Fôra d’alli a condessa,
Não tardou em ir o rei:
—‘Quero ouvir o que elles dizem,
A ésta porta escutarei.’
Ouviu uma voz celeste
Como tal nunca ouvirei,
Cantando em doce toada
Este triste vireley:
—‘Já fui vinha bem cuidada,
Bem querida, bem trattada:
Como eu medrei!
Ora não sou nem serei:
O porquê não sei
Nem n’o saberei!’
Com as lagrimas nos olhos
Foi d’alli o bom do rei:
—‘Oiçamos agora o outro,
E o que sabe, saberei!’
—‘Minha vinha tam guardada!
Quando n’ella entrei
Rastos do ladrão achei;
Se me elle roubou não sei:
Como o saberei?’
Era o conde a lastimar-se.
Surrindo dizia o rei
(Se era de si ou do conde
Que elle se ria não sei):
—‘Eu fui que na vinha entrei,
Rastos de ladrão deixei,
Parras verdes levantei,
Uvas bellas
N’ellas—vi:
E assim Deus me salve a mi
Como d’ellas
Não comi!’