Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ...

[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora

5--PATEO DO ALJUBE--5

EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

AS FARPAS

_Chronica Mensal_

DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883

LISBOA

EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA

Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder,

da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das

sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da

politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande

universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON.

Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em

nome do rei.

SUMARIO

Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o

acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel

parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do

príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de

sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas

convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha

na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o

cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A

viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o

príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao

throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que

for servido.

LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

SENHOR!

E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos

traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.

O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia

garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o

Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de

usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em

que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente

do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey

nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.

Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos

deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio

da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado,

correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.

D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas

pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar

vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e

das coisas da civilisação entre gentes extranhas.

Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada

pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois

abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As

Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica

e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se

tratava.

Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando,

atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo,

quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para

encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento

presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que

vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa

acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação

remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar

dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques

debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa

alteza.

Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as

instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade

Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria

Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_,

quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume,

que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria

do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.

Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas

o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime.

Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do

trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos

pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os

Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As

academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão

nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as

pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes

oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo

com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:

--O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe

seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o

immortalisarem no eterno jubilo das gentes!

E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da

sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta

perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra

cathedralesca.

Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso

dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da

educação d'alguem que seja n'este mundo?

Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!

Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente

fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual

Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e

porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para

o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da

_Delphina do mal_.

Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se

achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se

lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...

Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!

Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa,

sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e

em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes

ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador

berrava:

--Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa

com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do

que os rapazes precisam para ir para leis!

Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem

religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho

d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de

Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira

do predio.

Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos

lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois

é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação

capaz.

Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a

mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher,

_que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!

E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou

enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente,

que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro

ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!

Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar

no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares;

mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro

das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito

de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de

magica no theatro de D. Maria.

Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles

pegaram n'uma questão d'arte?!...

Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual

reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção

d'arte com _quatro potes etruscos_.

Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira

parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram

por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa

presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças

familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde

muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.

Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes

exprimiram com unanimidade:

--Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!

--O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão

inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus

extrangeiros!...

--Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e

subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em

potes.

E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito

supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte

nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos,

nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual

a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra

de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por

quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns

dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas

antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo

que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe,

só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de

compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!

Tal é a camara, ó serenissimo principe!

E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia

corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S.

Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de

assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva

em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a

deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação

nacional é o boi gordo.

Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o

trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros

e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.

Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.

Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo,

considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso

foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com

prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em

portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de

instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e

applauso geral dos doutos.

Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.

Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros

e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo

que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_

presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade

geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados

e iam a ministros.

A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica

portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo

_odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres

entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.

De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o

entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola

pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.

A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da

sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos

fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a

amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.

Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa

alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o

primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos

desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e

muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus

illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam

com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje

de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.

De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario

publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados,

jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e

luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava

dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa.

Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.

_As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que

vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio

dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que

vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um

cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura

nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por

um simples phyloxera.

_As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de

flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem

luvas.

Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o

decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de

vossa alteza, se nós, seus criticos.

Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção

secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de

hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica

e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse

sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que

era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr

defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho,

pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na

Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a

explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim

o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.

Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os

dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe

acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio

pão.

Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem

ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema

nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o

estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu

mestre.

Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão,

do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a

educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica

Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos

bar-baças aposentados da magistratura e da academia.

Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os

pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da

natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre,

cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas

sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás

engommadeiras virtuosas.

Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About?

Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos

principes como o proprio livro de Machiavel.

Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a

tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha

agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo

da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro,

applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se

apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real

banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na

caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se

retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da

regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido,

mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de

gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural

affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e

metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o

vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar

os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava

escripturado.

Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se

ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos

duros encargos da publica governação espreitando um momento pela

fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza

Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo,

apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de

chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que

dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e

cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira

por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com

o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.

--Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz

acre.

--Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza

Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não

tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

--Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo

na testa e com os braços cruzados no peito.

Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,

enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com

as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das

orelhas, o rei disse-lhes:

--Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um

largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e

chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)

esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de

um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido

aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora

muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão

repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,

elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara

deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,

decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo

tres perus gordos e emborrachados!

Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito

pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se

lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos

_deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.

Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos

seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia,

que a pena ultima lhes seja commutada.

Piedade, principe, piedade!

Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As

Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio

de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a

sua familia, com a sua côrte?...

Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento

encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as

maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do

palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos

cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das

caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa

alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos

_louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?

Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha

cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da

rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e

de peixe frito?...

Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom

gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto

de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do

recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente

e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da

Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.

Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os

individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de

instrucção.

Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto

d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas

linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:

_Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite

ir extrangeiro principes, e se vae._

E recebemos a seguinte resposta:

_Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir

Collares burros, e não vou._

Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!

O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a

honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o

detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de

sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao

feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos

nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás

ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá

licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á

vontade, que o bebe por conta do lavrador.

Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!

Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse

major_.

Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os

derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira,

para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos

reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso,

sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos

dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o

abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando

chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.

Fomos vilmente preteridos--é certo--por esse cavalheiro ... Um chimico,

senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um

troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peçonhentos! Além

d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos

que não passam ás alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham

o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa

satisfação da curiosidade dos povos, se ha de ver forçado a exhibir á

avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain

d'epices_, a dois sous por cabeça. Elle, do alto de um estrado, dirá á

França:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis née à Marseille, j'ai

seise ans, je pèse 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_!

E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o ôlho ao povo, com

malicia, terá de acrescentar:

--_Il n'y a pas de coton là dedans, messieurs!_

Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...

E é este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que

ha que ver por esse mundo!

Um olheiro, de galochas de borracha na vista!

Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão

até metade do ventre, porque da outra metade até os pés principia para o

seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno

incognoscivel!

Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que não pretendemos

sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse

cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nós não temos que

dizer senão que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Não haja duvida

nenhuma que vae perfeito!

E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do

algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa e que,

quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no café

Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe

responda pela fórmula KO+2S0³, ou KO,2S0³, a qual fórmula não é

precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questão

alguma, a do bissulfato de potassa.

Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de

criticos nos impõe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza,

consideremos por um momento o estado presente da educação que vossa

alteza vae concluir na sua proxima viagem.

Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma

d'essa educação no seguinte quadro:

_«Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemão,

hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de

humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a

historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias

naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer

constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de

disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos

mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

Começou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido

para o estudo superior da philosophia do direito.

Em 1878 começou os estudos de philosophia racional e moral, e historia

systematica da philosophia.

Preparado assim, começou em seguida o estudo de direito natural ou da

philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico

interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto

antiga como moderna das instituições politicas da nação; organisação da

administração publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e

explicação do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

Estudo comparado das instituições politicas das principaes nações cultas

e analyse de seu systema eleitoral.

Parallelamente e em lições alternadas, sua alteza seguiu o estudo

sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base

a notavel obra «Le droit public et l'Europe moderne,» do Vicomte

Lagueronière.

Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a

organisação politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia

até a actualidade.

Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisação do reino de

Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os

grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo

pela excellente collecção dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a

Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados

d'alliança e de commercio de 1810; tratados da quadrupla alliança 1834;

tratados para a repressão do trafico de 1817 e 1822, e tratado de

commercio d'este mesmo anno.

Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente

ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, começou sua

alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma

introducção dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia

do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo

especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIÉ, _de Bluntschli, 1880._

Sua alteza está ainda cursando estas disciplinas.

Em maio de 1872, começou sua alteza conjuntamente com o estudo do

direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo

especialmente o_ TRAITÉ D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier

(1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema

fiduciario nas differentes nações, e dos caminhos de ferro e canaes,

como meios economicos.

Actualmente em seguimento á economia politica, estuda a sciencia de

fazenda segundo o_ TRAITÉ DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com

applicação á organisação de Portugal.

Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi

adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros,

continuará sua alteza finda que seja a sua viagem.

Com lições de duas horas, e com uma exacta applicação, o principe tem

podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

Assim educam os reis de Portugal os seus filhos.»

É claro que estas informações procedem directamente do paço. Tudo o

comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edições, a ordem

detalhada dos estudos, as horas de lição, etc. Estamos por tanto em

frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

Analysemol-o.

Vossa alteza é bastante moço ainda e bastante robusto para que o seu

cerebro haja resistido ás influencias d'esse regimen aniquiladôr de toda

a intelligencia.

Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que está

redigida esta exposição.

Para dizer uma coisa tão simples, o stylo do mestre de vossa alteza

rabeia na confusão mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a

pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Começou

pelo estudo aprofundado ... Depois começou os estudos de philosophia ...

Começou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o

estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto

não é escrever, isto é coçar-se. Quem não pode exprimir-se melhor é que

vae ter furunculos, e não deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, ás

escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual

fôr. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lerá, de resto, que

o fim da educação é preparar o homem para a mais perfeita felicidade

d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua

adaptação mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio

politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos

conhecimentos, ou á instrucção propriamente dita, a educação tem por

objecto fazer-nos conhecer as manifestações ou os phenomenos do

universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas

categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina

do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente

todos os phenomenos que a educação tem por fim submetter á nossa

investigação ás seis ordens seguintes:

1.--Os phenomenos da quantidade, da fórma, da extensão e do movimento,

ou phenomenos _mathematicos_.

2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensão, das suas

distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da

acustica, ou phenomenos _physicos_.

4.--Os phenomenos de combinação e de decomposição, ou phenomenos

_chimicos_.

5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos

_sociaes_.

Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlação de

dependencia successiva. De sorte que se não podem conhecer os phenomenos

da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; não se podem conhecer as da 5.ª

sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

Não se aprende a astronomia e a physica terrestre sem noções

mathematicas. Não ha chimica sem uma constituição anterior da physica.

Não ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da

synthese chimica. Não ha finalmente facto social que se defina

scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que

nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias

fundamentaes.

Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe é privativo

e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.

Assim o methodo das mathematicas é o do _raciocinio_ por deducção; o da

astronomia é a _observação_; o da physica é a _experiencia_; o da

chimica é a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou

biologia applicada ao homem, é a _comparação_; o da sociologia é a

_observação critica_ e a _filiação historica_.

A enunciação d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a

Augusto Comte; e esta é a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da

mentalidade humana que ninguem até hoje discutiu nem contestou nas

grandes linhas geraes. Esta methodisação é tão clara, tão consistente e

tão fecunda, que não ha hoje systematisador que a não adopte como a mais

segura das chaves para a coordenação das ideias.

Emquanto á applicação d'este principio á educação diz Spencer:

«Que na educação se deve proceder do simples para o composto é uma

verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito

desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do

homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educação é a

contraposição objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma

progressão. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior

do que á primeira vista parece; porque o seu principio implica não

sómente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de

cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com

relação ao conhecimento total. Como o espirito não começa por dispôr

senão d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades

desenvolvidas mais tarde entram successivamente em acção até chegarem a

funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino não deve abraçar

primeiro senão um pequeno numero d'objectos, successivamente

accrescentados até que se comprehendam todos. Não é sómente na

especialidade que a educação deve proceder do simples para o composto, é

tambem no conjuncto.»

Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos

modernos, que a educação da creança deve concordar no modo adoptado e na

ordem seguida com a educação da humanidade considerada historicamente. A

genese da sciencia no individuo não póde seguir uma marcha differente da

genese da sciencia na raça. E n'este ponto Spencer invoca o nome de

Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem

positivista dos estudos corresponde exactamente á evolução dos

conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos

cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender ás leis

biographicas e á vida historica da especie.

Vejamos agora á luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza

regularam a distribuição dos conhecimentos que foram incumbidos de

ministrar-lhe.

_Sua alteza_--diz a informação que analysamos--_começou pelo estudo

aprofundado da philosophia_.

Esta simples proposição inicial basta pelo seu profundo alcance

pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente

tragica que presidiu á educação intellectual de vossa alteza.

Principiar pela philosophia!!

Mas a philosophia é precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a

um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo

dogmatismo dos mestres.

O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo

espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos

phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos

prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino

do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?

Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de

instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis

correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem

sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na

abstracção psychologica de fim e de origem?

O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino

é--como já vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos

particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de

applicação.

Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o

conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos

factos particulares?

Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão

extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura

sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos

numeros?...

É a _instauratio magna_ de Baccon? É o scepticismo systematico de

Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke

ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o

scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É

o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o

idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de

Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de

Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o

evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?

A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á

redacção do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a

esta cruel duvida.

Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu

é a _philosophia racional e moral_.

Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a

negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia

_objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, dá a perceber d'esse modo

que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_,

mas que não é d'essas que se trata.

Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é _racional e moral_ a

philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma

philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. É

triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa

que se converterá n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de

_desmoralisação_ desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de

virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

O programma que tem regulado a instrucção de vossa alteza accrescenta

que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direcção do estudo

superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado começou em

seguida o estudo do direito natural_.

Perante uma tão espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos

os livros de «direcção philosophica» desde a mais remota antiguidade até

os nossos dias.

Interrogamos avidamente as tradições egypcias do tempo das dynastias

pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil

annos á era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual

funerario_ e do _Livro dos mortos_.

Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaço

da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se

deslinda para a especulação philosophica dos mythos e dos emblemas

indecentes das religiões e das liturgias phallicas da Chaldea e da

Syria.

Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mão nervosa e ligeira tudo

quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a mercê de nos communicar a

respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platão,

Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os

escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os

epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os

materialistas, e todos os atheus, sem excepção d'um só, desde os

_Dialogos da Natureza_ do seculo XVII até o nosso moderno _Trinta_,

comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos,

desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa,

até um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir á missa ha mais de um

anno, para não se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

Pois bem: ao cabo de tão laboriosas excavações eruditas e de tão vastas

investigações historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra,

a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradições, nem nos livros

sabios, nem na conversação viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que

mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma

philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_,

como aquella de que tão gloriosamente se trata no quadro dos

conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do

preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, é a

reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera

philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar

ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se

deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

Além da gente anonyma e desconhecida que com mão mysteriosa taberneia em

Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje

em dia que todo o Direito é um producto da civilisação, e nunca uma

manifestação ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares não se

conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo

as concepções intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas

sociedades. E d'ahi vem que o Direito é eterno. É eterno precisamente

porque é progressivo, como é progressiva a moral e a arte, e não porque

seja um ideal innato á natureza do homem.

O erro da velha denominação de _Direito Natural_ procedia de que os

philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fé a consideravam

recta e justa. Mas Darwin veio. Desde então ficou demonstrado que, pelos

processos porque ella opera na formação dos aggregados humanos, a

natureza é immoral e é iniqua.

A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes

agentes: a _luta pela vida_ e a _selecção natural_. A luta pela vida é o

estado permanente de todos os seres, para os quaes a creação é uma

eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a selecção natural. Como?

Fixando na especie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e

expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: «A

theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas

sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem

os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes.»

Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente

o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais

equitativa distribuição dos bens.

O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma

reacção contra essa lei.

A natureza é o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade é a

protecção consciente assegurada ao fraco. A creação funda _a luta pela

vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

Uma civilisação é tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu

dominio as fatalidades naturaes. E é assim que o homem, de conquista em

conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraizo futuro, ao

paraizo terreal, d'onde não veio mas para onde vae, e que não é um dom

divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

Todo aquelle que, no meio d'este esforço compacto da intelligencia de

cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os

seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_,

está por esse facto fóra da civilisação e fóra da humanidade.

Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de

vossa alteza, poderiamos perguntar como é possivel ensinar todo o

direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os

grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a

_nação_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

Poderiamos perguntar ainda quem é que assume a responsabilidade de

ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_

antes de se haverem recusado a exercer essa funcção os individuos

idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou

no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr

Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

Poderiamos perguntar mais, se a lingoa não será em uma nacionalidade um

facto tão importante, pelo menos, como o direito, e se é permittido que,

no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se não diga uma só

palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios

das tradições historicas e das tradições poeticas da sua patria.

Poderiamos perguntar, finalmente, como é que a _Economia politica_, a

qual Mac Culloch tão concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia

economica é a sciencia dos valores_, se póde ensinar a um menino de

redoma, sem noção alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o

conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como são a mechanica,

a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as

industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas

transformações, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram

de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme

do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que é o

milho, do que é o trigo, do que é o arroz, do que é o assucar, do que é

o algodão, do que é a lã, do que é o carvão, do que é o ferro; de um

menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma

fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno,

uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de

vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de

todas as transformações industriaes, que se chama o obreiro; um menino

emfim que nunca sahiu só, e que a sua mãe nunca levou ás compras, á

tenda, ao talho ou á feira; e que, sabendo todos os direitos que

ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e

internacionaes,--só não sabe ainda como se faz o pão que come e o vinho

que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o

kilo da carne ou o litro do azeite!

Nós porém não pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre

é irresponsavel, pela boa razão de que o mestre é nullo na direcção

intellectual do homem.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06) · 第 1 / 3 段