II

E o sol ja no oriente erguido

Da tôrre ameias dourava;

Violante mais bella que elle

Para a morte caminhava:

Alva tella aspera e dura

Veste o corpo delicado,

Por cintura rijo esparto

Em grosseiro laço atado.

Choram pagens e donzellas,

Que a piedade o crime esquece;

O proprio offendido espôso

Com tal vista se internece.

Dá signal a campa triste,

O algoz o cutello affia...

—‘Meu senhor mereço a morte’

A malfadada dizia,

‘De joelhos, D. Ramiro,

Humilde perdão vos peço,

Perdoae-me por piedade...

A morte não, que a mereço:

‘Da affronta que vos hei feito

Por minha triste cegueira,

Dae-me quitação co’a morte

N’ésta hora derradeira:

‘Mas só eu sou criminosa

Do aggravo que vos fiz,

Não tireis, senhor, vingança

D’esse misero, infeliz...’

Talvez ia perdoar-lhe

O espôso compadecido...

Renovou-se-lhe o odio todo,

D’aquelle rôgo offendido:

O semblante roxo d’ira

Para não vê-la torceu,

E co’ a esquerda mão alçada

O fatal accêno deu.

Sôbre o collo crystallino,

Desmaiado, e inda tam bello,

De golpe tremendo e subito

Cai o terrivel cutello.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 85 / 209 题