E o sol ja no oriente erguido
Da tôrre ameias dourava;
Violante mais bella que elle
Para a morte caminhava:
Alva tella aspera e dura
Veste o corpo delicado,
Por cintura rijo esparto
Em grosseiro laço atado.
Choram pagens e donzellas,
Que a piedade o crime esquece;
O proprio offendido espôso
Com tal vista se internece.
Dá signal a campa triste,
O algoz o cutello affia...
—‘Meu senhor mereço a morte’
A malfadada dizia,
‘De joelhos, D. Ramiro,
Humilde perdão vos peço,
Perdoae-me por piedade...
A morte não, que a mereço:
‘Da affronta que vos hei feito
Por minha triste cegueira,
Dae-me quitação co’a morte
N’ésta hora derradeira:
‘Mas só eu sou criminosa
Do aggravo que vos fiz,
Não tireis, senhor, vingança
D’esse misero, infeliz...’
Talvez ia perdoar-lhe
O espôso compadecido...
Renovou-se-lhe o odio todo,
D’aquelle rôgo offendido:
O semblante roxo d’ira
Para não vê-la torceu,
E co’ a esquerda mão alçada
O fatal accêno deu.
Sôbre o collo crystallino,
Desmaiado, e inda tam bello,
De golpe tremendo e subito
Cai o terrivel cutello.