Do castello para um lado
Uma antiga tôrre havia
Cercada de largos fossos,
Que é memoria haver fundado
Um rei mouro que vivia
Ha muito, de quando os nossos
Mourisca gente regia.
Alli uma espôsa sua,
Que elle achou ser-lhe infiel,
Sette annos e mais um dia
Fechada a teve o cruel,
Sozinha, a grilhões e nua;
E só pão sêcco lhe dava,
Mas agua não consentia
Que nunca ninguem lh’a desse
Para que á sêde morresse.
Valeu-lhe quem tudo póde,
Que ao infeliz sempre accode:
Vinha-lhe orvalho do ceo,
De que os sette annos bebeu.
E emfim o septimo anno
De tal milagre vencido
Foi o proprio rei tyranno,
Que a liberdade lhe deu,
E do crime commettido,
Se o havia, se esqueceu.