XVII

Do castello para um lado

Uma antiga tôrre havia

Cercada de largos fossos,

Que é memoria haver fundado

Um rei mouro que vivia

Ha muito, de quando os nossos

Mourisca gente regia.

Alli uma espôsa sua,

Que elle achou ser-lhe infiel,

Sette annos e mais um dia

Fechada a teve o cruel,

Sozinha, a grilhões e nua;

E só pão sêcco lhe dava,

Mas agua não consentia

Que nunca ninguem lh’a desse

Para que á sêde morresse.

Valeu-lhe quem tudo póde,

Que ao infeliz sempre accode:

Vinha-lhe orvalho do ceo,

De que os sette annos bebeu.

E emfim o septimo anno

De tal milagre vencido

Foi o proprio rei tyranno,

Que a liberdade lhe deu,

E do crime commettido,

Se o havia, se esqueceu.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 59 / 209 题