III

Passára João interminaveis dias de angustia, e agora apenas ia á lição

de latim, ficando a estudar noite e dia para poder entrar mais

depressa na universidade.

Manter-se-ia em Coimbra com a pequena legitima paterna que, para se

formar, conservava intacta, sustentado pelas tias, a quem auxiliava

com os ganhos de escrevente.

Para supprir as quatro patacas pedira ao Juvencio, e ao doutor Ferraz,

que o apreciava das conversas politicas da botica, alguns trabalhos de

expediente da junta provisoria, que podesse fazer de tarde e á noite.

Mas a subitas abandonava o buffete, chegava á janella, e sentava-se a

contemplar a quinta dos Folhadaes, evocando a derradeira visita.

Resentia-se da frieza de Maria, do desdem transparente nas censuras de

D. Josepha da Esperança, do olhar sobranceiro de Jorge da Feteira ao

corresponder friamente ao seu cumprimento.

E avaliava que tal devia ser o primo de Lisboa a quem a destinavam,

por esse arrogante analphabeto, cheirando a estrebaria, orgulhoso de

pegar toiros á unha á saída do curro, de picar a pé á vara larga, de

farpear de dentro do caixão a meio da praça, falando com desprezo da

liberdade que não comprehendia, odiando a letra redonda que nem

soletrava, copiando D. Miguel por fóra e por dentro, dizendo-se, por

bravata, capaz de defender de armas na mão o passado, que lhe dava

direito de primasia sobre a parte intellectual da nação.

Como fôra ridiculo no seu acanhamento!

Porque não rompera n'um rasgo soberbo, lançando-lhes em rosto alguma

dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquilação fatal da

fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo

plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta,

indolente, corroida no sangue por heranças de miserias e de vicios?

Precisava desafrontar-se, lançar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos

da Carta que confirmavam a Constituição na extincção dos privilegios,

no estabelecimento da egualdade.

Mas teria offendido gravemente Maria...

Fôra melhor assim!

Ella não podia pensar como o pae, como o primo.

Tratara-o sempre como um egual e, se manifestára aquella grande

estranheza, fôra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso

proposito, sem que uma gradual preparação a habilitasse a encarar

aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam.

Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os

preconceitos?

Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio,

previam a declaração da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse

deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para

escolherem o melhor, e um coração para estalar de dôr; e se fosse

poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um

formidavel protesto, os versos de Gil Vicente:

«Que el amor que aqui me trajo

Aunque yo fuese villano,

El no lo es.»

Já não havia porém villões e fidalgos; perante a lei eram todos

cidadãos!

Maria agora sabia tudo e, n'esses longos dias em que se não viam,

tinha tempo de meditar.

Julgal-o-ia no seu intimo, evocaria, talvez saudosamente, a

jovialidade d'essas tardes!

Que pensaria o fidalgo em não o vendo?

Era forçoso ir lá dar-lhe qualquer desculpa. Não podia desapparecer

como um criminoso.

Precisava mesmo mostrar-lhe, e a todos, que não tinha medo.

N'esse dia despedir-se-hia d'ella cerimoniosamente.

Já não era dependente e, se o acolhesse, tratar-se-iam de egual para

egual.

Voltaria como visita, ou falar-lhe-ia da canada, e havia de

inspirar-lhe confiança, fazendo-lhe vêr como as medidas liberaes,

extinguindo distincções, lhe permittiam elevar-se até aspirar á sua

mão.

E assim caía de novo na preoccupação politica, sentindo ainda mal

seguro esse estado de coisas que provocava um desdenhoso riso a

Martinho Vasques, e avinhados raptos oratorios ao frade.

Como sempre que o intimidavam a tranquilla segurança dos adversarios,

as más noticias que por toda a parte espalhavam, decidiu ir á botica

avigorar a fé na convicção enthusiastica do velho clubista.

Fôra tão forte o abalo soffrido que adiou de dia para dia a visita ao

Juvencio e, sem saír mais que para a aula do padre Jeronymo, continuou

agarrado aos livros, vendo n'elles, no curso para que o preparavam, a

sua melhor desforra.

Alarmou-o uma manhã o boato trazido de fóra pela creada, quando

estavam almoçando, de que se ia embora o batalhão, e voltava a ilha á

obediencia do senhor D. Miguel. A junta reunia gente armada para

impedir o embarque, mas todos diziam que os caçadores eram levados do

demonio, e nenhum caso fariam da paisanada.

Não poude encobrir o desgosto, mas não respondeu ás tias, não lhes

contestou os commentarios.

D'ahi a pouco saía, muito enfiado, disposto a tudo.

--Que ha de novo, senhor Fulgencio?

Veiu do interior da loja o boticario, um velho alto, secco, ainda

robusto, só divergindo dos constitucionaes na cara rapada, olhar

inquieto, ardente, bocca energicamente accentuada, expressão decidida,

barretinho de clerigo tapando-lhe a calva, muito correcto n'um velho

traje de gala, repassado aqui e ali, casaca de seda preta, calção e

meia, chinelos em vez dos sapatos de fivela, por causa dos callos.

Aproximou-se n'um ar mysterioso, occultando-se das beatas que iam

vigial-o de manto, e disse-lhe baixinho:

--Está reunido o conselho militar. A coisa não ha de ir assim, estejam

descançados.

E retirou-se, muito activo, n'um passo miudo.

Seguiu-o João, angustiado.

--Vieram más novas?

Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas:

--Não vieram das melhores, não. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas,

chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu

avio a gente _do monte_, para ficar com as mãos livres, se tivermos

dança.

Era domingo e, conforme o uso, viera ás compras muito povo do campo.

Estava a botica cheia de cabaças, de alforges, de sacos de estopa. Em

cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em

punho, ia despejando boiões de unguento.

Devorava João as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e

terça de alto, a duas columnas, encimada pela corôa portugueza, entre

_Gazeta_ e _de Lisboa_, do titulo.

Vinham cheias de saudações a D. Miguel pela «exaltação ao throno dos

seus maiores»; da lista dos «donativos voluntarios», extorquidos pela

policia e pelos caceteiros sob a ameaça da denuncia por liberal; de

congratulações officiaes pela victoria das tropas fieis contra as

rebeldes.

Na ultima pagina do n.{o} 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do

retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rapé a

40 réis a duzia, em preto, a 240 _illuminado_; para medalhas mais

pequenas respectivamente a 30 e 160 réis; para anneis e alfinetes a 20

e 120 réis.

Publicava a _Gazeta_ n.{o} 182, de 2 de agosto, o «Assento dos tres

estados», em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de

haver jurado falso com essa interpretação do juramento, que João lia

assombrado: «irrito ou nullo quando cae sobre materia illicita,

quando é extorquido pela violencia, quando da sua observancia

resultaria necessariamente violação de direitos das pessoas e dos

povos, e sobretudo a completa ruina da nação.»

E os jornaes continuavam a bater a nota das felicitações a D. Miguel e

ás tropas.

Que significava aquillo?

Não podia deprehendel-o das _Gazetas_, alheio como estava ha muitos

dias ao movimento politico.

Mais aliviado de freguezes, veiu Fulgencio esclarecel-o:

--Sim, foi-se tudo por agua abaixo. Já o sabiamos desde o dia 5, mas

a cara era a mesma, para que esses patifes dos miguelistas não se nos

rissem nas barbas...

--E as noticias que o doutor Antonio da Silveira foi procurar ao

Porto...

--Já nos deram a divisão liberal em retirada para a Galliza ... mas

nós: moita, carrasco!

--Pois não poderam manter-se todas essas tropas da junta do Porto?

--Perdeu-os a sua ingenuidade! Tu bem sabes que nós não queremos

sangue, nem alçadas, nem perseguições, nem confiscos. Paz e egualdade

para todos! Eis como foram até cerca de Condeixa tres mil soldados

liberaes, por assim dizer como chamariz a deserções. Mandaram-se

proclamações para o campo inimigo, e ao alarme pela aproximação de uma

força adversa romperam as bandas o hymno constitucional, para a

arrastarem á adhesão. Contava-se vencer sem disparar um tiro, sem

derramar o sangue de irmãos!

--Como em Vinte!--exclamou João enthusiasmado.

--Eram os principios! Mas as forças do Miguel, seis a oito mil homens,

não quizeram «abraçar os irmãos d'armas», e atacaram na Cruz dos

Moroiços, no momento em que todos os chefes, de major para cima,

tinham ido assistir ao conselho militar em Coimbra. Foi a «acção dos

capitães» e, como tal, as forças sem commando que reunisse os seus

esforços, defenderam com valentia as posições occupadas, mas não

limparam de inimigos o caminho de Lisboa. Depois o nosso general

Refoios, receando que Povoas passasse o Mondego, ordenou a retirada

para o Porto.

--E ahi?

--Não se poderam manter. Quando chegaram de Inglaterra os chefes

emigrados já era tarde, e voltaram no mesmo vapor que os levára,

emquanto a divisão retirava para a Galliza.

--Que desgraça!

--Ou antes, que inepcia. Essa fuga dos chefes no _Belfast_ não me

passa d'aqui!

E levou a mão á garganta n'um gesto nervoso.

Sentiu João as lagrimas nos olhos, e fez exforços para não chorar.

Assim ruia n'um momento o futuro em que tanto confiára.

--Então acabou-se tudo?--exclamou em voz estrangulada.

--Qual! Outros virão! Ha de estalar nova revolta, e o Miguel não

levará a melhor! E agora que aprendemos á nossa custa, nada de hymnos

nem de proclamações. Ha de ser á má cara!

Dava grandes pernadas pela botica, olhando inquieto a praça, onde se

juntava muito povo defronte da camara.

Continuou para João, que ficára aturdido:

--Assim o querem, assim o tenham! O exemplo do sangue veiu d'elles. Já

começou a trabalhar a forca, mas os estudantes de Coimbra, longe de se

intimidarem com o assassinio dos collegas condemnados pela morte dos

lentes em Condeixa...

Olhou João fixamente, crendo que a sua pallidez provinha da referencia

ao attentado e ás execuções.

--Ouve lá. Tu que te fazes tão liberal, se te coubesse em sorte

executares um tyranno, um inimigo de liberdade...

--Não me tremia a mão, tenha a certeza!

E João ergueu-se, vibrando de enthusiasmo, na esperança de poder tomar

parte na lucta contra a casta dominante cuja oppressão tanto o

magoára.

Parecia-lhe ha muito que o experimentavam os frequentadores da botica,

e sentia-se attrahido pelo maravilhoso, pelo mysterio do subterraneo

onde constava funccionar uma associação secreta.

Mostrava agora uma firmeza de homem feito, sentindo-se honrado por

esse convite indirecto a entrar em acção.

Juvencio fitava n'elle o olhar prescrutador.

--Todos serão precisos!--disse-lhe por fim--e os rapazes mais do que

os velhos. São vocês que teem a lucrar com a liberdade. Eu não

chegarei a gosal-a em paz.

Commoveu-se n'uma saudade do periodo constitucional, das humanitarias

illusões em que tinham considerado a nação livre e feliz para sempre.

Mas o gesto de amargura cedeu ante a impulsão do inquebrantavel

espirito de combatividade, e proseguiu:

--Como te ia dizendo, a estudantada não se intimidou, e adheriu á

revolução, formando o batalhão academico, que lá retirou com os

emigrados.

Eram um novo contratempo para João as perturbações da universidade.

E na obsecação do projecto que por esses dias o absorvera, perguntou:

--Então assim, talvez não possa matricular-me este anno?

Sorriu da ingenuidade o boticario.

--És um creançola! Pois não vês que não torna a haver paz sem que

elles nos enforquem até ao ultimo, ou nós os desarmemos e ponhamos o

Miguel pela barra fóra?

--Não sou tão inexperiente como julga. Mas pelo que vejo na _Gazeta_,

D. Miguel foi proclamado rei, e tudo são felicitações e offertas...

--Isso não quer dizer nada. É a gente d'elle, só a d'elle, porque os

nossos estão presos ou emigrados. Mas olha que os embaixadores

cortaram todas as relações diplomaticas, em protesto contra a infamia

dos juramentos falsos com que nos illudiu, com que enganou as nações

estrangeiras.

Puxou triunfante d'uma carta:

--Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer não. Os tres estados, como

tu já ahi lêstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica

do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra fórma,

dizendo que elle, ante o parlamento, não jurou com a mão nos

evangelhos, mas em cima dos _Burros_ d'esse bandalho do José Agostinho

de Macedo. Tu sabes as minhas opiniões, para mim tanto vale um como o

outro, é tudo palavreado de frades. O crime está na má fé de bandido

com que abusou da confiança attribuida á palavra de honra de qualquer

homem de bem, quanto mais de um principe!

João indicou-lhe o artigo da _Gazeta_.

--Dizem que elle foi coagido a jurar.

--Patife! Estava coacto, sim, é a desculpa d'esses homens que para

vergonha nossa ainda governam cidadãos livres como rebanhos de

carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. João sexto e D. Miguel

declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as

traições e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua

«sciencia certa e o seu poder absoluto» guardam-os esses ungidos do

Senhor para pôrem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros.

Amarrotou a _Gazeta_ furioso, batendo com as costas da mão no artigo

dos «tres estados», emquanto passeiava, declamando:

--Isto que ele fez agora, deitar a mão á corôa, já o tentou por duas

vezes em vida d'esse pobre diabo de D. João VI, combinado com a porca

da mãe. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na

Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o

extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor

D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno

portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar

d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a

corôa á nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condição de D.

Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e até

enviou ao irmão regente um manifesto negando a authoridade do seu nome

a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de

Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas

instituições, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar

a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um só

liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os

juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos

em que a applicava. E quando pôz o exercito da sua mão, mudou a

officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente

seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a

questão da legitimidade, que nunca até hoje fôra apresentada, e fez

trabalhar o cacete e a fôrca.

--E está realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a

_Gazeta_?--perguntou João intimidado.

Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo:

--Mas não o está na ilha Terceira!

Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal:

--Fala-se aqui de uma expedição em que vem a nau _D. João VI_, e mais

dez navios, contra a Madeira e as outras possessões revoltadas...

--Bem sei. E já fizeram exercicio de desembarque diante do «seu anjo».

Pois que venham cá, e verão a lição que levam!

Deslumbrava-o o orgulho patriotico:

--Tinha melhores dentes o Demonio do Meio-Dia, e por duas vezes lhe

corremos com a sorte. O que a nossa terra fez então, póde repetil-o

agora. Até os toiros dos nossos mattos se lhe deitaram na Salga, e

Vadez fugiu, apezar dos seus dois mil soldados cobertos de ferro! Para

se metterem cá tiveram os hespanhoes que mandar oitenta navios e

dezaseis mil homens. Onde tem o Miguel gente para isso? Pois tomára eu

que mandasse muita, para que, livres d'ella, o puzessem os liberaes

mais rasos do que um chinelo.

Ardia João na impaciencia de saber toda a verdade:

--Por têr mêdo da esquadra o batalhão quer saír, como corre?

--Com mêdo, dizes bem. Eis o que valem fanfarronadas de caserna!

Lingua têm elles para se darem como autores de tudo, dadores da

liberdade, mantenedores da independencia. Mas vê lá se alguem os viu

quando entraram os francezes! Nem raça de um. Foram as guerrilhas,

paisanada como eu e como tu, que lhes puzeram as uvas em pisa. E

quando mataram o grande general Gomes Freire? Se foram elles proprios

que o fuzilaram! Havia officiaes inglezes n'esse tempo, mas só meia

duzia. A soldadesca e os agaloados eram todos de cá. Que prendas! Em

Vinte sahiu tudo para a rua, que duvida, se a coisa não cheirava a

esturro. Apenas vivas e palmas! Quando se conspirava contra a

Constituição, ainda juraram defendel-a até á ultima gota do seu

sangue. Mas assim que os franceses entraram por Hespanha, e o Miguel

se levantou, puzeram-se no seguro, e trahiram todos os juramentos,

choramingando que a liberdade era má porque lhes deixava os soldos em

atrazo, quer dizer, porque não lhes dava em promoções e augmentos de

soldo tudo o que pagava o pobre povo. Lá conheceram para que serviam

ao atrelarem-se ao carro de D. João VI, que puxaram como bêstas,

organisando até a relação dos nomes, e disputando aos fidalgos a honra

da preferencia!

--É então certo que retira?

--O major José Quintino Dias apenou os navios da laranja para o

levarem a Inglaterra, onde devem ir ter os emigrados. Queria embarcar

hoje mesmo, 24 de agosto! Escolheu bem a data, não haja duvida, quando

faz oito annos que rebentou a revolução constitucional no Porto!

Considerou tristemente:

--Oito annos! Como o tempo corre! E estamos peior do que ao começo.

Nada porém abatia a sua fé inabalavel:

--Mas havemos de restaurar a liberdade, embora só vocês gosem d'ella!

João commentou ainda:

--Mas caçadores cinco foi sempre um corpo liberal!

--Pois é isso mesmo o que mais me doe. O bravo cinco! Um batalhão

degredado para aqui pela sua firmeza, quando até o famoso dezoito de

infanteria, unico que não fôra á Villafrancada, se bandeou, depois de

ter recebido, n'essa hora tragica, um exemplar da constituição

confiado á sua guarda, e de ter jurado morrer pela liberdade! O cinco,

o bravo cinco!

E reconsiderando:

--Mas ouve lá, rapaz, se em geral a tropa não merece confiança, e só

pensa no venha a nós, tem tido verdadeiros heroes liberaes, embora por

excepção! Esses que emigraram, sem acceitarem as concessões do Miguel,

são portugueses de antes quebrar que torcer! Bem viste como se portou

o nosso «cinco» em vinte e dois de junho. Agora é que lhe deu para

desmanchar-se ... Ainda tenho para mim que ha de reconsiderar.

--Tambem creio que se não vae.

Juvencio exclamou exaltado:

--Lá isso é que não vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou

ao mal. Não é só meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme.

Vae por ahi uma gritaria, um desespero que é de cortar o coração. Bem

se sabe o que o Miguel fará se entrar aqui. São mortes, confiscos,

donzellas violentadas, creanças insultadas nos seus lindos olhos

azues, a maldita côr constitucional. A elles póde não importar isso,

mas nós não queremos a desgraça na nossa querida terra. Se teimarem em

fugir, abandonando ao carrasco mulheres e creanças, ensinar-lhe-emos á

força o seu dever!

Como sempre, fôra avassallado João pela fé do velho liberal:

--Sim! Sim! Diz muito bem.

E no rosto lia-se-lhe uma formal decisão.

Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua:

--Quando fôres pae, Joãosinho, comprehenderás a minha dôr. Tenho aqui

em cima tres filhas, e já um neto, cujos cabellos loiros são o meu

encanto! A minha familia é a minha religião. Tudo quanto sou, me

tornei por causa d'elles! A minha alegria é o reflexo da sua alegria,

a minha vida é o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha

e n'elles se perpetúa. A mulher é tão velha como eu, mas ellas são

novas e lindas. Queres saber o que os padres prégam do pulpito abaixo?

Que é preciso matar as _malhadas_, as filhas de liberaes como as

minhas, de preferencia as gravidas, porque as creanças já trazem no

ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada está para dar-me

outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues

do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! Não! Não ha de ser

assim!

--Na nossa terra não entram esses barbaros!

Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio

continuou:

--É preciso que não entrem! Toda a esperança da liberdade portuguesa

depende de nós. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a

parte. É o que agora dirão no conselho ao major Quintino. O futuro de

Portugal está-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira póde

defender-se, e ha-de defender-se! É tão bravia a costa do mar, que faz

por si só uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos as do

castello. A nossa terra é tão insignificante, estará dizendo Quintino,

que n'um dia se corre toda em volta a pé. Pois quanto mais pequena

fôr, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um

degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para cá o

refugo dos funccionarios, o que lhes não serve de nada. Pois se o mal

vem de lá, ha-de ir-lhe de cá a lição! Aqui foi o reino do Prior do

Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente,

vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario

da liberdade, que depois reviverá em Portugal!

Observou a praça, e ficou descontente:

--Ein? Tudo na mesma. Mau signal. Já tiveram tempo de decidir qualquer

coisa. Pois vamos até lá a vêr se espertam.

Desappareceu no interior da loja.

Estremecia João n'um fremito de independencia.

Sim, resistir aos de fóra, acabar com essa escravidão, o navio cujas

noticias o ameaçavam, o primo do continente a quem estava destinada a

mulher amada. Queria-a para si, e havia de defendel-a com o ardor com

que Juvencio pretendia bater-se pela familia.

E assim como para o velho constitucional se identificavam os dois

amores, tornando-se um a ampliação do outro, sendo o lar o mais

sentido representante do maior, assim Maria se lhe tornava o symbolo

da sua terra, ameaçada pelos de longe, dominada, como parte da sua

população, pelo preconceito, pelo fanatismo.

Percorria-o um fremito de bravura, manifestava-se-lhe, ao influxo da

occasião, a hereditariedade guerreira; e sentia-se prompto a combater

por ella e pela liberdade, já sem o triste acanhamento em que se

humilhára ante a frieza do seu olhar altivo, ante o desdem de um boçal

marialva.

Veiu de dentro Juvencio, de chapeu alto, vendo-se-lhe o barretinho por

baixo, emquanto, de costas, pretendia fechar a porta interior; trazia

o capote preso nos fechos de prata, e debaixo d'elle um volume que lhe

tolhia os movimentos.

Voltou-se, sorriu ao encarar com João, e pediu-lhe que encostasse a

porta da rua.

Desembaraçou-se, poz em cima da meza uma espingarda de pederneira e o

cinto de cartuchos.

Fechou então a porta, metteu a grande chave n'uma gaveta, foi depois

verificar a escorva, e por fim desembainhando a espada posta á cinta,

mostrou a João, que assistia n'uma impassivel gravidade de homem

feito, a lamina onde se lia: «Constituição ou Morte».

Tivera-a muito bem escondida como uma reliquia, e nem as perseguições

do maldito Stokler lh'a poderam arrancar.

Cingiu o cinto da polvora, enfiou no hombro a bandoleira da espingarda

e deitou por cima o capote azul, encobrindo as armas.

N'uma ternura paternal poz a mão no hombro do rapaz, ao despedir-se:

--Adeus, e mette-te em casa, Joãosinho. Temol-a tramada!

--Em casa, eu?--protestou quasi offendido pelo conselho.--Olhe tambem

para isto, senhor Juvencio.

E da alta bengala de madeira preta e castão de marfim, arrancou um

agudo estoque, e sacou das amplas algibeiras do casaco duas pistolas

de pederneira.

--Estão carregadas!

Enternecera-se o velho:

--Pois tambem tu, pequeno! Oh! Com rapazes assim a victoria é nossa.

Muito orgulhoso, João gracejava:

--Então o senhor, sósinho, é que havia de defender esta terra toda, lá

por ella ser tão pequena? Eu tambem sou terceirense, tambem tenho

direito ao meu pedaço!

Os Bravos do Mindello Romance Historico · 第 6 / 19 题