Foi verdadeiramente reconstruida ésta xácara dos fragmentos soltos da
composição popular antiga, como hoje se reconstruiria das pedras cahidas
de uma tôrre velha,—não exactamente o mesmo edificio, porque o cimento, e
algum inchume novo aqui ou alli, seria mister impregar—mas quasi a mesma
coisa; na fórma e nos materiaes a mesmissima.
Vieram-me de Evora os fragmentos por intervenção do Sr. Rivara, o habil
e zeloso bibliothecario d’aquella cidade: são parte em prosa, parte em
verso, estado em que alguns d’estes fósseis se desinterram ás vezes.
Verifiquei depois que pelas vizinhanças de Lisboa se incontravam na mesma
fórma e quasi os mesmos.
Deixei-lhe com mais seguridade o titulo de xácara que trazem muitos
outros de nossos romances populares, porque effectivamente creio que
quadra mais aos d’esta especie de narrativa que é feita dramaticamente
pelos dizeres de um e outro dos seus personagens, emquanto o poeta pouco
ou nada diz epicamente elle mesmo.
Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as tres
especies, romance, xácara, soláo: no romance predomina a fórma epica,
conta e canta principalmente o poeta; na xácara prevalece a fórma
dramatica, diz o poeta pouco, ás vezes nada—fallam os seus personagens
muito: o soláo é mais plangente e mais lyrico, lamenta mais do que
reconta o facto, tem menos dialogo e mais carpir: ás vezes, como no soláo
da Ama em Bernardim-Ribeiro, não ha senão o lamento de uma só pessoa que
vai alludindo a certos successos, mas que os não conta.
Apezar do que levo ditto no princípio d’estas linhas, como não posso
negar que ha bastante do meu cimento no ligar e assentar das pedras
velhas, e ellas eram tam poucas e tam sôltas, escrupulisei de pôr ésta
peça no II livro do ROMANCEIRO paraque me não accusassem de macaquear as
imposturas de Macpherson ou de Fr. Bernardo de Brito.
A anecdota, que eu deixei religiosamente como a refere o povo, parece
dever ter sido algum facto que realmente acontecesse:—como, quando
e aonde? Não pude encontrar vestigio. É o que diz o pobre do conde,
scismando:
O chapim aqui o tenho,
O chapim bem n’o topei:
mas cujo é, e a que pé serve, só se voltar do outro mundo o dito rei para
no-lo dizer.
Lisboa, 27 de Março de 1843.
* * * * *
No appendice ao II livro do ROMANCEIRO achará o leitor a versão ingleza
d’esta xácara, publicada pelo Sr. Adamson na sua LUSITANIA ILLUSTRADA,
part. II.
Abril, 17—1853.