Oh! que procissão que sai
Da antiga porta da tôrre!
Que gente que acode a vê-la,
Que povo que triste corre!
Tochas de pallida cera
Nas trevas da noite escura
Vão dando luz baça e triste,
Luz que guia á sepultura:
Cubertos com seus capuzes
Rezam frades ao-redor,
A dobrar desintoados
Os sinos causam terror...
Duas noites são passadas,
Já não ha luz na setteira,
Mas passando e repassando
Anda a barca aventureira.
Linda barca tam ligeira
Que nenhum mar soçobrou,
O farol que te guiava,
Ja não luz, ja se apagou.
A tua linda Violante,
O teu incanto tam bello,
Teve por ti feia morte,
Crua morte de cutello.
Na egreja de San’Gil
Ouves a campa a dobrar?
Ves essas tochas ao longe?
Ella que vai a interrar.
Ja se fez o interramento,
Ja cahiu a louza fria,
Só na egreja solitaria
Um cavalleiro se via;
Vestido de dó tam negro,
E mais negro o coração,
Sôbre a fresca sepultura
De rôjo se atira ao chão:
—‘Abre-te, ó campa sagrada,
Abre-te a um infeliz!...
Seremos na morte unidos,
Ja que em vida o ceu não quiz.
‘Abre-te, ó campa sagrada
Que escondes tal formosura,
Esconde tambem meu crime
Com a sua desventura.
‘Vida que eu viver não quero,
Vida que eu só tinha n’ella,
Recebe-a, ó campa sagrada,
Que não posso já soffrê-la.’
E o pranto de correr,
E os soluços de estallar,
E a mão que leva á espada
Para alli se traspassar.
Mas a mão gelou no punho
Voz que da campa se erguia,
Voz que ainda é suave e doce,
Mas tam medonha e tam fria,
Do sepulchro tão cortada,
Que as carnes lhe arripia
E a vida deixou parada:
—‘Vive, vive, cavalleiro,
Vive tu, que eu ja vivi;
Morte que me deu meu crime,
Fui eu só que a mereci.
‘Ai n’este gêlo da campa,
Onde tudo é frio horror,
Só da existencia conservo
Meu remorso e meu amor!
‘Braços com que te abraçava
Ja não teem vigor em si;
Cobre a terra humida e dura
Os olhos com que te vi;
‘Bôcca com que te bejava
Ja não tem sabor em si;
Coração com que te amava...
Ai! só n’esse não morri!
‘Vive, vive, cavalleiro,
Vive, vive e sê ditoso;
E apprende em meu triste fado
A ser pae e a ser espôso.
‘Donzella com quem casares
Chama-lhe tambem Violante;
Não amará mais do que eu...
Mas—que seja mais constante!
‘Filhas que d’ella tiveres
Ensina-as melhor que a mim,
Que se não percam por homens
Como eu me perdi por ti.’