III

Oh! que procissão que sai

Da antiga porta da tôrre!

Que gente que acode a vê-la,

Que povo que triste corre!

Tochas de pallida cera

Nas trevas da noite escura

Vão dando luz baça e triste,

Luz que guia á sepultura:

Cubertos com seus capuzes

Rezam frades ao-redor,

A dobrar desintoados

Os sinos causam terror...

Duas noites são passadas,

Já não ha luz na setteira,

Mas passando e repassando

Anda a barca aventureira.

Linda barca tam ligeira

Que nenhum mar soçobrou,

O farol que te guiava,

Ja não luz, ja se apagou.

A tua linda Violante,

O teu incanto tam bello,

Teve por ti feia morte,

Crua morte de cutello.

Na egreja de San’Gil

Ouves a campa a dobrar?

Ves essas tochas ao longe?

Ella que vai a interrar.

Ja se fez o interramento,

Ja cahiu a louza fria,

Só na egreja solitaria

Um cavalleiro se via;

Vestido de dó tam negro,

E mais negro o coração,

Sôbre a fresca sepultura

De rôjo se atira ao chão:

—‘Abre-te, ó campa sagrada,

Abre-te a um infeliz!...

Seremos na morte unidos,

Ja que em vida o ceu não quiz.

‘Abre-te, ó campa sagrada

Que escondes tal formosura,

Esconde tambem meu crime

Com a sua desventura.

‘Vida que eu viver não quero,

Vida que eu só tinha n’ella,

Recebe-a, ó campa sagrada,

Que não posso já soffrê-la.’

E o pranto de correr,

E os soluços de estallar,

E a mão que leva á espada

Para alli se traspassar.

Mas a mão gelou no punho

Voz que da campa se erguia,

Voz que ainda é suave e doce,

Mas tam medonha e tam fria,

Do sepulchro tão cortada,

Que as carnes lhe arripia

E a vida deixou parada:

—‘Vive, vive, cavalleiro,

Vive tu, que eu ja vivi;

Morte que me deu meu crime,

Fui eu só que a mereci.

‘Ai n’este gêlo da campa,

Onde tudo é frio horror,

Só da existencia conservo

Meu remorso e meu amor!

‘Braços com que te abraçava

Ja não teem vigor em si;

Cobre a terra humida e dura

Os olhos com que te vi;

‘Bôcca com que te bejava

Ja não tem sabor em si;

Coração com que te amava...

Ai! só n’esse não morri!

‘Vive, vive, cavalleiro,

Vive, vive e sê ditoso;

E apprende em meu triste fado

A ser pae e a ser espôso.

‘Donzella com quem casares

Chama-lhe tambem Violante;

Não amará mais do que eu...

Mas—que seja mais constante!

‘Filhas que d’ella tiveres

Ensina-as melhor que a mim,

Que se não percam por homens

Como eu me perdi por ti.’

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 86 / 209 题