Saíram para a praça, repleta de gente.
Não queriam voltar para as freguesias ruraes, sem saberem a decisão,
os _homens do monte_, as mulheres com o cabello de risca ao meio a
luzir de unto, saia pela cabeça, entufadas de saias sobre saias, os
pés metidos em galochas de cedro, com pálas de coiro verde, avivadas a
vermelho, luzentes de ilhós, cravejadas de pregos de aço.
Nos grupos da gente da cidade graves artistas independentes,
carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, marceneiros, alfaiates,
trabalhando na propria casa, e para si, auxiliados pelos filhos, ou
por apprendizes e officiaes, que sentavam á sua meza.
Esperavam n'um grande ar de solemnidade, orgulhosos dos capotes de bom
panno azul ou castanho, presos por fechos trabalhados de latão ou de
prata.
Commerciantes de chapeu alto, grande casaca, no rigor do trajo
constitucional, ostentando bigodes, afadigavam-se por entre os grupos
de artifices e camponezes, achando todo o apoio n'aquelles, e n'estes
uma desconfiança hostil.
Sentia nas novas leis o seu advento a burguesia liberal, e defrontava
por toda a parte o fidalgo e o convento, senhores da terra, parasitas
do trabalho, e queria oppor aos monopolios a liberdade commercial.
Mulheres do povo, de capote berneo, n'uma explosão de escarlate;
burguesas e fidalgas de manto negro, reunidas em pequenos grupos,
parentas, amigas; viravam incessantes os biôcos mal saía uma pessoa da
camara, e atravessava a praça illaqueada pela anciedade da decisão.
A dentro dos capotes e dos mantos, por sob as pregas apparentemente
uniformes, adivinhavam-se no esguio, no flexivel da cintura, no
irrequieto do bico de passaro, no adejar de vôo dos largos pannos, as
noivas do batalhão, as apaixonadas d'essa juventude que, no prestigio
da farda, na vivacidade de lisboetas, no seu falar cantado, endoidecia
as raparigas, com grave ciume dos patricios offuscados.
Reconhecia-se o abandono das quarentonas sem futuro, gordanchudas,
afogadas em seios já inuteis, semeadas por entre os grupos como
escolhos, em torno dos quaes esvoaçavam os bandos de garças.
Havia vendedeiras de capello deitado para traz, suffocadas pelo calor
e pelo medo de perderem o rosario de dividas deixadas pelas tropas ao
levantarem campo.
Tapavam rebuços os rostos lacrimosos das namoradas e amantes dos
soldados, dos officiaes e dos sargentos; mas carpiam-se, por todas as
saudosas, as _mulheres da Rocha_, lenço de seda na cuia, chaile
terçado, rosetas de vermelhão nas faces, labios pintados,
arrepelando-se, bradando contra a saída d'esses divertidos rapazes,
cujas guitarras trinavam melhor que as enfadonhas violas de arame da
terra, d'esses bons fregueses, tão generosos e tão pandegos.
Capitaneado pela Joaquinina do Ó, estava o rancho das beatas encoberto
com o canto da rua da Sé.
De atalaya á botica, destacava alviçareiras para o convento dos
franciscanos; era um constante borboletear de mantos pela ladeira de
São Francisco, e as que voltavam falavam ás que iam, encostando n'um
tremelicar nervoso os biôcos, como antenas de formigas.
Traziam medalhas com o retrato de D. Miguel, bentas pelos frades, e
que elles proprios lhes tinham posto ao peito, para ostentarem
victoriosamente, mal houvesse a certeza de que retiravam os caçadores.
Á apparição do boticario, afadigou-se nova emissaria ladeira acima, e
foi adejando o enxame atraz do velho e de João, seguindo-os por entre
os grupos até junto da escada de pedra, que subia exteriormente á
fachada do edificio, encimado pela torre do sino onde se tocava a
recolher.
Para os lados da rua do Gallo reunia-se o grupo dos mais influentes
constitucionaes, que não tinham assento no conselho.
Por vezes distrahia a espectativa o borborinho, gritos, risadas,
vindas dos arcos da cadeia.
Davam para as arcadas que sustentavam a varanda de pedra da fachada,
as janellas das enxovias, onde havia cestos arvorados em canas, como
apparelhos de pesca armados á compaixão.
Ia a gente do monte agarrar-se ás grades, uns a comprarem pentes e
grosas de botões de chifre, enfiados em agulhas de feno; outros a
mirarem com olhos compassivos a nudez da prisão, a bilha de agua, o
immundo boião dos dejectos, a tarimba de madeira onde se mantinha
acocorado o _Marmanjão_, meditabundo, envolto em pedaços de colcha
esfarrapada, offendido por essa profanadora curiosidade, elle, o
santinho, como lhe chamavam os frades que o tinham de olho para
carrasco; muito temente a Deus, notavel pela frequencia com que se
confessava e commungava, e indigitado para a nobre missão de executor
pela limpeza com que em S. Bartholomeu demolira com uma só paulada o
homemzarrão de um vizinho.
Regateava em voz fanhosa gaiolas de cana com melros pretos de bico
amarelo, grandes cantores, o _Mujinha_, baixo, olhinhos de bisnau,
pondo um traço de intrigante na cara rugosa; gatuno, fachina da cadeia
e afilhado de chrisma do carcereiro que lhe levava caridosamente á
porta as gaiolas, em ademanes de sacristão.
Com a pronunciada queda commercial d'esse, contrastava a do seu
visinho de janela, o _Zica_, muito correcto e limpo, cantarolando á
moda da ilha de S. Miguel, vendendo pentes de baleia, cumprindo
resignado a pena imposta por uma desforra tirada á má cara, n'uma
noitada de vinho.
Este era constitucional, e arvoráva sempre, provocadoramente, as guias
do grande bigode, sem sequer as deitar abaixo, apesar das denuncias do
santarrão pretendente a carrasco, e das intrigas do gaioleiro, durante
o tempo em que a ilha acatára a usurpação.
Logo na grade contigua outro miguelista, o _Roseiro_, um velhinho sem
dentes, deprimido como uma fava escoada, alegrava os curiosos com
inexgotaveis historias de toiradas, em que era uma auctoridade, e
recebia em troca pedaços de pão de milho, e algum grande pataco com a
effigie do senhor D. João VI, em premio á fidelidade e á coragem com
que descrevia o «senhor D. Miguel» rejoneando toiros desembolados, e o
seu confessor, fr. José da Rocha, saltando á praça e pegando á unha.
Apoiado aos fortes varões que de seculos de afflictivas despedidas
tinham as quinas amolgadas, como que derretidas pela ardencia em que
se lhes crispavam as mãos dos desgraçados, falava com a familia e os
visinhos do Raminho, um camponez alto, magro, rosto ossudo, enorme
nariz, gago, dentes pôdres, grandes pés descalços espalmados, por
alcunha o _Lindinho_, condemnado por morte d'homem ás Pedras Negras.
Contava com esse a fradaria para ajudante de carrasco, pois a faina
promettia, e só lamentava que não houvesse n'elle a necessaria uncção
do _Marmanjão_, e que ambos, apesar de já afeitos, não tivessem a
comprovada pericia de carrasco de officio, nem o aspecto, que só por
si fazia chorar as creanças, obrigadas por lei a presencearem as
execuções, de um celebre preto a quem fôra commutada em prisão
perpetua a pena de morte, para fazer pernear condemnados na forca, de
saco pela cabeça, ante a bandeira da misericordia.
Que falta lhes fazia ali, para a restauração do governo do throno e do
altar, um patriota como o _Cambaças_, que se offerecera para enforcar
os liberaes; ou um preso como o _Fitas_, ladrão celebre, grande
partidista de D. Miguel; que até os ladrões eram por el-rei contra a
immunda canalha jacobina!
Sentado de lado, contra a grade, sem encarar os ouvintes, o
_Ferrabrás_, faquista, contava historias, que não provocavam
gargalhadas como as do _Roseiro_. Eram de bruxas, de almas do outro
mundo, e o olhar em extasis, e a barba inculta na cara descarnada,
impressionavam, tornando mais horrorosas as apparições de phantasmas
de incorrigiveis constitucionaes, como o illustre general Araujo, o
_diabo_, assassinado pelos reaccionarios, com repiques e illuminações
das freiras de S. Gonçalo, e que ao bater da ultima badalada da meia
noite arrastava correntes pelo Caminho Novo, vendo-se-lhe pelas costas
abertas o fogo do inferno que o consummia.
Abaladas pelos medonhos pavores caiam mulheres com faniquitos, e então
descia uma ordenança tinindo ferros, a prohibir os choros de uns e as
berratas torreiras de outros.
Puxava o carcereiro os presos para dentro, n'um ar compungido, mas
severo; obediente ás ordens, mas doendo-se da sua execução; injuriando
os renitentes entre abundancias de «valha-me Deus»; e só não levava o
seu rigor ao ponto de fechar as janelas, porque não tinham portas,
bastando á justiça o gradeamento para que não fugissem os presos, e
convindo-lhe que a chuva molhasse o lagedo, afim de que ao saírem os
condemnados, expiada a pena, se tornasse mais salutar o seu exemplo
por irem tolhidos para o trabalho.
Cumprida a ordem, ia entregar-se Benicio ao formal desempenho da sua
missão de chaveiro, vigiar a porta chapeada de ferro; e sentava-se
junto d'ella a untar de azeite as chaves do postigo, dos cadeados, do
segredo, do alçapão por onde se despejava cal para aplacar as
desordens, fechando por calculo os olhos ao negocio e os ouvidos ao
falatorio, para que «os pobres de Christo», coitados, podessem fazer o
seu vintem, tanta gente juntára o Senhor n'aquella praça; que elles
afinal não eram maus rapazes no seu fadario, «valha-os Deus», são
sortes, e até no fundo eram generosos, recompensando-lhe a caridade
com que os deixava fazer pela vida.
Voltavam os presos pouco a pouco ás grades, metia-se á formiga o
povoleu pelas arcarias, e recomeçava a cantilena do «eu te requeiro da
parte de Deus e da Virgem Maria», efficaz para desembruxar almas
penadas; o pittoresco do «e vae o senhor D. Miguel ferra-lhe com o
rojão mesmo no sitio»; a «Chamarrita, chamarrita, chamarrita, chama
Rosa» das cantigas do baleeiro; e a giria commercial do _Mujinha_ «Ó
meu rico freguez, perco n'esta gaiola metade do que dei ao homem que
me foi apanhar os caniços», o chamariz com que ganhava perdendo
sempre.
N'aquella mesma praça, com essa mesma gente, recordava João, fôra
celebrado ha dois mezes, em 22 de junho, o triumpho da liberdade e da
Carta, a revolução liberal do Porto de 18 de maio.
Agora, em vez da alegria d'essa manifestação, o receio de que tudo se
desfizesse n'um momento. Estremeceu ao lembrar-se como então, de
subito, ficára o chão regado de sangue do povo, no tumulto provocado
pela malvadez de um padre, e em que a cobardia da soldadesca,
disparando para intimidar, matara quatro indefesos homens.
Mas tranquilisou-se observando melhor. Não se via nem padres nem
soldados: não havia perigo.
Fez a impaciencia de Juvencio extravasar a dos mais.
Se por si só o conselho não tinha força para demover o commandante,
era tempo de intervirem.
Acharam-lhe razão, e do grupo separou-se logo, sem dizer palavra,
Cypriano da Costa Pessoa, um negociante alquebrado pela doença e pela
edade.
Subiu alguns degraus da escada de pedra, amparou-se ao corrimão, e
voltando-se para o povo descobriu a cabeça embranqueçida e dispoz-se a
falar:
«Concidadãos!»
Custou a fazer silencio e, apesar de restabelecida a ordem nos grupos
mais proximos, ainda da arcada dos carceres, de onde se não via o
orador, vinham echos desencontrados, provocando um sussurro de
protesto.
«Concidadãos!»
E a voz cava de Cypriano repetiu a invocação, procurando o volume
preciso para se fazer ouvir até ao extremo.
Que queria ali aquelle homem?
Cravavam-lhe olhos esbugalhados os camponezes, pasmados de que alguem
se atrevesse a levantar a voz em publico, sem ser um clerigo, sem ter
que contar milagres de santos.
N'um grande esforço, conseguira o orador fazer retumbar até ao canto
da praça, onde costumavam juntar-se os mariólas, como um grito de
alarme:
«Nas actuaes circumstancias mais vale morrer com as armas na mão do
que soffrer os insultos dos satélites do usurpador!»
A convicção das suas palavras fez estremecer os proprios que
estranhavam esse secular imitando padres, fazendo pulpito da escadaria
municipal.
Continuava trovejando a voz de Cypriano, modelada pela entoação dos
prégadores, pois não tivera a lição civica da oratoria constitucional.
N'um fremito de terror echoava aos ouvintes a ameaça, correspondente á
absoluta verdade:
«Não tardará o massacre de quantos liberaes elles puderem colher ás
mãos!»
Ante os olhos apavorados dos que se viam, d'um momento para o outro,
sob a alçada do carrasco, passava o rosario de crimes absolutistas, as
perseguições de Stokler ali na ilha, a prisão e deportação dos
deputados ás côrtes constitucionaes, a captura em massa operada
pessoalmente por D. Miguel, de aguilhada em punho, os nove estudantes
enforcados no Caes do Tojo, as covas abertas em Portalegre á porta dos
liberaes, a tortura de Renduffe, o envenenamento de D. João VI, o
assassinio de Loulé.
Iam ficar sujeitos a taes horrores se caçadores 5 abandonasse a ilha.
E nas faces consternadas reappareceram as lagrimas.
Mas nem Cypriano da Costa, nem os liberaes do seu grupo se mostravam
desanimados.
Cheios de fé, queriam luctar e appellavam para o auxilio de todos.
Por essa praça, tão divertida em tardes de toiros e cavalhadas,
resoava a mesma voz grave, sentida:
«Para desviar este mal tão imminente, poupar a nós e a nossas
familias, amigos e parentes, convém que já, já, os amantes da patria e
da boa ordem vão offerecer-se ao governo, alistando-se voluntariamente
para servirem debaixo das armas!»
Ficou abalada a concorrencia, e a ideia emittida do alto agitou por
camadas a turba, enthusiasmou os liberaes mais proximos, perturbou os
mestres de officios, entonteceu as cabecinhas de capuz escarlate,
revoluteiou as dos amplos capellos, e por fim saccudiu em tardas
negativas os barretinhos de borla, de malha amarela e vermelha, e as
carapucinhas de panno preto, em forma de tijela, talhadas em quartos
como barretes de clerigo, dos camponios.
Insistiu no convite:
«N'esse momento, e desde já, não cuidava mais de outros negocios, nem
entendia haver occasião mais conveniente de prestar melhor serviço á
sua patria e a tantas familias,»--e aqui a voz vibrava vergastadas--«sob
pena de serem considerados como pusilanimes e ingratos!»
Só lhe restavam forças para offerecer o exemplo do seu sacrificio:
«Emfim, não ha tempo a perder! Todos os que quizerem seguir tão brioso
partido que me sigam a mim!»
Agitando o chapeu, abrangendo a praça n'um olhar de convite, subiu com
firmeza as escadas, até ao alto da varanda de pedra.
Foi Juvencio o primeiro a seguil-o, agitando o chapeu alto e erguendo
vivas á Carta e a D. Pedro.
Responderam acclamações, agitou-se a praça inteira, e á medida que se
aplacou o vozear, perceberam-se gritos, brados de afflicção.
Das janelas por cima da botica, adivinhando-lhe a intenção, gritavam
as filhas de Juvencio, mas elle, na embriaguez do rasgo, continuava a
subir.
Arrancando-se aos braços de mulheres que se estorcem, debatem-se
homens enthusiasmados, olhos fitos nos voluntarios que, do alto da
varanda, agradecem as palmas e saudações.
E correm por fim, vencendo a resistencia das que choram desgrenhadas,
indo sacrificar-se para lhes pouparem mais amargas lagrimas.
São já quarenta, dos mais distinctos, os voluntarios, mal cabendo na
varanda de pedra, e João encontra-se entre elles, sem ter raciocinado,
sem se lembrar das velhas, do estudo, nem da ida para Coimbra, na
impulsão geral, na ancia de defender a liberdade, na ambição de
apparecer aos olhos de Maria como um homem, aos de Jorge e do frade
como um altivo adversario, aos do morgado como um convicto de que é
egual a elle, e de que vae affirmar, com risco da propria vida, o
direito a erguer os olhos para as pompas do seu brazão.
No impeto em que se haviam manifestado, logo outro negociante, João
Antonio Bacellar, entrou á frente dos companheiros na sala do conselho
e, offerecendo o serviço voluntario de todos, falou em termos taes que
obrigou o governo a declarar mantidos os principios de legalidade
contra a usurpação de D. Miguel.
Manifestaram-se no mesmo sentido o secretario da junta Manuel Joaquim
Nogueira, o tenente Lobão, o doutor Antonio da Silveira e Theotonio de
Ornellas que, no enthusiasmo pela obra de 22 de junho, para que tanto
concorrera, chegou a precipitar-se de espada em punho contra o juiz
Calheiros, contrario ao movimento.
Accede por fim a correr a sorte da ilha o commandante do batalhão, e
na emoção d'essa boa nova o ajudante de ordens vem agradecer e
acceitar, em nome do governo, a offerta dos terceirenses, que ficam
constituindo a companhia de voluntarios reaes, sob o commando do
capitão de milicianos Theotonio de Ornellas, devendo eleger entre si
os outros officiaes.
Então saem todos para, como em 22 de junho, irem ao castello. No
desafogo do perigo afastado sauda o povo o governo e os voluntarios. O
velho dr. João José da Cunha Ferraz, provisor do bispado,
thesoureiro-mór da Sé, e presidente do cabido, o melhor advogado da
ilha, palpita, apesar dos setenta e tantos, no delirio da juventude, e
vae atirando o barrete ao ar e correspondendo aos vivas na voz
tremula, emperrada pela gaguez.
Arrebanham-se as beatas, corridas, pela ladeira de S. Francisco,
atravancando-a, alastram pela escadaria do adro, e somem-se pelas tres
grandes portas da egreja do convento, ávidas de consolarem as almas
tão opprimidas, com os exercicios espirituaes dos santos frades, que
não deixarão, decerto, de dar-lhes o prazer de um retumbante sermão de
desabafo, de protesto ao ceu, e de algum desaggravo lithurgico á
affronta feita áquella hora ao seu querido rei, essa encarnação do
archanjo S. Miguel.
E ali dentro, na protecção do templo, poderiam ostentar as medalhas
dos retratos, em que o rosto do rei apparecia córado, n'uma
vermelhidão de sangue, ostentando-o sem medo nos abundantes peitos de
amas de clerigos.
Seguiam triumphantes o cortejo as que choravam pelos militares, mas
tanta gente corria ás adufas e acudia ás portas, que o novo bando,
escarlate e negro, escoava-se pela rua de S. João, para se adiantar
pela rua da Rosa, Quatro Cantos e Bôa Nova, indo esperal-o ás alturas
do Relvão, aonde já a curiosidade não macularia de suspeitas o seu
enthusiasmo.
Assentadas no muro do campo de manobras da fortaleza, entre esse mar
de relva requeimado do sol, onde a primavera semeia papoulas,
borboletas e malmequeres; em face á viçosa explanada que, com as
baterias e banquetas, mascara os caminhos cobertos e os fossos;
deitaram para traz os capellos, offegantes da correria, n'uma
exposição de lindas caras que confirmava aos militares o credito de
invenciveis nas mais frequentes das suas campanhas.
Transfundira-se na mais pura raça portuguesa do seculo XV o sangue
flamengo que dera o typo esbelto, a frescura de tez, a transparencia
do olhar ás delicadas louras; dotára-a o Brasil da exhuberancia
dolente das creoulas, cabello de azeviche, dentes miudinhos, fundas
olheiras; trouxera-lhe a dominação hespanhola o galante requebro da
andaluza e o preto dos seus olhos seductores; e o dos hebreus fugidos
déra, á sadia carnação das morenas, olhos apaixonados de judia onde
esvoaça a nuvem da saudade.
Amando-as olvidaram emigrados penas do exilio, e finda a guerra
voltaram, a tornar definitiva a patria em que os adoptara a meiga
ternura.
Ouvia-se já perto o vivorio; vinha passando o cortejo por baixo das
gelosias do convento de S. Gonçalo, de onde as freiras constitucionaes
acenavam com lenços, gritando no falsete do côro: «Ou Constituição ou
morte!», transportadas pelo fremito de liberdade, acclamando os que
haviam de arrancal-as a essas grades, profanadoras da sua virgindade,
asphyxiantes da sua juventude, e restituil-as á vida, ao amor a que
tinham sido sequestradas.
Mal as raparigas casadoiras avistaram lenços de côres de mulheres do
fado voejando entre o povo, escabrearam ladeira acima, para entrarem
pelo portão dos carros, seguidas a custo pelas mães e tias que as
pastoreavam, lingua de fóra.
Já dominavam a praça do castello, da rua que dá para as baterias,
quando resoou na tropeada a ponte de pedra, por sobre o fosso.
Sentiu-se ranger a ponte levadiça, nos seus engenhos de correntes e
contrapesos de pedra, ao echoarem as passadas na madeira; retiniu
n'uma brilhante extensão de voz um alegre brado de «ás armas»; e sob o
abobadado das portas bateram as pancadas seccas das bandoleiras ao
apresentar armas.
Nos quarteis vibravam toques de corneta, vozes de commando: Caçadores
cinco que reunia na sua parada, e avançou depois até á praça do
castello.
Atraz das companhias vinha de dentro, com ranchadas de filhos, outro
grupo de mulheres que as lindas raparigas e as gastas rameiras olhavam
com respeito e compaixão.
Ficaram-se entre a egreja e o palacio as companheiras do batalhão,
fieis como cães, inconscientes no perigo como os soldados, firmes como
se as sujeitasse a mesma disciplina; lavadeiras das esquadras,
mulheres ou amantes de soldados, seguindo como vivandeiras a tropa;
lisboetas baixinhas, pescoço curto, sombras de buço, de uma viva
petulancia no lenço engomado, em pontas, que usavam na cabeça, com o
capote, com grave offensa dos capellos ilheus; airosas varinas, leves,
saia curta, pé descalço, collete affirmando-lhe o busto e
erguendo-lhe o seio, chapeu de velludo, coração de ouro e grandes
argolas.
Tinham atada a minguada roupa, promptas a partirem, como as escunas
inglezas que por baixo das muralhas se baloiçavam nas ancoras, sem um
protesto, como ao virem por mar com os seus degredados; na mesma
firmeza de outras bravas mulheres, que de trouxa á cabeça acompanharam
pela Galliza a divisão emigrada, e de lá seguiram com ella para as
miserias de Inglaterra.
Desembrulhavam os trapos ao tempo em que os navios, desimpedidos, se
abarrotavam de caixas de laranja, e agora desabafavam contra «o
Miguel», em gestos de regateiras, em palavradas de tarimba.
Formára Theotonio d'Ornellas a companhia de voluntarios á esquerda dos
caçadores, e João, que ficara entre Juvencio e o seu professor de
latinidade, aprumava-se como um verdadeiro soldado.
Da escadaria do palacio do governador do castello, que servira de
prisão a Affonso VI, discursou o secretario do governo affirmando a
deliberação de se manter a causa.
Respondeu-lhe o major Quintino Dias declarando-se, elle e todo o
batalhão, dispostos a «derramarem a ultima gota de sangue».
Avançou a bandeira até á frente dos Reaes Voluntarios, e estes,
estendendo a mão direita, juraram «guardar e fazer guardar a
constituição politica da monarchia portugueza».
Tocou a banda o hymno constitucional composto pelo imperador em 21,
ergueram-se os vivas da praxe á Santa Religião, á Carta, e a D. Pedro,
e n'essa fraternisação de povo e tropa, gente da terra e de fóra, viu
João estabelecer-se a unidade do sentimento nacional na aspiração de
liberdade, e sentiu-se para sempre ligado ao destino da causa, até ao
triumpho da nova ideia, ou até á morte pelo ideal.
Dissipara-se-lhe, como a todos, o terror de pela manhã.
Tinham trepidado alguns, mas eram bem melhores do que os fugidos no
_Belfast_.
Havia uma consciente decisão n'aquelles dos militares que sempre
tinham querido ficar, communicando-se agora aos que a fraqueza
dominára por um momento.
Só a aspiração liberal reunia todas as classes da nação.
Estavam ali, ao abrigo das muralhas, ligando-se nos mesmos protestos,
a nobreza, o clero, a burguezia, o operariado; profissionaes da guerra
como os officiaes, os sargentos e os velhos soldados readmittidos;
populares trazidos á força para a fileira pelo «Joaquim agarrador»;
antigos voluntarios alistados em 23, ao perigar a causa liberal; os
que se offereciam agora; e todos, fardados e á paisana, e os proprios
que ainda não se tinham deixado arrastar, formavam uma phalange,
invencivel porque era realmente a nação armada, e offereciam-se ao
sacrificio no momento em que bordejava contra elles uma forte
esquadra, com o bojo cheio de juizes, de carrascos e de forcas!
V
Já reconciliadas do arrufo, debruçaram-se as primas no mirante da
quinta dos Folhadaes, devorando com os olhos o caminho da cidade.
--E nunca mais cá veiu?--perguntava Josepha da Esperança.
--Nunca mais. Como se tornou esse rapaz! Tão orgulhoso como se fosse
fidalgo, tão brioso como nós!
--É o que elles dizem, que valem tanto como os nobres, que somos todos
eguaes. Que te parece, prima?
--Não percebo nem quero perceber d'isso. É bom para as caturreiras de
fr. Angelico e do pae.
--Que elle é melhor que o primo Jorge, lá isso é que é.
--Achas?
--Está feito um homem. Diz coisas graves como nenhum dos nossos primos
seria capaz.
--Deu-lhe para tomar a serio o que não devia passar de uma
brincadeira.
--Mas tu não desgostavas d'elle.
--Não desgostava, não.
--É muito sympathico.
--É um bonito rapaz, confesso.
--Aquelle lindo buçosinho... E a covinha do queixo, e as das faces,
quando se ri. É um amôr!
--Engraças muito com elle.
--Não fiques com ciumes.
--Eu? Toma-o para ti, que t'o agradeço.
--Isso agradecias tu. Não gosto de sobejos, mas lá por falta de mulher
não deixa elle de casar.
--Como tu és! E o primo?
--Não lhe chega aos calcanhares.
--Olha, o teu genio é que eu nunca hei de comprehender.
--Então, filha, são feitios. Cada um é como Nosso Senhor o fez. Mas ao
menos eu confesso a minha fraqueza, gosto muito, muito, de um bonito
rapaz, e não quero meter-me a freira. E as que dizem que lhe atiram
com pedras, estão pregadas nos mirantes a vigial-os...
--Já lhe disse, prima, que não quero o João para namorado.
--Mas para que passa agora todas as tardes aqui, de alcateia...
--É que me irrita o procedimento d'elle. Dito e feito! Que nunca mais
vinha, e nunca mais appareceu.
--E isso dá-lhe pena?
--Não. Mas exaspera-me pelo seu atrevimento. Queria vêl-o mais uma
vez, descompol-o muito, dar-lhe muita bofetada, muita bofetada,
puchar-lhe pelas orelhas, e depois dizer-lhe: «Põe-te fóra, fedelho, e
vê lá para quem te atreves a levantar os olhos».
--Pois caiste, prima, e não foi sem tempo. Já não pódes passar sem
elle.
--Não me diga isso, que até me mete raiva.
--Essas furias já passaram por mim.
--A prima é muito experiente.
--Pois sou, e por isso sinto que lhe estás nas mãos, ou nunca mais
pensavas nas suas palavras.
Maria não lhe respondeu, e continuou a observar a estrada, na
irritação em que ficára desde a saída de João.
N'uma crise nervosa passára os primeiros dias fechada no quarto, sem
vêr ninguem, depois fatigara-se em pertinazes passeios ao longo das
varandas de pedra, para cá e para lá, olhos fitos na direcção que elle
costumava trazer.
Abandonada pelo pae, sem intimidade com a mãe, que passava o tempo na
cozinha fazendo doces, ou em exercicios espirituaes com fr. Angelico,
vira-se forçada a mandar chamar a prima Josepha, para ter com quem
desabafar.
E apezar do que ella lhe dizia, não cuidava amar João. Nutria contra
elle, ao contrario, um sentimento de hostilidade, de revolta. Sentia
uma insurreição de todo o seu ser contra essa creança que de repente,
sem lh'o ter deixado suspeitar, entendera dispôr absolutamente do seu
futuro, querendo-a para sua mulher.
Continuava Maria amuada, ria á socapa Josepha da Esperança, quando
passou o jardineiro, com um braçado de flores e a podôa na mão.
--Ora tenham muito bôas tardes, minhas meninas. Então já sabem a
grande novidade? Vem cá hoje o nosso homensinho.
--Quem, tio Jacintho?--perguntou Josepha, para acirrar Maria.
--Quem ha de ser? O senhor Joãosinho.
--Ouves? Temol-o por ahi.
--Que me importa!--protestou Maria, muito córada.
--Vi-o hontem na cidade, já anda fardado de voluntario, e a farda
fica-lhe a matar. Está uma flôr! Até se parece com o avô, o capitão
Silveira, que eu vi assentar praça da mesma edade. E ha de ir longe
como elle, ha de ir longe!
--Não lhe disse nada?--perguntou a prima.
--Não sejas inconveniente, Josepha, ou ficamos de mal.
E para impedir alguma inconfidencia do velho:
--Vá com Deus, tio Jacintho, e obrigada.
Mas a prima ainda o deteve:
--Diga-me cá, elle agora póde chegar a official?
--Até a brigadeiro, que é muito capaz d'isso, e as meninas ainda o hão
de vêr a cavallo a commandar batalhões e regimentos. Eu já hei de
estar debaixo da terra, mas vou consolado por deixal-o bem
encaminhado, que lhe quero como se fosse meu filho.
Muito maldosa, Josepha virou-se para Maria:
--Casarás quando elle fôr brigadeiro, muito velhote como o tio
Vicente.
--Quando deixarás de meter-te na minha vida, prima?
--Quando tu m'a contares como bôa amiga. Começa lá, e confessa que te
péllas pelo João.
--Se assim fosse não fazia mysterio, não tinha de quê. Mas não é
verdade, não é verdade!
E sentou-se pensativa na banqueta, fronte apoiada á mão, a olhar ao
longe.
Retiraram-se porém subitamente, e foram ambas esconder-se no jardim,
ao avistarem fr. Angelico. Enfadava-as a sua apologia da vida
conventual, no interesse de obter para a ordem os dotes e os bens que,
como ricas herdeiras, lhe trariam; repugnavam-lhes as pretendidas
caricias paternaes em que o seu instinto de mulheres adivinhava
desejos lubricos.
O frade, que reparara na subita desapparição, passou rosnando ameaças
por debaixo do mirante, e entrou, mesmo sem bater.
Bufando, limpando o suor, afrontado da caminhada, só deu com Martinho
Vasques na adega, desabotoado, sentado em cima de um barril,
observando o alambique, e provando a aguardente de vinho que mandára
queimar.
Offereceu-lhe logo uma caneca cheia, que fr. Angelico esvasiou,
limpando a bocca á manga do habito, e explodindo logo na sentença que
viera preparando pelo caminho.
--Malditos tempos, senhor morgado, malditos tempos!
Martinho escorropichou gulosamente, e concordou:
--Não sei como tanta impiedade não provocou já um tremendo castigo!
Deus porém compadeceu-se de nós, e as vinhas continuam, como nos dias
de fé, a dar este saboroso nectar ... Outro, fr. Angelico, outro
copinho...
Offereceu-lhe, na ancia de propaganda dos alcoolicos.
Saboreou o frade aos goles, defendendo-se:
--Senhor, preciso forças para falar.
Acabando de beber, tornou a bradar em tom de sermão:
--Tempo de desgraça! Tempo perverso!
Mirou-o o morgado, surprehendido por essa gravidade, só usada quando
havia gente de fóra.
--Você tem coisa, ó Angelico!
--E grave, meu senhor.
--Pois desembuche.
--Tenha V. Ex.{a} a bondade de subir ao escriptorio...
--Homem, subir ... essa agora!
E olhava apavorado a escada de mão, encostada ao alçapão que da casa
de jantar dava para a adega.
--Não póde abrir o bico ahi mesmo?
--Trata-se de um assumpto tão grave ... tão grave...
Pelo ar mysterioso, ficou Martinho desconfiado:
--Se é mais dinheiro para guerrilhas acabou-se ... Quero dizer, os
tempos vão maus, os rendeiros pouco pagam ... E você bem sabe que a
estas horas não estou em casa para taes coisas...
Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha
muito o morgado que de tarde não fazia bons negocios, e antes de
jantar fechava as gavetas do dinheiro e saía sem cinco réis, para que
não lh'o extorquissem, com intimidações do inferno, para missas; para
que não lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas,
invocando as complacencias de solteiras em favôr dos maridos, dos
filhos, dos netos.
--Não se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba que a sua
generosa bolsa está sempre aberta para a defeza da bôa causa.
E falando-lhe ao ouvido, insinuou:
--Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro!
Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos
na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada expressão de
gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das
situações extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos
que não bebem por habito, e só excepcionalmente se transtornam.
--Siga-me!--ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar
compungido.
Encaminhou-se para a escada de mão, segurou-se-lhe, poz o pé no
primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair.
Offegante do exforço, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e
pairou-lhe nos labios uma contracção de vergonha, de nojo de si mesmo.
Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo!
Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal.
Então abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os punhos, arranjou
as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixára contra as
pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo,
rastejante.
Pesadamente, no mesmo aprumo, entrou no escriptorio, foi sentar-se na
solida cadeira negra, de alto espaldar, encimada pelo folhado de uma
concha, e agora parecia-se com os retratos dos antepassados da sala
nobre, a grave cabeça apoiada nos hombros largos; a meza, as pennas de
pato de que nem sabia usar, a gravidade do conjuncto dando lhe o ar de
um ministro, de um desembargador.
--Explique-se!--ordenou-lhe, como um juiz a um reu.
De pé, nos gestos dos grandes dias, começou fr. Angelico:
--Senhor, esta casa acaba de ser duplamente enxovalhada. Sentou praça
de voluntario, em reforço ao infame batalhão que é a vergonha e o
grilhão d'esta terra, esse rapaz que V. Ex.{a} protegeu, e que recebia
em sua casa como a um filho...
--O João? Já tinha reparado na sua falta.
--Hão de dizer que são os nossos exemplos!
--Meteram-lhe isso em cabeça, patifes! A culpa é de quem perverte a
juventude, e a arrasta para os abysmos da impiedade.
--Talvez V. Ex.{a} não leve a sua generosidade a ponto de perdoar-lhe,
quando o vir logo entrar fardado aqui.
--Aqui?
--Sim senhor, a titulo de pedir desculpa de não poder continuar com a
escripturação, mas para nos afrontar com o maldito uniforme
constitucional, porque bem sabe quaes são as opiniões de V. Ex.{a} e
minhas.
--Bom é que venha, que lhe quero dizer algumas verdades, e dar-lhe
puxões de orelhas, que é o que merece.
--Perdôe-me V. Ex.{a} mas nem devia consentir que viesse...
--Isso é commigo.
E dirigindo ao frade um olhar severo:
--Mas que tem que vêr isso com a minha honra, a que você se atreveu a
alludir?
Curvou-se mais o frade, e respondeu na voz lagrimejante dos sermões
quaresmaes:
--Já lá vamos, senhor morgado, já lá vamos, embora o que me pesa ...
só Deus o saiba!
Aproximou-se da meza, e quasi ao ouvido de Martinho:
--Perdôe V. Ex.{a}, mas diz-se á bôcca pequena que o miseravel ousa
levantar os olhos para a senhora D. Maria.
--Para minha filha?
Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cachaço rubro,
abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um
turbilhão de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de
vingança, e os labios mexiam-se-lhe convulsos.
Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura:
--Isso póde não passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me
avisar.
--Desculpe V. Ex.{a}--insistiu o frade--mas não se trata da
infantilidade que julga. São os conselhos da botica, é a lição da
liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lançar mão
das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam!
Meditou o morgado, a cabeça apoiada entre as mãos, e depois disse
gravemente, em phrase arrastada:
--Basta, fr. Angelico. Isso póde ser um calculo d'elle, mas não
alcança minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem
fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem é do nosso sangue
não desce! Vença quem vencer, nós continuaremos a ser o que sômos, e
elles o que são. Vossa reverendissima não póde comprehender isto,
porque é plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve
sentir.
Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar.
--Póde retirar-se. O que tenho a fazer é commigo, juiz e executor em
minha casa, na minha familia e na minha raça, como chefe de linhagem
que sou!
E correspondendo ás subservientes reverencias de fr. Angelico:
--De caminho mande-me o quinteiro, faça favôr.
Saíu pouco satisfeito o franciscano, procurou o quinteiro, mandou o á
presença do fidalgo; depois chegou ao portão da quinta, observou para
fóra antes de o transpôr, e em seguida, muito cosido com o muro,
partiu para os lados de S. Carlos, para voltar á cidade sem se
encontrar com João.
Notaram-lhe as manobras Maria e Josepha da Esperança, que tinham
voltado ao mirante mal elle entrara.
Satisfeitas, por se verem livres d'elle, continuaram a observar
impacientes o caminho da cidade.
Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar.
Era João, vestido de guarda nacional, farda curta de saragoça
portugueza, com botões brancos, golla azul claro, laço azul e branco
no chapéu redondo.
Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pateo, em face ao
alpendre da escada, ia vêl-o entrar e, talvez como antigamente, elle
viesse falar-lhe, arrependido da imprudencia.
Pensando assim, seguia-o Maria n'um olhar de anciedade, encobrindo-se
com as trepadeiras do caniçado, para não lhe dar a confiança de
mostrar que o esperava.
Vinha já perto, quando notaram dentro movimento desusado.
Corria o quinteiro, e meia duzia de cavadores de enxada, batendo os
pés descalços na terra endurecida pelo calôr, varapaus ao hombro,
falando alto.
Desacorrentára o creado dois grandes cães de fila, amarelos, rabo
cortado, focinho negro, fauces ameaçadoras, que de noite rondavam
ganindo e uivando.
Ao chegarem ao pateo, occultaram-se na cocheira homens e cães, e o
quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quizesse
fechal-o mal entrasse João.
--Que é isto, José?--perguntou Maria, suspeitando uma violencia.
--Ordens do senhor morgado--respondeu elle, rindo alvarmente--não
quero saber!
Mas Josepha da Esperança, muito nervosa, nem lhe dera tempo á
resposta, e ao vêr João em frente do mirante, avisou-o:
--Não entre, que lhe querem bater!
Maria, correndo ao muro, bradou-lhe tambem:
--Foge, foge!
N'uma grande excitação, gritava a prima:
--Aqui d'el-rei! Aqui d'el-rei!
Elle recuára ao ouvir os gritos e, vendo apparecer ao postigo a cabeça
lanzuda, comprehendeu que lhe faziam uma espera.
Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avançou muito pallido
para a porta, que de dentro fecharam com estrondo.
Sentiu então Maria que o amava, vendo-o encarnar o typo glorioso,
cavalheiresco, da imaginação das raparigas, geralmente fixado nos que
teem por ferramenta a espada e a lança do cavalleiro andante de outras
eras.
Dirigia-se-lhe com o coração nas mãos, como elle no pomar, n'um rubor
de sangue, lavada em lagrimas, pondo as mãos:
--João, João, não te percas por minha causa!
Sem a attender, batia exasperado no portão com o punho da baioneta,
bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques.
Ouvindo ladrar ameaçadores os cães de guarda, virou-se Maria para o
pateo.
Aos gritos de soccorro de D. Josepha, correra de dentro o jardineiro
com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta á altura dos
olhos, fortemente cingido ao corpo.
--Querem bater no Joãosinho!--explicou-lhe ao vêl-o.
Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros
que se fossem embora.
--Quem manda aqui é o fidalgo!--respingou o quinteiro, fazendo-se
forte á frente do bando.
Mas os camponeses, receiando as furias do velho, mantinham-se
indifferentes, apoiados aos bordões, n'um riso estupido.
--Deixe-me abrir a porta!--insistia o José da Quinta, querendo deitar
os cães, segundo as ordens do amo.
--Primeiro te racho de meio a meio!--ameaçou mestre Jacintho,
encostando-se ao postigo.
--Avem-te com estes!--casquinou o quinteiro, abrindo com um pontapé a
porta da estrebaria.
Saíram ladrando excitados _Marujo_ e _Sultão_, mas conhecendo o
jardineiro, não lhe pegaram.
--És peior que os cães, que os animaes não teem entendimento e não
fazem mal só porque os mandam!
E o velho rilhando o dente, na furia que o tornava terrivel, avançou,
crendo-se em plena batalha, e fez recuar o capataz e o rancho,
levando-os de roldão até ao fundo do pateo.
Ahi, metido em brios, tentou defender-se o mandatario do morgado, mas
caíu, lavado em sangue, com uma cacetada na cabeça.
Appareceu no alpendre da escada D. Perpetua entre as creadas,
attrahida pelo alarido.
Chamou a filha para casa.
--Vamos para dentro, Maria. Que vergonha!
E como ella não a attendesse, deu a volta e foi obrigal-a a saír do
mirante.
--Isto é alguma tarde de toiros? Gostas de vêr no que dão as
bebedeiras de teu pae?
Arrastada pela mãe, envolvida no berreiro das creadas, Maria, com a
cabeça perdida, não viu que mestre Jacintho abrira a porta e, dando
conta a João do que se passava, aconselhara-o a ir-se embora. Depois
falariam.
Ao passar no pateo, para entrar em casa, afastou a cabeça para não vêr
a torva lividez do ferido, os olhos vidrados, a testa gotejando, os
cabellos empastados em sangue, a mulher ajoelhada ao pé, clamando que
o morgado lhe metera o homem em trabalhos.
Ao entrar em casa ainda poude Maria olhar para fóra, e ficou
descançada vendo João já muito longe, a caminho da cidade, salvo de
todo o risco.
Veiu do fim da quinta Martinho Vasques a vêr como tinham sido
executadas as suas ordens. Ao conhecer o procedimento do veterano,
partiu exasperado em busca d'elle, depois de ter mandado chamar o
barbeiro para curar o ferido.
--Tu é que déste a pancada no quinteiro?--perguntou-lhe colerico, ao
vêl-o deitado n'um molho de rapa, a resfolegar, muito cançado.
Ergueu-se logo o velho, empertigou-se na rigidez do habito militar
ante o superior, mas respondeu, orgulhoso da façanha:
--Pois quem havéra de ser? Quem ha ahi com alma para tirar fumaças a
pimpões?
--Mas tu sabias que era ordem minha!
--E que me importava isso a mim?
--Então, refinadissimo tratante, comes o meu pão para me
desobedeceres?
--Sabe que mais, patrão, não venha tirar palha commigo.
Mas o morgado, que via n'elle o culpado da vergonhosa scena em que
fôra desrespeitado, e de que o rapaz saíra triumphante, irritava-se
cada vez mais.
--Aquella pancada é como se fosse dada em mim mesmo.
O ex-soldado virou-se para elle, mediu-o de alto a baixo, e de
esguelha, disse-lhe decidido, teimoso:
--Se o senhor se tivesse ido metter com o menino...
Arremetteu com elle Martinho Vasques. Porém a reputação do soldado,
apesar da mesquinha attitude em que ia a retirar-se, sem fazer caso,
dobrado ao meio, as mãos pacificamente atraz das costas, o pescoço
magro saíndo da colleira negra, descarapuçado, bastou para conter n'um
prudente respeito o morgado, alto, forçoso, sanguineo, armado do rijo
varapau.
--Esquecestes quem sou eu?
--E o fidalgo não se esqueceu do que lhe deve ao avô, do que me deve a
mim, para vir para aqui, vermelho como uma lagosta, impar de raiva
mansa?
--Se não tivesse que descer a medir-me comtigo, fazia-te engulir tudo
isso com os dentes que te restam.
Tremia apertando nervosamente o bordão.
--Com bem passe, senhor Martinho--e o velho dizia-lhe adeus com a mão,
sem se voltar.--Fale-me ámanhã em jejum.
--Ó bandalho, tu chamas-me bebedo?
--O patrão é que se está chamando, nanja eu.
--Olha que eu mando-te fazer uma montaria como a lobo!
--Pois vamos a isso. Coza-a commigo, que tenho o coirão duro, mas lá
com o menino, cautela! Olhe que lhe sae do pêlo, senhor morgado.
--Pois atreves-te a ameaçar-me? A mim?
--Hoje em dia, meu amo, já não se póde mandar matar um homem sem se
bailar n'uma forca, porque se acabaram os fidalgos e as suas
patifarias.
--Até a isto se pegou a sarna jacobina!--exclamou com desdem, com
desgosto.--Não falavas assim se eu não te désse licença para te ires
emborrachar com a choldra do castello.
--Aqui, senhor morgado, aqui é que ellas se apanham de caixão á cova.
Perdendo a cabeça, o morgado poz o pé atraz, empunhou o cacete, mas
envergonhando-se, atirou com elle, e deixou-se cahir no banco de pedra
como aniquilado.
Ficou para ali vendo anoitecer, não querendo passar pelo pateo onde a
quinteira se arrepelava, bradando que lhe desgraçára o marido.
Tinha ainda nos ouvidos os gritos de Maria, as injuriosas referencias
da esposa.
Acabava de insultal-o um creado!
Sentia inteiramente desfeito o poder, a autoridade de que fôra tão
cioso.
Todos se voltavam contra elle, todos pareciam ter razão contra a sua
razão, a unica authentica, a unica verdadeira.
Perdera se a obediencia, quebrara-se o respeito, e em sua casa todos
queriam mandar tanto como elle.
Estaria então a sociedade tão profundamente minada pelo mal, como
dizia fr. Angelico, que a filha, uma fidalga, descesse até um misero
plebeu, e todos se conspirassem contra elle, tomando partido pelo
insignificante?
E atreviam-se a falar-lhe cara a cara, a elle, morgado, senhor de
terras, nas novas leis que impediam a nobreza de desafrontar a sua
honra a dentro do seu solar?
Invadia-o uma amarga dôr, um triste desanimo, como se a sua
integridade physica fosse attingida, como se lhe tivesse quebrado a
cabeça a cacetada, como se lhe mordessem os proprios cães.
E n'essa hora de abandono assaltava-o o remorso de muita injustiça.
Mas pouco a pouco reconquistou-o a fé absoluta na verdade das suas
ideias.
Reanimou-se, decidiu-se.
O mal crescera, chegára a invadir-lhe a casa! Pois bem, collocar-se-ia
d'ahi em diante ao lado dos que mantinham a verdade do passado, a
honra incorruptivel da fidalguia, a fé religiosa intransigente!
E levantou-se aprumado, disposto á lucta que a todos reclamava, e a
que até ahi o subtraíra a indolencia do seu viver.