XI

Fôra d’alli a condessa,

Não tardou em ir o rei:

—‘Quero ouvir o que elles dizem,

A ésta porta escutarei.’

Ouviu uma voz celeste

Como tal nunca ouvirei,

Cantando em doce toada

Este triste vireley:

—‘Já fui vinha bem cuidada,

Bem querida, bem trattada:

Como eu medrei!

Ora não sou nem serei:

O porquê não sei

Nem n’o saberei!’

Com as lagrimas nos olhos

Foi d’alli o bom do rei:

—‘Oiçamos agora o outro,

E o que sabe, saberei!’

—‘Minha vinha tam guardada!

Quando n’ella entrei

Rastos do ladrão achei;

Se me elle roubou não sei:

Como o saberei?’

Era o conde a lastimar-se.

Surrindo dizia o rei

(Se era de si ou do conde

Que elle se ria não sei):

—‘Eu fui que na vinha entrei,

Rastos de ladrão deixei,

Parras verdes levantei,

Uvas bellas

N’ellas—vi:

E assim Deus me salve a mi

Como d’ellas

Não comi!’

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 118 / 209 题