IX

—‘Portas do castello, abri-vos,

Correi, pagens e donzellas,

Que é chegado meu senhor,

Meu espôso e meu amor!’

Auzenda bradava e corre.

Portas se abrem, soam vivas,

E o echo da antiga tôrre

Com o som festivo acordou.

—‘Viva, viva Dom Sisnando!’

E o tropel que dobra e cresce,

E ás portas que chega o bando

Dos guerreiros triumphantes.

Do corcel suberbo desce

E aos braços anhelantes

Da cara espôsa voou.

Doce amor que os apertou

Não lhes deixou mais sentidos

Que para se ver unidos,

Ajuntar-se peito a peito,

E em laço tam brando e estreito

Longa saudade afogar.

A Auzenda gotteja o pranto,

Pranto que é todo alegria;

E o rosto que nunca infia

Do esforçado lidador

Tambem sentiu—mais que a dor

Póde o gôso!—descuidada

Uma lagryma sensivel

De seus olhos escapada.

X

Mas as lagrymas de gôsto,

Como as de mágoa, teem fim;

Dom Sisnando inchuga o rosto,

E tomando a mão á espôsa:

—‘D’onde vem, lhe diz, senhora,

Que a joia mais preciosa

Não vejo d’estes meus paços,

D’onde vem que aos meus abraços

Minha filha?..’ A filha bella,

Pasmada, trémula, a um lado,

O rosto ao chão inclinado,

Parecia humilde estrella

Que ao primeiro raio vivo

Do sol que no alvor reluz

Não fica, não, menos bella,

Porêm pállida e sem luz.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 25 / 209 题