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O Vegetarismo
e a Moralidade das raças
Composição e impressão
--Emprêsa Gráfica «A UNIVERSAL»--
DE FIGUEIRINHAS & MOTA RIBEIRO, L.^DA
--Rua Duque de Loulé, 111--Pôrto--
9.^o volume da
Biblioteca Vegetariana
Dr. Jaime de Magalhães Lima
O Vegetarismo
e a Moralidade das raças
--Notavel Conferencia realisada no
ATENEU COMERCIAL DO PORTO
em 14 de Junho de 1912------------
SOCIEDADE VEGETARIANA--Editôra
393, AVENIDA RODRIGUES DE FREITAS
PÔRTO
O vegetarismo e a moralidade das raças
I
Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. Não é uma doutrina nascida de
ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem
número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores
aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais
belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo
exemplo dos seus mais devotados apóstolos.
Sem nos afastarmos da nossa propria civilização, sem sairmos d'este fóco
de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os
nossos mais remotos avós se criaram e educaram, legando-nos um espólio
de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos
cumpre cultivar e aperfeiçoar para o transmitirmos aos nossos filhos
acrescentado em formosura e benefícios, emendado, corrigido e depurado
em seus vícios e insuficiências; dentro dêste círculo devéras estreito
relativamente aos largos espaços em que fóra dele outras raças e outras
condições naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e
honram a humanidade pelas concepções da vida que realizaram e de que
foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos à exígua
mancha do globo que é o nosso berço e o nosso lar e fazendo-o, não
porque além dele não conheçamos corações iguais aos nossos, vivendo do
mesmo alento, crentes na mesma fé e enamorados da mesma elevação mas
sómente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em
vista convêm não distrair a atenção do que de mais nos toca e por isso
será mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus
fachos de luz em volta do Mediterraneo e de lá a fez irradiar através
das montanhas até aos mares do norte, o vegetarismo foi e é uma das
caracteristicas do zenit moral das civilizações, e como tal o aceitaram,
proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreenderam
e mais brilhantemente as serviram.
O reconhecimento deste facto é hoje uma verdade corrente. O mais
rudimentar estudo do vegetarismo não deixará de o apontar. Por certo
somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de
vegetarianos que foram na história dos povos da Europa como signais da
sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas
nem é justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma
sublimada inspiração no-lo mostraram, nem tão pouco seria prudente que,
sómente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal
entre homens cultos, deixássemos de a repetir tão inumeráveis vezes
quantas necessárias fossem para que ela se propague e produza todos os
bens que só pela sua larga disseminação poderá produzir. E o
vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fieis
em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está
infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações
humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males
que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade.
Recordemos pois muito de passagem as lições dos profetas e mestres. É
dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa
que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria
educação imperiosamente nos aconselha.
De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que
arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às
multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva
animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!... Desde
que a nossa civilização pôde gravar seu rasto na história, a tradição do
vegetarismo jámais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco
séculos a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol
erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos
subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas,
mas jámais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios
que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do espírito.
A escola de Pitágoras cujas tradições de superioridade moral são
memoráveis e cuja profunda e duradoura influência na filosofia, na
sciência e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos
pre-socráticos até aos tempos do império romano, na Itália, na Grécia e
na Alexandria, seis séculos antes de Cristo, já reivindicava para a vida
de pureza moral a abstinência de alimentação carnívora, assim como de
todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo
sacrifício aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fôr a
estreiteza de informação escrita que do profeta de Samos e seus
discípulos nos houvesse ficado, o vigor da tradição por tal modo se
acentua neste ponto de regime dietético que não nos póde restar a menor
duvida de que nas origens da nossa civilização se encontra imposta, como
preceito fundamental, a abstinência de carne aos que pretenderem seguir
na vida o caminho da dignidade.
Cinco séculos mais tarde, essa tradição vive por tal forma na memória e
nas paixões íntimas dos grandes espíritos da época que Ovídio, o poeta,
no-la repetirá nestes termos:
«Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria
pelo ódio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado
comércio... O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em
um grande silêncio o admiravam...
«Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais:
doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe
atribuia.
«Deixai, mortais», dizia, «deixai de vos servir de manjares abomináveis:
dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as
árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes
legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o
leite não vos são defesos. Enfim para vós, a terra é pródiga de suas
riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis
para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem.
«Só aos animais convêm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam
dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as
feras, os tigres, os liões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento
habitual.
«Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres
animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para
conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro?
Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a
terra, dá aos homens com tamanha profusão, pródigamente, se tenha ainda
de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só
degolando animais seja possível cevar a nossa fome?
«Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que nós assim
chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o
homem não manchava a sua bôca com o sangue dos animais. As aves voavam
sem temor no meio dos ares... O universo tranqùilo desconhecia laços e
ciladas. Tudo era paz.
«Aquele, seja quem fôr, que para desgostar os homens dos alimentos
inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos
animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gênero; porque
foi sem dúvida pela carnificina dêsses animais que o ferro começou a ser
ensanguentado. Na verdade, é permitido tirar a vida aos animais que nos
atacam, mas não nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe
ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses...
«Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqùilos, que
dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais
despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais úteis quando vos
deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal,
incapaz de vos prejudicar e que não é senão para o trabalho?
«É necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos
dá a terra, quando vamos tirar da charrua esse animal tranqùilo, o
melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe
fatal nessa cabeça que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho
duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas.
«Não bastava aos homens cometerem tão grandes crimes, precisavam ainda
da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o
sacrificio d'um animal tão útil... Levam assim a vitima ao altar; lá,
recitam sôbre ela orações que ela não ouve; põe-lhe entre as pontas, que
foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo grão que ele cultivou, e
afunda-se-lhe no seio a lâmina sagrada...
«Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e
lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciáveis,
d'onde vem esta avidez que só póde fartar-se em carnes proìbidas. Deixai
tão criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando
comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos
lavrou o campo. Pois que é um deus que me inspira, só falo segundo a sua
vontade...
«As nossas almas são sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes
conforme os corpos que animam. Que a piedade não seja sacrificada à
vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas
dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue...
«É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e
ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos
comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos
das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes démos de comer. Ah!
quão pouco dista d'um enorme crime!
«Funesta aprendizagem! Deixai tranqùilamente o boi lavrar a terra e seja
a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do
rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras dão
para nos nutrir: parti os vossos laços e as redes, não mais o visco
engane a ave crédula. Não mais se leve ao cêrco o tímido veado,
perturbado com as penas que o espantam, e que não mais se oculte o anzol
em traiçoeiro engôdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas
contentai-vos em só lhes dar a morte e não os comer, e que só vos sirvam
alimentos legitimos.»
Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco séculos depois de
haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia o
talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época.
A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de
que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só
as circunstâncias de determinado momento haviam originado e
desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas
morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas
situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por
conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas.
De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e
acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização
refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens
cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça.
Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo,
lembra-a nestes termos de simpatia:
«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a
filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a
afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos
motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da
carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era
magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento
bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna
habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do
apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da
luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é
natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são
verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a
inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a
simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade?
Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres.
«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne,
e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas
delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais
activas... Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei esse
sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias
foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões estranhas
tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adesão
aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência de carne
dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade não tinha
medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas que odiava
a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos dietéticos,
e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a refeições
mais suntuosas»...
«Isto digo com a intenção de vos provar como são poderosos os primeiros
impulsos da mocidade para o que é mais verdadeiro e melhor, sob a
exortação e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa
dos nossos guias, que ensinam como se disputa e não como se vive: e em
parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem não tanto a
disposição do espírito como as faculdades da inteligência. D'esta forma,
o que foi filosofia, tornou-se em filologia». (_Epistola CVIII._)
Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua
época, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salústio, quer
que «sejam contados entre os animais inferiores e não entre os homens» e
lembra que «em tempos mais simples não havia necessidade em tão larga
escala de tantos médicos supranumerários, nem de tantos instrumentos
cirúrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A saúde era simples por uma
razão simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenças. Note-se que vasta
quantidade de vidas um estômago absorve--devastador da terra e do mar.
Não é de espantar que em tão discordante dieta a doença varie
incessantemente... contem os cozinheiros e não mais se espantarão do
número incontável das doenças humanas.»
Por êsse mesmo tempo Musónio Rufo, outro filósofo eminente, sectário
tambêm do melhor estoicismo, declarava «brutal» o uso da carne, «sómente
próprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a
inteligência. Os vapores que dele vem são túrbidos e escurecem a alma,
de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais
lentos em apreender.»
Mas para que alongar-nos em citações de nomes e rememoração de doutrinas
dos filósofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por
nocivo à justiça e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um só
homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais
exaltada sensibilidade moral, pôde por honra da espécie e glória da
humanidade resumir todo o problema dietético com uma profundeza
exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apóstolos da sua doutrina até
hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos
seculos pouco ou nada acrescentou?
Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo
século da éra cristã. São um monumento, até hoje e por certo para sempre
inabalável, da dignidade humana. Lá encontraremos a causa do vegetarismo
posta em termos de tal evidencia que constituem como a razão ultima da
sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiológico.
Perguntas-me, diz Plutarco, «por que motivos Pitágoras se absteve de se
alimentar com a carne dos animais. Pela minha parte, pasmo de que
espécie de sentimento, espirito ou razão estava possuido aquele que
primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os seus lábios
tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sôbre a sua mesa os
membros despedaçados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e
prato delicado o que ha pouco era um ser dotado de movimento, de
percepção e de voz?...
«Que luta pela existência ou que excitada loucura incitou a ensopar em
sangue as tuas mãos, a ti que tens sempre abundancia de todas as coisas
necessárias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse
incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza,
e desonras as doces e suaves dádivas de Baco, como se não tivesses nelas
o bastante? Não te envergonhas de misturar o assassinio e o sangue aos
seus frutos benéficos? Chamas selvagens e ferozes outros carnivoros, os
tigres, os liões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos
e em espécie alguma de barberie lhes ficas inferior. E para eles,
todavia, o assassinio é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma
lascivia supérflua. De facto, não são liões e lobos que nós matamos para
comer como em defeza própria o poderiamos faser--pelo contrário
deixamo-los incólumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que
não tem auxilio nem defesa,--a esses perseguimo-los e matamo-los,
àqueles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graça...
«Nada nos perturba, nem a beleza encantadora das suas formas, nem a
dorida doçura da sua voz e do seu grito nem a sua inteligencia, nem a
pureza da sua dieta nem a superioridade do entendimento. Só para ter um
pedaço da sua carne, privamo-los da luz do sol, da vida para que
nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de
queixume que eles soltam e voam em todas as direcções; quando na
realidade são instâncias e suplicas e rogos que cada um deles nos dirige
dizendo:--Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades
que queremos livrar-nos mas da complacente luxuria dos nossos apetites.»
Depois de mostrar com uma nitidez que é uma antecipação da sciencia
contemporânea como o carnivorismo não pode justificar-se pela anatomia
do homem, sem dentes nem garras nem boca nem intestinos que tal processo
de nutrição suponham ou autorizem, Plutarco aponta os subterfugios de
que nos servimos para consumar o nosso crime contra a natureza. Porque
não fazes como o lião e o tigre, pergunto, e não arrancas o coração á
tua vitima? «Nem mesmo depois que foi morta a comerás como veio do
açougue. Has-de fervê-la, assá-la e inteiramente a transformarás pelo
fogo e pelos condimentos. Completamente alteras e disfarças o animal
morto, usando dez mil ervas doces e especiarias, para que o vosso
paladar seja enganado e se prepare para receber o alimento que não é
natural. Foi uma admoestação própria e sagaz a do espartano que comprou
um peixe e o deu ao cozinheiro para o preparar. Quando este lhe pediu
manteiga e azeite e vinagre, respondeu-lhe:--Se eu tivesse tudo isso não
tinha comprado o peixe...
«A tal ponto fazemos do sangue uma luxuria que chamamos à carne
_delicadeza_ e logo reclamamos delicados condimentos para essa mesma
carne e misturamos azeite e vinho e mel e molhos e vinagre e todas as
especiarias da Síria e da Arábia, de todo o mundo, como se estivéssemos
a embalsamar um cadáver humano. Depois que todas estas substâncias
heterogênias se misturaram e dissolveram e até certo ponto se
corromperam,[A] cabe sem dúvida ao estômago assimilá-las, se podér. E
posto que isso possa no momento fazer-se, a sua consequencia natural é a
variedade de doenças produzidas pelas digestões imperfeitas e pela
repleição...
«Não é só contra a natureza da nossa constituição física o uso da carne.
O espírito e a inteligência tornam-se pesados pela supreabundância e
pela repleição; é possivel que a carne e o vinho tendam a dar robustez
ao corpo, mas para o espirito trazem sómente fraqueza.
«Além e acima de todas estas razões, não parecerá admirável criar
hábitos de filantropia? Quem é tão bondoso e gentil para os seres duma
outra espécie inclinar-se-á algum dia a injuriar o seu próprio gênero?
Lembro-me de ter ouvido em uma conversação, como dito por Xenócrates,
que os atenienses impunham penas a quem esfolasse viva uma ovelha.
Aquele que tortura um ser vivo é um pouco pior, parece-me, do que aquele
que sem necessidade priva da vida e mata rapidamente. Temos, ao que
parece, mais clara percepção do que é contrário à propriedade e ao
custume do que daquilo que é contrario à natureza...»
Com Plutarco, o vegetarismo, ou melhor, a condenação do carnivorismo
passou a ser nas preocupações morais do homem culto um caso julgado,
eloquentemente e inabavelmente julgado. Os que se lhe seguiram, e são
legião de gênios e de santos, nada acrescentaram às razões basilares dos
seus principios dietéticos, embora brilhantemente os interpretassem e
devotadamente os praticassem em um apostolado verdadeiramente religioso,
através de todas as contrariedades e adversidades. Os padres da igreja
cristã primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a pureza, não
se esqueceram, como não podiam esquecer-se, de verberar rigidamente as
crueldades e a insânia do carnivorismo. E os filósofos estranhos ao
cristianismo e até mesmo os que o combatiam mas que vinham repassados do
platonismo helênico não foram menos ardentes na flagelação d'aquele
vicio a todos os respeitos mortal.
Dêstes é notável pela solidez e desenvolvimento da argumentação que
emparelha a de Plutarco na repulsão do carnivorismo, Porfirio da
Alexandria, homem extraordinário, discípulo de Plotino. Santo Agostinho
coloca-o acima de Platão.
Para êsse tambem o vegetarismo era salvação de muita angústia e
tormento, desde que nem o médico nem o filósofo nem o atleta se atreviam
a afirmar que a dieta carnivora era melhor para a saúde e para o vigor.
Sendo assim, «porque», dizia, «não nos revoltamos e libertamos duma
supreabundância de inquietações? Para aquêle que se habitua a
contentar-se com o menor luxo, será isso a redenção não de uma mas de
mil inquietações--dos serviços de criados em excesso, duma multidão de
variados estorvos, dum estado físico de letargia e depressão, dum número
infinito de doenças severas, da necessidade dos médicos, do incentivo à
devassidão, de pesadas imaginações, de desordens infinitas e superfluas,
dos ferros de grosseiros hábitos do corpo, dos excesso de fôrça fisica
excitando a actos de violência--em suma, duma Ilíada de males. De tudo o
que o alimento inocente que não rouba a vida e que a todos é fácilmente
acessível nos liberta, dando paz à alma enquanto oferece ao corpo meios
de saúde. «Não é dos que comem o grão», diz Diógenes, «que vem as
guerras e a pirataria; mas é dos que comem carne que vem os tiranos e os
opressores».
E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na
dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do
carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós
mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como
os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos
dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, destroem
e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem de modo
algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim selvagens
por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e luxuriosos
prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos morticínios da
caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza bárbara e brutal
que torna os homens insensíveis ao sentimento da piedade e compaixão.
Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente
entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que os
discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais
inferiores um exercicio de filantropia e graça».
Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a
antiguidade nos legou.
Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade
média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma
renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas
nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma
doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias
dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a
expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar
da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem
as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis
das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja
católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um
frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em
quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica
que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam,
guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses,
esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que
toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses
herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre
os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S.
Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da
ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora.
No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura
antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos
primeiros tempos do império romano.
Vem o _Compêndio da Vida Sóbria_ do celebre Cornaro que, fraco e
arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a
vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a _Utopia_ de Tomás Moore,
a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais
«pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da
nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena
da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne.
Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova
brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades
do carnivorismo.
«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir
e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido
mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e
sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas
lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um
desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o
restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o
mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As
disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma
crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se
habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos
homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo
instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de
vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se
alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.»
Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de
consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu.
Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais
das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de
espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as
principais vantagens dos homens d'aquêle tempo o comércio que êles
tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo
as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo
que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo
fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim
de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima
nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu,
«sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas
acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.»
Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco,
enquanto medita a _Vida e Moral de Epicuro_ que sabiamente traçou,
encontrando, como este, «o bem supremo, _summum bonum_» no seu pequeno
jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet
que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana
páginas definitivas.
A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de
prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos
factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o
argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos
exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a
condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que
«está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem
de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que
vivem ordináriamente de substâncias vegetais».
Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem
reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a
severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de
simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer
frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será
apontada e castigada como infração de princípios supremos.
Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos
os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão
entre nobres e gente abastada:
«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce
em nós, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam
com a acção de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano,
enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes faculta as
delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca a
compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens sejam
tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a ostra, a
ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu intimo e a
sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós,
exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que
a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois
coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de
miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei
comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que
com prazer mataria meia dúzia de aves.
«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o
cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do
sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o
próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não
posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no
sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se
consuma.
«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer
que, tendo sido feitas as _coisas_ para utilidade do homem, não póde
haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas
tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz
lhe acusa a falsidade da asserção.
«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre
dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de
magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem
relutância uma galinha.
«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham
visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não
levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e
conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses
escrúpulos ás suas próprias aves, e recusam-se a comer daquelas que
sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de
coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi
comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer
coisa como a _consciência da culpa_; parece que se esforçam por se
salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de
si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da
primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a
violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.»
Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo
de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao
meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores
encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da
época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando
lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa
natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se
lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes
sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por
admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e
fisiológica.
«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano
seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre
as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania
sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação
inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos
ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta
responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os
torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus
tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais
poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens
e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece
fácil defender meramente por _sport_ a destruição de qualquer coisa que
tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos
primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza.
Mal nos tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um
passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos
homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a
caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal
autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a
agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores,
contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão
naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.»
«Mas se os nossos _sports_ são destruidores, muito mais o é a nossa gula
e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos
fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa
luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma
consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa
da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos,
como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas
provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição.
Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas
coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em
torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada
de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade
chacinou.»
Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau
e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.
Voltaire, no _Dicionário filosófico_, discorrendo sôbre a palavra carne,
escreveu:
«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a
moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito
tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino,
Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que
seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a
abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro
século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre
nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para
modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe que tinham
horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das suas
criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O escrito de
Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que, diz-se, se
fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber vinho.
Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes
conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais
inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum
filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que
êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais
como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos
princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento,
memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos
matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro
que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um
discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e
antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve
filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra
os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo
toda a virtude.»
Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco
sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do
seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente
empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma
regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o
vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da
criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das
provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença
das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão
aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.[B] É de
suprema importância que não se lhes desnature o gôsto primitivo e não se
tornem carnívoras, senão por motivos de saúde, pelo menos por causa do
carácter. Porque, seja qual fôr a explicação da experiência, é certo que
os grandes comedores de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que
os outros homens. Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em
todos os tempos. É bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo
contrário, são os mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis,
e não é a sua moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu
alimento. Vão para a guerra como para a caça e tratam os homens como
tratam os ursos. Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como
testemunhas legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos
endurecem-se para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os
ciclopes, que eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos
como um povo tão doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo
esquecia tudo e a sua pátria para viver com êle... Já se viu alguém
aborrecer o pão e a água? Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois
uma regra de vida. Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível
o seu gôsto primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e
vulgar; façamos que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas
naturais e que não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes
observei a gente que dá importância a _viver bem_, que pensa, mal
acorda, no que ha-de comer durante o dia e descreve um jantar com mais
exactidão do que Políbio usa na descripção duma batalha. Pensei que
todos esses chamados homens eram apenas crianças de quarenta anos, sem
vigor e sem consistência. A gula é o vício das almas que não teem fundo.
A alma do glutão está no seu paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua
estúpida incapacidade, só à mesa está à vontade. A sua capacidade de
julgar limita-se às suas iguarias.»
Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade
bem desbravado o terreno para deixarem voar livres os seus sonhos duma
nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o sangue
onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da
batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e
perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século
XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua
prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o
patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de
corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que
uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos
punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o
estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em
vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A
liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade.
O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de
gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é
minimo relativamente ao que importa conquistar.
Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o
próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar
os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo.
Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e
pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre
o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia
na regeneração física e moral das sociedades humanas.
A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta
dados primaciais do problema:
«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico,
verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da
raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez
um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o
temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias.
Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre
os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser
considerada como a razão fisiológica, como o princípio inicial da
corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias.
«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a
imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta
época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre
pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir
suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos
tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de
suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para
satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação
séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua
sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo
onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a
indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e
do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do
sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro
parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta
razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe
um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe
inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar
provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio:
nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á
sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de
tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos
especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus
animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que
recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos
inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das
circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para
climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á
fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde
os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um
animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só
para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa
conquista vastas províncias, subjuga raças frugivoras, funda por guerras
sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para gozar em
paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do que nunca;
aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição, exgota-se em
armamentos estéreis e vive num estado de _paz armada_ periodicamente
interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado do homem de
prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem de prêsa
especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo do que o
primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção sobre a
massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem de prêsa
domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela degenerado: «Do
mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz Wagner, do mesmo modo
vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se lentamente. Por causa do
alimento contra a natureza que êle usa, é vítima das doenças que só nêle
aparecem, e nunca alcança nem o termo normal dos seus dias nem uma morte
doce: sob o aguilhão de sofrimentos e de torturas que só êle conhece e
que lhe ferem o corpo como a alma, apressa-se através duma vida de
agitações vãs, para um fim sempre terrível».