SHAKSPEARE.

I

Onde vas tam alva e linda,

Mas tam triste e pensativa

Pura, celeste Adozinda,

Da côr da singella rosa

Que nasceu ao-pé do rio?

Tam ingenua, tam formosa

Como a flor, das flores brio

Que em serena madrugada

Abre o seio descuidada

A doce manhan d’Abril!

—Roupas de seda que leva

Alvas de neve que cega

Como os picos do Gerez

Quando em Janeiro lhe neva.

Cinto côr de violeta

Que á sombra desabrochou;

Cintura mais delicada

Nunca outro cinto apertou.

Anneis louros do cabello

Como o sol resplandecentes

Folgam soltos; dá-lh’o vento,

Dá no veo ligeiro e bello,

Veo por suas mãos bordado,

De um sancto ermitão fadado

Que vinha da Palestina;

Passou pelo povoado,

Foi-se direito ao castello

Pediu pousada, e lh’a deram

Porque intercede a menina:

Que o pae suberbo e descrido,

—‘N’essa gente peregrina,

Disse, quem sabe o que vem?’

—Mas pede Adozinda bella,

Tal virtude e formosura,

Quem lh’o hade negar a ella?

Não póde o pae nem ninguem.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 18 / 209 题