Oh que choros vão no paço
Oh que luttos, que tristeza!
Morre, morre a cada instante
A nossa linda princeza.
Os physicos não se intendem,
Vão-se uns e outros vêem;
Mas o mal que ella padece
Não lh’o descobre ninguem.
Nos olhos que se lhe inturvam,
Ja treme a luz derradeira.
Resa o officio da agonia
Negro monge á cabeceira.
Se inda chegará a tempo
D’essas guerras d’além-mar
O bom do rei, que inda possa
A sua filha abraçar!
A filha que elle ama tanto,
Unica filha querida,
A menina dos seus olhos,
Bordão da cansada vida!
Pois chegou. Tanto captivo,
Tanto despôjo que traz!...
Com victorias o inganava
Fortuna, que acinte o faz.
Pelas portas de palacio
O real cortêjo entrava,
Olha o rei a um lado e outro,
Nem uma voz o acclamava...
Pela filha, que não via,
Não se atreve a perguntar,
Mas ao quarto da princeza
Foi direito sem parar:
—‘Minha filha, minha filha!
Que tens tu, filha querida?’
E ella abria os olhos turvos
Que ja não teem quasi vida...
‘Ametade do meu reino,
Da minha c’roa real,
A quem salvar a princeza,
Quem acertar c’o este mal.’
A éstas palavras do pae
Meneia a pallida frente,
Como quem diz:—‘Não o entendem,
Nem cura o meu mal consente.’
—‘São pezares... não se sabe...’
Responde o physico-mor,
‘Outro mal lhe não descubro...
Só se for o mal d’amor.’
Um rubor desfallecido
Assomou na face lenta
Que já do suor da morte
Se cobria macilenta.
Os olhos, que no pae tinha
Cravados desde que o viu,
Com mostras de pêjo e medo
Para a terra os descahiu.
—‘Não tenhas, filha, receio,
Levanta os olhos, querida;
Seja quem for, será teu:
Jurei-o por tua vida.
‘Seja elle ou ricco ou pobre,
Seja fidalgo ou peão,
Desde já por genro o tómo,
E aqui lhe dou tua mão.’
Como quem o último esfôrço
De doce mágoa fazia,
Com ineffavel brandura
Os olhos ao pae erguia;
Suave, longo suspiro
D’entre os labios lhe fugiu...
Era a vida que passava,
Que sem dor se despediu.
Foram para a amortalhar,
No peito um signal lhe achavam
De letras que ninguem leu,
Que estranhas fórmas tomavam.
Sette sabios são chamados
Para haver de as deciphrar:
Cada-um sette linguas sabe,
Não n’as podem soletrar.
Só o mais velho dos sette,
Que andára na Palestina,
Disse:—‘Outras letras como éstas
Eu já vi n’uma ruina,
‘Junto dos cedros do Libano,
Ja meio entre a terra e os ceos,
Do tempo que ás filhas do homem
Fallavam anjos de Deus.
‘Mas le-las não sei nem posso:
Nem que soubesse, o fizera:
Segredos são d’outro mundo
Que, n’este, Deus não tolera.’
No alto d’aquelle monte
Um alto cedro nasceu;
Ou anjos o semearam,
Ou foram aves do ceo,
Que ali cresceu de repente,
De uma noite para um dia;
E outro igual em todo o reino
Como aquelle não havia:
Foi a noite que a princeza
Alli veio a sepultar:
Era um sitio seu querido
Donde sohia de estar,
Aonde horas esquecidas,
Sósinha, de quando em quando,
Com as estrellas do ceo
Parecia estar fallando;
E onde, uma noite sem lua
Que as estrellas mais brilhavam,
Houve quem visse nos ares
Umas roupas que alvejavam,
E descer a pouco e pouco,
E aopé da infanta parar
Um vulto... visão... ou sombra...
Mas sombra de luz sem par:
E foi desd’aquella noite
Que a não viu mais rir ninguem.
Anjo era o que lhe fallava...
Mas se de Deus... ou de quem?...
V