desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação
animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e
souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos
animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação
exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração.
Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de
ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental
demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas
as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se
reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte,
as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais
favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as
ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as
associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania
medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje
um pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime que
teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos apóstolos
dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da doutrina
da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da redempção
do mundo moderno.»
Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que
lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das
raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que
assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável
escudo.
Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento.
É o de E. Réclus.
O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e
dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e
a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas
sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou
durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer
com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente
apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe
dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que
do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu
conselho não póde prescindir.
«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem
a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á
simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem
com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde
criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um
pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o
dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo
vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos
laboratórios. Nasceu-lhe no coração.
«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um
canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde
todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada
um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos que
comem carne contra os animais que êles comem. Não ha necessidade de ir a
nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma _saladera_ de La Plata,
para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condição
primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas impressões gastam-se
com o tempo; cedem perante a perniciosa influência da nossa educação de
todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo para a mediocridade, e o
despoja de quanto concorra para o tornar uma personalidade original.
Pais, mestres, por oficio ou por amizade, doutôres, para não falar desta
poderosa individualidade que chamamos _toda a gente_, todos trabalham
juntos para endurecerem o carácter da criança com respeito a êste
«alimento de quatro pés» que, todavia, ama como nós amamos, sente como
nós sentimos, e sob a nossa influência progride ou retrocede como nós...
Não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conjunção com o
massacre dos gados e os banquetes carnívoros. A dieta dos indivíduos
corresponde exactamente aos seus modos. O sangue pede sangue. Nêste
ponto, quem rememorar as suas lembranças daquêles que tem conhecido,
encontrará que não póde haver dúvida possível quanto ao contraste que
existe entre os vegetarianos e os grosseiros comedores de carne--ávidos
bebedores de sangue--na amenidade dos seus modos, na gentileza de
disposição e regularidade de vida. É certo que estas qualidades não são
muito apreciadas daquelas _pessoas superiores_ que, não sendo de fórma
alguma melhores que os outros mortais, são sempre mais arrogantes e
imaginam que acrescentam a sua importância depreciando os humildes e
exaltando os fortes. Para elas, doçura significa fraqueza: os doentes
são um tropêço, e seria caridade varrêl-os do caminho. Se não forem
mortos, deve-se pelo menos deixar que morram. Mas é justamente esta
gente delicada que resiste á doença melhor do que os robustos...
«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos
vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais
sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está
mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não
é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o
reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos
chamados animais inferiores e a ampliação até êsses nossos irmãos do
sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O cavalo e
a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a cotovia,
são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida. Queremos
conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou
simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.»
E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes
testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto
marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos,
prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de
individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual
o vegetarismo é o _primeiro passo_, ou como êsse outro proféta de
alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça»
aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente
e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que
riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa.
O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os
meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória
dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem
por titulo _A Etica da Dieta_ e ao qual fui beber a maior parte de
aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por
ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e
a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações
não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se
fundam.
II
Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos
autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A
história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os
merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo
exemplo são garantia da sua excelência.
_Quid inde?_ Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e
por que razões ha-de persistir em nossos dias?
Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do
vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações
e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu
carácter e a sua influência na moralidade das raças.
Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como
mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do
helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a
meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida
universal.
Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas
disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e
diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização
permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que
queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os
encaminhavam e prendiam.
Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de
filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez
séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí
derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.
Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das
guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os
problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a
breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua
pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura
antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no
seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe
dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.
Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura
que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos
seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é
permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever e de
crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina,
nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do
passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e
da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da
consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência
moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão
de sistema ou de lógica, é um acto de religião.
Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender
crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse
«poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou
Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma
acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se
revoltam.
Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em
regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos
de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor,
porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os
discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e
Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as
mais bárbaras crueldades.
Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as
consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem
considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável
para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos
tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de
tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer
conquistar o seu lugar no mundo.
A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê
enleiado e combatido por tradições terríveis.
Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na
realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que
o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa
estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os
nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e
complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.
Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que
a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações
orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos
mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios
caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o
deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto
é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e
frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos
banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como
agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das
touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente
dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os
olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb
um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara
a consciência da maldição que nos atormenta.
Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul,
deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público
dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais
coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o
julgue.»
São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o
sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e
sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão
um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por
isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e
deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos
irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram
diploma de inferioridade.
Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a
terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos
nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do
vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de
traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são
muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do
seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o
índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus
companheiros e seus servos e amigos.
Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais
sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta
imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser
da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza
humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz
expressão de Carlyle.
Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi
infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos
orgulhamos.
III
Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de
inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto,
pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das
relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos
que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela
sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de
flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da
moralidade das raças--o alcoolismo.
Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para
afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e
medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá
deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não
é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões
sociais.»
O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho
que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada
passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os
ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde
quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja cometido
sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos hospitais
onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e o mais das
vezes acabar.
Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou
deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a
verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa
indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é
assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à
consciência.
Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em
volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar
infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro
da nossa raça.
Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência
conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes
deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):
1.041:000 litros de vinho comum.
7:500 litros de vinhos licorosos.
11:000 litros de agua-ardente.
Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de
reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo
menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha
incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade,
poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve
atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da
precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a
raça.
Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo
contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país
menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim,
como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo
em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos
filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de
ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque
outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no
aviltamento físico e moral dos nossos filhos.
Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá porque assim o teem
demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que conscientes do
mal não descansam em lhe acudir com todos os preservativos e remédios
que a experiência lhes vai aconselhando, a salvação terá de começar pela
propagação do regime vegetariano que em semelhante missão, sem se
degradar e antes acrescendo as virtudes, passará d'um dever moral
imprescindível a uma utilidade social de primeira grandeza.
«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da
atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu
belo livro _Strength and Diet_, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o
_primeiro passo_, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa
vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para
nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse _embrutecimento_
do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as
consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças.
Porque _qualis enim esus, talis est potus_; tal comida, tal bebida.
Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da
vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a
sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo
contrário, absolutamente as confirmou.
Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa
embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos
de todas as demencias e abjecções.
O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de
consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da
gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em
seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de
repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a
descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente
constitucional e orgânica.
É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está
colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o
alcoolismo na sua maior fortaleza.
Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade
dizem as lições que os países estrangeiros nos facultam. Um só exemplo
invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna por 100
habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma taberna por
5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é gigantesco como
capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do acaso; foi o produto
do método, sistema e energia de vontade que todas as terapêuticas
aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por menor preço.
[A] Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra
coisa senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais
saboroso quanto mais perfeitamente se lhe houver dissipado a
exalação fetida primitiva. Qualquer dama de mãos mimosas que trinca
com delicia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em loiro, em
cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de nausea
sentindo o cheiro do açougue, considera imundicie um pedaço de carne
crúa nos seus vestidos e foge mais depressa da praça do peixe do que
da montureira que aduba a horta.
Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição
consistem em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento.
Ninguem jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem
a loiro ou feijões para cheirarem a salsa.
[B] Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo,
creança tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se
claramente a mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes
de roubar de qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem
á tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes
esteja á mão. Os assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de
tal forma isso parece estar na ordem natural que grande numero dos
homens rudes não lhes associa nem de longe a noção do crime. Longos
seculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas
tentações d'uma atiguidade biblica, as mesmas que desgraçaram Adão e
Eva.
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e a todos que desejem cultivar a saúde e a longevidade, praticando
racionalmente o frugivorismo (dieta crua), vegetarismo, higiene natural
pelos exercícios normais combinados com os banhos de ar, sol e água,
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animal da humanidade.
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em _couché_. Tratado completo de frugivorismo, vegetarismo, cura natural
pela dieta, ar, sol, água, exercício, etc., fabrico do vinho sem alcool
e adubo natural para as terras. O perigo da vacina, do alcoolismo, do
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pessoal das curas naturais de doenças rebeldes ou crónicas, etc., etc.,
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aos regimes naturais; vegetariano, vegetalino e frugivoro com
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Demonstração prática e racional do frutarismo scientifico.
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