazes com
a malicia.
Vede a consequencia. Estella não era culpada; um incidente do passado
é que projectava tamanha sombra na vida presente; mas bastou o
espectaculo da commoção para turbar o espirito da enteada e lançar
lá dentro os primeiros germens da sciencia do mal. Que seria se fosse
culpada? Talvez o mais lastimoso effeito dos desvios domesticos é essa
corrupção dos corações ingenuos, impassiveis testemunhas do que
ignoram um dia, do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manhã:
primeira violação da virgindade.
Yayá agitava-se na alcova, de um para outro lado, desejosa e receiosa
ao mesmo tempo de ir ter com Estella. Duas vezes chegou á porta e
recuou. Uma das vezes, voltando para dentro, deu com os olhos no retrato
do pae que pendia junto á cabeceira,--uma simples photographia. Tirou-o
dalli, contemplou longamente a fronte austera e pura. Que! Haveria na
terra quem o amasse uma vez e não sentisse que o amor lhe dominaria a
vida inteira? Tão affectuoso! tão bom! vivendo exclusivamente para os
seus, sem nada invejar ao resto dos homens. Isto lhe dizia o coração,
emquanto ella ia beijando o retrato com respeito, com amor, afinal com
delirio. Grossas lagrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Yayá
deixou-as cair: sorveu-as com seus proprios beijos. Quando essa primeira
explosão acabou, acabou para se não repetir mais. Enxutos os olhos
Yayá pode friamente reflectir, e a reflexão dominou a angustia.
O que se passou naquelle cerebro ainda verde, mas já robusto, foi uma
resolução sem plano. Deslindar o vinculo espurio era o essencial e
urgente, não cogitou no modo. Sua innocencia, assim como lhe
dissimulava toda extensão possivel do mal, assim tambem lhe encobria as
asperezas e os obices da execução. Era o coração que lhe designava
esse papel de anjo guardador. Natureza simples e intacta, ia direito ao
fim sem o temor que dá a experiencia e a contemplação da vida. Quem
sabe? Não conhecia a hypocrisia, mas acabava de suspeital-a; começava
talvez a apprendel-a.
Tinha-se demorado muito e era preciso sair do quarto; mas, como houvesse
chorado, podiam ler-lhe os vestigios da dor. Yayá foi ao lavatorio
deitou agua na bacia e começou a banhar os olhos e o rosto. O rumor da
agua impediu-lhe ouvir que alguem abria a porta. Estella appareceu-lhe
repentinamente.
--Que faz você aqui ha tanto tempo? disse a madrasta, parando á porta.
Yayá não se atreveu a olhar de rosto para ella; mastigou uma resposta
esquiva e continuou o que estava fazendo.
--Que tens? perguntou Estella pegando-lhe dos braços e fazendo-a voltar
para si. Você chorou? ... Chorou, sim; tem os olhos vermelhos. Que foi?
Yayá, fala; que é?
--Não é nada, acudiu a outra procurando sorrir.
--Não minta, Yayá.
A enteada olhou de relance para o espelho; viu que era inutil mentir.
--Foi uma tolice, disse ella.
--Alguma travessura?
--Antes fosse!
Yayá pegou do retrato que puzera na borda do marmore de lavatorio, e
olhou alguns instantes para elle. Estella quiz conchegal-a a si, mas a
enteada fugiu-lhe com o corpo.
--Trata-se... de teu pae? perguntou a madrasta.
Yayá fitou-a e respondeu:
--Sim, mamãesinha; estava a sacudir a poeira do retrato de papae, e
comecei a pensar... foi uma loucura... se elle... morresse?
Estella reprehendeu-a com uma interjeição; Yayá quiz continuar, mas a
outra interrompeu-a impetuosamente:
--Cala-te, disse; não penses em tolices. Dá cá o retrato.
--Não é verdade que elle é o melhor dos homens? perguntou Yayá, em
quanto Estella pendurava o retrato.
A unica resposta da madrasta foi caminhar para ella e dizer-lhe que
nunca mais pensasse em semelhante cousa.
--Não sou senhora dos meus pensamentos, respondeu a moça, erguendo os
hombros.
Após alguns segundos de silencio, Estella percebeu que alguma cousa
preoccupava a enteada, e disse-lh'o. Yayá respondeu negativamente. Mas
Estella insistiu:
--Não tens o teu ar do costume, e esses olhos andam vagamente de um
lado para outro. Talvez... quem sabe...
--Não é isso que a senhora pensa, interrompeu Yayá seccamente.
Depois sentou-se, a olhar para o jardim, a morder o labio, que lhe
tremia, e a comprimir os seios com a mão. Estella ficou um instante
calada; emfim sacudiu benevolamente a cabeça e approximou-se da menina.
--Tu não tens confiança em mim, Yayá, disse ella pousando-lhe a mão
no hombro. Se tivesses, dizias-me em que é que pensas, porque é de
certo em alguma cousa. Não é difficil deixar de pensar no Procopio
Dias; acho até que é a cousa mais facil; mas não será algum
pensamento da mesma natureza? Anda; sê franca; sou apenas tua madrasta,
e pouco mais velha que tu; posso ouvir tuas confidencias e
aconselhar-te. Onde acharás melhor amiga do que eu?
Yayá tinha applacado a primeira sensação; afivellou de todo a mascara
da tranquillidade, emquanto não a substituia por outra. Ergueu-se e
disse com affouteza:
--Pois bem, vou confiar-lhe uma cousa... não... supponha... é melhor
suppôr... tenho vergonha de dizer a verdade. Supponha que tive um amor
de collegio...
--Tu? Aos treze annos!
--Aos doze e meio.
--Bonito! Não foi começar tarde. Esse amor naturalmente expirou nos
braços da ultima boneca.
--Supponha que não, disse Yayá em tom serio. Ora, se eu tiver de casar
com o Procopio Dias...
--Quem te fala em casar com elle?
--Por ora é um gracejo; mas, se elle teimar, é possivel que nem a
senhora nem papae o desemparem, e ainda mais possivel que eu me deixe
vencer para contentar a todos. Mas é este o ponto de minha confidencia;
é uma ideia que me persegue ha dias. Devo eu casar com um homem amando
a outro? posso fazel-o? devo fazel-o?
Estella estremeceu levemente, sob o olhar impassivel e puro da enteada,
e não respondeu logo. Yayá parecia folgar com esse enleio de um
minuto; mas ao mesmo tempo o coração lhe sangrava, porque o enleio era
a confirmação de suas recentes supposições. A madrasta não tinha a
penetração da enteada; além disso, como suppôr nella o conhecimento
de um facto remoto e não divulgado? Estella nem cogitou nisso.
Escoou-se o minuto, e ella respondeu com tranquillidade:
--Não deves casar, se o amor pode ser satisfeito sem obstaculo. No caso
contrario, o casamento é uma simples escolha da razão: sacrifica-te.
Yayá, que tinha uma das mãos da madrasta entre as suas, largou-a
subitamente. Estella riu, e bateu-lhe na testa com a ponta do dedo.
--Esta cabecinha! disse ella. Ha aqui dentro muita cousa que é preciso
capinar...
No primeiro instante, Yayá empallideceu. Ao ultimo gesto de Estella,
respondeu com um sorriso forçado e sem cor. Logo que esta saiu,
deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mãos. Quando dalli saiu,
meia hora depois, não trazia nenhum signal de lagrimas, ou sequer de
tristeza. Não vinha alegre, de certo; serena, sim, daquella serenidade
com que o caçador do sertão se dispõe a encarar a onça.
Jorge foi jantar, e sobre a tarde appareceu Procopio Dias. Durante o
jantar e a noite, Yayá fez impressão na familia e nos extranhos, pela
singular alteração de seus modos. Estava um pouco pallida, mas a viva
luz dos olhos parecia communicar ao rosto uma porção do colorido
ausente. Mostrou-se expansiva, e não golhofeira. Suas phrases eram
longas, deduzidas, iam até o fim do pensamento, sem as interrupções e
saltos do costume. De costume, parecia que a moça pensava aos
fragmentos, porque era quasi impossivel ter com ella uma conversa
inteiriça e ordenada com a sua variedade propria. Naquelle dia era o
contrario. Como que a alma despira a roupa de bailarina, para enfiar um
roupão caseiro, simples, apertado, subido até o pescoço. Era melhor
assim? era peor? Nem uma nem outra cousa; era uma apparencia nova.
Mais do que ninguem, Jorge estimou essa alteração, porque em relação
a elle a moça tambem havia mudado alguma cousa. Yayá sentira nesse dia
mais repugnancia do que nunca ao ver o filho de Valeria, e chegou a
recuar instinctivamente a mão. Cedeu, porém, e o sorriso com que
corrigiu a recusa foi o primeiro que Jorge recebeu directamente della.
Nesse dia a moça respondeu-lhe sem custo, e talvez lhe dirigiu a
palavra alguma vez; o que tudo viu Luiz Garcia e attribuiu a effeito de
suas admoestações.
Nem Luiz Garcia nem Jorge poderiam suppôr que sobre a cabeça da
madrasta e da enteada a carta de 1867 agitava as suas lettras de fogo.
Essa carta importuna, poupada da destruição immediata, era a scentelha
subitamente lançada no amor adormecido de uma e no odio nascente de
outra; Jorge estava longe de o ler no rosto affavel de Yayá, e no olhar
fugidio de Estella.
Pouco depois das dez horas dispersou-se a reunião. O Sr. Antunes
aposentou-se por essa noite em casa do genro. Jorge e Procopio Dias
sairam juntos.
--Vae para a cidade a esta hora? perguntou Jorge.
--Repare que ainda me não offereceu cama, disse rindo o outro.
--Mas offereço-lhe agora.
--Acceito. Precisava justamente falar-lhe: negocio grave.
--Não é de certo algum fornecimento?
--Nem só de pão vive o homem, acudiu Procopio Dias.
--Que negocio é?
--Uma explicação.
--Sobre...
--Hade ser lá em casa; a noite é escura e os quintaes são
traçoeiros.