No camarim da condessa
Tudo andava á mesma lei,
Era o ceo d’aquelle anjo:
Que mais vos diga não sei.
Riccas sedas de Millão,
Toalhas de Courteney...
Tremia o rei—se era susto,
Se era de gôsto não sei.
Cortinas de seda verde
Vai ergo não erguerei...
Tal clarão lhe deu na vista,
Como não cahiu não sei.
Era uma tal formosura...
Ora que mais vos direi?
Outro primor como aquelle
Não vistes nem eu verei.
Verdes parras tem a vinha,
Riccas uvas lhe avistei,
Tam formosas, tam maduras,
Estão dizendo ‘comei!’
V
Dormia tam descançada
Como eu no ceo dormirei
Quando for tam innocente...
Jesus! se eu lá chegarei!
De joelhos toda a noite
Alli fica o bom do rei,
Pasmado a olhar para ella
Sem bulir nem mão nem pei[18].
E dizia:—‘Senhor Deus!
Perdoae-me o que já pequei,
Mas este anjo de innocencia
Não sou eu que offenderei.
Tem verdes parras a vinha;
Lindas uvas que eu lhe achei,
Tenho medo que me travem...
D’ellas, ai! não comerei.