IV

No camarim da condessa

Tudo andava á mesma lei,

Era o ceo d’aquelle anjo:

Que mais vos diga não sei.

Riccas sedas de Millão,

Toalhas de Courteney...

Tremia o rei—se era susto,

Se era de gôsto não sei.

Cortinas de seda verde

Vai ergo não erguerei...

Tal clarão lhe deu na vista,

Como não cahiu não sei.

Era uma tal formosura...

Ora que mais vos direi?

Outro primor como aquelle

Não vistes nem eu verei.

Verdes parras tem a vinha,

Riccas uvas lhe avistei,

Tam formosas, tam maduras,

Estão dizendo ‘comei!’

V

Dormia tam descançada

Como eu no ceo dormirei

Quando for tam innocente...

Jesus! se eu lá chegarei!

De joelhos toda a noite

Alli fica o bom do rei,

Pasmado a olhar para ella

Sem bulir nem mão nem pei[18].

E dizia:—‘Senhor Deus!

Perdoae-me o que já pequei,

Mas este anjo de innocencia

Não sou eu que offenderei.

Tem verdes parras a vinha;

Lindas uvas que eu lhe achei,

Tenho medo que me travem...

D’ellas, ai! não comerei.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 113 / 209 题