É por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instrucção de

vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadãos, nas escolas

publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira lição não

vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao

espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos

companheiros.

É n'essa intima communhão de interesses com individuos da mesma raça, da

mesma nação, da mesma idade, que o homem começa a comprehender a

primeira e a mais importante noção social, a noção da solidariedade

humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho

final das forças sympathicas sobre as forças egoistas, á adaptação mais

perfeita do individuo á communidade.

E não é sómente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se

regularisa nas relações de convivencia com os nossos similhantes. São as

curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se

transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geração a

que pertencemos.

Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o

aos contactos e ás suggestões dos individuos que nos teem rodeado

atravez da existencia. É esta uma divida que poucos se lembram de pagar,

reconhecendo com veneração os beneficios da amisade. Todas as mães estão

prontas sempre a declinar sobre as «más companhias» dos seus filhos a

responsabilidade dos seus desvarios. São rarissimas aquellas que sabem

agradecer, como collaboração dos seus desvelos, a parte enorme que as

«companhias boas» tiveram na formação do espirito e na formação do

caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus

filhos.

O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos

vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo

quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia

Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a

si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituições e nas

ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia

lhe respondera:--não. «Senti-me então desfallecer,--diz elle;--todas as

fundações sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram

de repente.» Mais tarde elle sentiu a dôr, sentiu depois o amôr, o amôr

apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a

força dissolvente da analyse_; e foi só então que elle se sentiu homem,

revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe

communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração

palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o

reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico,

cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes

amantes celebres.

A educação ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se

ministra o alimento ás gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o

não ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se

fazer um homem.

Não basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrão ou o snr

Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual,

abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina

haurida nos compendios do snr José Garnier.

Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opiniões

feitas, introduzindo-lh'as por injecção pedagogica. Já Stendhal dizia

que estamos n'um seculo em que sómente será escutado o homem que tiver

opiniões individuaes. Só os timidos, os preguiçosos e os tolos é que

teem como suas as opiniões em gyro. Ora as opiniões individuaes só se

adquirem pela livre critica da opinião da massa, que é indispensavel

conhecer e tratar.

É o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes ácerca

da educação dos seus filhos.

Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos

burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.

O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de

Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma

universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen,

filho do grão-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram

em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais

estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado,

irem a pé para a universidade com a pasta de couro debaixo do braço,

beberem juntos o _meiwein_ nos cafés, e passearem de sapatos ferrados e

cachimbo nos beiços pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em

Heisterbach.

O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg,

fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

O principe Carlos Alexandre, grão-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, é

alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de

Slesvig-Holstein-Souderbourg, é alumno da universidade de Bonn.

O principe Frederico Guilherme, grão-duque de Mecklembourg-Strelitz, é

egualmente formado em Bonn.

O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da

conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um

curso de economia politica.

O principe reinante da Servia, Milão Obrenovitch, fez os seus estudos em

Paris, no lyceu Louis-le-Grand.

Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de

Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe

imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns são lithographos, outros

são torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa

alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em

tempo opportuno, vossa alteza teria obtido então a singular aptidão

cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenação

dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na

convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, á

desconsoladôra melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em

capacidade, entre os homens eguaes em condição.

Os dois filhos do principe de Galles estão presentemente estudando na

Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadãos da sabia e modesta

republica helvetica.

O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe

Eugenio Napoleão, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas

publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opiniões politicas e

de todas as opiniões religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu

valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam

finalmente um circulo de affeições, ligadas ás memorias da mocidade, e

constituindo um dos mais dôces e dos mais nobres encantos da vida.

Vossa alteza, que até hoje não teve ainda um companheiro e um amigo,

conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o

seu coração, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus

affectos desempregados.

Em um exordio sentimental que precede a exposição dos estudos de vossa

alteza publicada no _Diario de Portugal_, lêem-se as seguintes linhas:

_Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir

dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educação dos

seus filhos._

Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante

intervenção!

É realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do

encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para não terem

devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.

A missão da mãe na educação do homem termina quando este chega aos

quatorze annos. Charles Robin o disse. Até essa idade são os sentimentos

que inspiram os actos, e é á mãe que cumpre dirigir os sentimentos. Dos

quatorze annos em deante são as ideias que dirigem as acções.

As psychoses, assim como as manifestações anathomicas e as funcções

physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que

nenhuma mãe tem direito de devassar na educação de um rapaz, assim como

nenhum pae tem direito analogo na educação de uma menina.

Toda a mãe que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades

intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o

d'ella.

Não sabemos se vossa alteza adquiriu já a firme e clara comprehensão de

que não veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues

e côr de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de

couve. Se vossa alteza chegou já com effeito ao conhecimento da secreta

verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua

meninice, vossa alteza começou desde esse dia, pela subita renovação do

amor e do respeito a sua mãe, a ser para ella o verdadeiro filho, mas

cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.

Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja

convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas

faculdades criticas é a sua noiva ou é a sua amante.

A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser é preciso, para a

honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique

para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nós

arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o

fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.

O amor maternal é o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade

scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia,

cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada

das suas azas desdobradas e pendentes.

E é preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do

coração d'aquella que nos deu á luz, e junto da qual é ineffavelmente

doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das

amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beiços com veneração

no cristalino veio abençoado de cuja corrente humilde e melodiosa,

escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou

sobre a nossa infancia a perola da candura.

Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educação começou

já a fructificar.

Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias

ao santo sacrificio da missa, e não fez ainda a um companheiro ou a um

amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aço.

Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em

periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissão a

vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu

peito a narrativa dos peccados que vossa alteza não perpetrou e dos

beneficios que vossa alteza egualmente não distribuiu. Depois do que,

feito o acto de contrição, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo

Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e

confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da

Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial

mansão com a sua agradavel presença, indo trocar um aperto d'azas com os

anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

Para os effeitos celestiaes é evidente que não póde haver melhor vida

que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe está

destinada.

A unica coisa de recear é que a historia não seja por ventura tão

acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre

mestre, o patriarcha Voltaire, a historia só diz bem d'aquelles que

praticam o bem. Ella é de um desprezo incivil com todos os que

delicadamente se encerram na missão discreta de não praticar coisa

alguma.

É n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coração aos

tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Não é porém com

tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da

responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.

E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a

universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma

mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no

conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa

alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas

tendencias, das suas aspirações, das suas vistas futuras, é vossa alteza

em Portugal o unico homem da sua idade que não tem conhecimento algum.

Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos,

conservadores e cortezãos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos

seus annos, vossa alteza só conhece do seu tempo os individuos que

cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua

immobilidade mental ás gerações mortas.

Vossa alteza chegou á maioridade; as cortes da nação prestaram-lhe

venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores,

antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a

mão em cada manhã, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chão, para

que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe

servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa

alteza é o herdeiro presumptivo do throno, é o regente do reino em nome

do rei, é o senhor de Guiné e da conquista, navegação, commercio da

Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia não é senhor de tomar

simplesmente um bilhete de ré no vapor da outra banda e de ir a

Cacilhas, sem licença previa de sua augusta mãe.

Todos os dias a augusta mãe de vossa alteza pede a nota das suas lições,

e, sempre que vossa-alteza não decorou inteiramente o seu verbo, a

excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto é, de ir á noite aos

Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada á cinta, como

quem vae preso para o calabouço.

Quando porém ha graves negócios pendentes da deliberação do poder

executivo, medidas excepcionaes de administração, tratado importante que

assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declarações

de guerra eminentes, então, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas

lições quer não, sua magestade a rainha não se oppõe a que vossa alteza

saia, porque vossa alteza é conselheiro d'estado desde os desoito annos,

e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza

tem por missão deslindal-os.

Se coincidentemente com um conflicto politico nas relações

internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa

alteza, então a pena disciplinar de reclusão por negligencia no estudo é

substituída pela privação de sobremeza, afim de que vossa alteza

corrigido como mau estudante, vá ao mesmo tempo salvar a pátria como bom

conselheiro.

Além de conselheiro d'estado, vossa alteza é alferes de lanceiros e é

segundo tenente da armada.

É summamente extranhavel--não o esconderemos--que honrando a carreira

das armas por meio da adopção d'essas duas patentes assumidas _in

absentia_, vossa alteza não honre egualmente as profissões liberaes,

dignando-se de assumir também algum diploma nas carreiras scientificas e

litterarias.

Não pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito

doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porém com

vantagem, segundo nos parece, começar por nomeal-o associado provincial

da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.

Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16.° anniversario

natalicio, teriam podido eleval-o á categoria de segundannista da

faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e

progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como é

alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia

muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado

em direito.

Não podemos tão pouco attingir as razões mysteriosas em virtude das

quaes vossa alteza não foi ainda nomeado capellão. Dados os hábitos de

devoção de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente

eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos

seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e

logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar

significados.

Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente á ideia comica de ser o

seu proprio capellão ... Vossa alteza é extremamente bom e amavel em

sorrir. Esperamos que vossa alteza terá egualmente o espírito

sufficiente e a malícia precisa para comprehender perfeitamente que não

é, em rigor, muito menos padre do que é tenente de si mesmo.

Tal é, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta cortezã, na qual o

obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar

livre dentro de uma estufa pôdre.

Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen

no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

Está succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os

reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem,

mas preferem o infortunio, porque o coração do homem aspira eternamente

á liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidão mas n'um esforço

constante, como vae a crescença da planta para a parte d'onde lhe vem a

luz.

Ora como nos não parece justo que para os povos se peça uma coisa, e aos

principes se offereça a coisa contraria, toda a nossa opinião ácerca da

educação de vossa alteza se resume n'isto:

Que o libertem!

Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, é

preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos

bastardos--sem pae e sem padrinho.

Os principes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos

homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos

camareiros e das aias, nunca sahiram senão doentes e pedantes.

Na sagração dos czares ha uma ceremonia de alta significação symholica:

o imperador não se confirma em quanto por tres vezes não haja descido do

throno e penetrado só na multidão; e isto quer dizer que na convivencia

do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tão sagrada

uncção como a da santa chrisma.

Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes

e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta annos é que mandou

chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a

educação de camara começou por fazer um poltrão. Aos quinze annos não se

atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua

unica força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de

um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por

aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar começou

por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir

a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como

official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também

não teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allemã

e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no

governo dos homens tiveram uma acção efficaz, e reconhecerá se é na

lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade

individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como

o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de

Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de

Washington, como o de Lincoln.

Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua

vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeição á direcção

inepta dos seus pedagogos e a reacção da sua vontade para uma educação

nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na

Suecia.

A próxima viagem é a occasião propria, é a única, para se tomar essa

resolução suprema. Vossa alteza tem até hoje vivido no carcere da

obediência. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como

um animal domesticado pelo snr Martens Ferrão e trabalhando á voz do snr

Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas não é mais do que uma nova lição

isso! a lição derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e

fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de

todas as outras lições funestas que lhe teem dado.

É preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma

vez para sempre, como principe, como rei, como cidadão e como homem,

para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para

cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia é o systema da

negação do caracter. O homem só é um homem desde o instante em que,

perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser

um rebelde. A obediencia é a fôrma forrada de cebo ou de manteiga em que

se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio,

porque se quebra ou porque se esborôa, a nobre personalidade humana.

Submisso á vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficará para sempre

um principe de fòrma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para

ornar uma pendula barata n'um salão chinfrin, ou para se pôr em cima de

um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma bòda labrega.

Vossa alteza preferirá de certo ser aquillo para que a simples natureza

o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo,

inrelligente e honrado.

Em presença pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaborões

officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a

fronteira, não tem senão um d'estes dois partidos que tomar relativamente

aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os á sua unica

e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.

Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas soluções.

A corrupção do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente

intentada, com resultados satisfactorios para a rasão e para a

humanidade.

Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a

educação do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens

de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo

elegante na Europa e para horror e escandalo da corte gêba e caturra dos

paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhôra marqueza de Niza, avó

do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha

sobre a educação do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que

affligem o coração amantíssimo da mãe de vossa alteza. Para dirigir a

educação do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos

Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais

veneravel dos monges toscanos. A presença austera do abalisado pedagogo,

a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no

escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento

singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito

encyclopedico e a sua extremada devoção, puseram em todos os velhos

parentes da família um sentimento profundo de respeito, de veneração e

de confiança illimitada.

Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercícios religiosos,

quando o monge depois de haver feito a sua lição de musica, tomava elle

mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos

estheticos, tocando por sua mão um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tão

viva e tão pungente, sob a vibração do seu arco magistral, a voz do

violino, que não só o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e

extranha commoção mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava,

docemente enternecida, subjugada pela expressão penetrante da melodia

que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade,

espargia em torno de si n'um lento soluço orvalhante de perolas.

Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por

meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua

mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para

Paris com o seu preceptor.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06) · 第 2 / 3 段