—‘Portas do castello, abri-vos,
Correi, pagens e donzellas,
Que é chegado meu senhor,
Meu espôso e meu amor!’
Auzenda bradava e corre.
Portas se abrem, soam vivas,
E o echo da antiga tôrre
Com o som festivo acordou.
—‘Viva, viva Dom Sisnando!’
E o tropel que dobra e cresce,
E ás portas que chega o bando
Dos guerreiros triumphantes.
Do corcel suberbo desce
E aos braços anhelantes
Da cara espôsa voou.
Doce amor que os apertou
Não lhes deixou mais sentidos
Que para se ver unidos,
Ajuntar-se peito a peito,
E em laço tam brando e estreito
Longa saudade afogar.
A Auzenda gotteja o pranto,
Pranto que é todo alegria;
E o rosto que nunca infia
Do esforçado lidador
Tambem sentiu—mais que a dor
Póde o gôso!—descuidada
Uma lagryma sensivel
De seus olhos escapada.
X
Mas as lagrymas de gôsto,
Como as de mágoa, teem fim;
Dom Sisnando inchuga o rosto,
E tomando a mão á espôsa:
—‘D’onde vem, lhe diz, senhora,
Que a joia mais preciosa
Não vejo d’estes meus paços,
D’onde vem que aos meus abraços
Minha filha?..’ A filha bella,
Pasmada, trémula, a um lado,
O rosto ao chão inclinado,
Parecia humilde estrella
Que ao primeiro raio vivo
Do sol que no alvor reluz
Não fica, não, menos bella,
Porêm pállida e sem luz.