I
Onde vas tam alva e linda,
Mas tam triste e pensativa
Pura, celeste Adozinda,
Da côr da singella rosa
Que nasceu ao-pé do rio?
Tam ingenua, tam formosa
Como a flor, das flores brio
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
A doce manhan d’Abril!
—Roupas de seda que leva
Alvas de neve que cega
Como os picos do Gerez
Quando em Janeiro lhe neva.
Cinto côr de violeta
Que á sombra desabrochou;
Cintura mais delicada
Nunca outro cinto apertou.
Anneis louros do cabello
Como o sol resplandecentes
Folgam soltos; dá-lh’o vento,
Dá no veo ligeiro e bello,
Veo por suas mãos bordado,
De um sancto ermitão fadado
Que vinha da Palestina;
Passou pelo povoado,
Foi-se direito ao castello
Pediu pousada, e lh’a deram
Porque intercede a menina:
Que o pae suberbo e descrido,
—‘N’essa gente peregrina,
Disse, quem sabe o que vem?’
—Mas pede Adozinda bella,
Tal virtude e formosura,
Quem lh’o hade negar a ella?
Não póde o pae nem ninguem.