E s. ex.ª não chegou ainda n'esse dia.
O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da
rua Direita e travessas affluentes.
Chega o Muxagata! Não chega o Muxagata! Á noite, os criados, vendo que o
patrão já não chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado
para elle.
Passou assim uma semana.
Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido á porta do Muxagata. Foi muita
gente ás janellas. Não era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma
belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo á porta
da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata já estava no Porto,
e havia comprado aquelle bello exemplar _pur sang_ ao Côrte Real de Traz
da Sé por tresentas libras.
Finalmente, á noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e
outros amigos. Vinham a pé, todos de esporas e chicote. E antes de
subir, foram á cocheira examinar os cavallos.
Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera.
Foram jantar. O Ricardo Brown, o Côrte-Real e outros _sportmen_ caíram
logo lá. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era o
_monte_. Muxagata, depois das libações do jantar, gostava de fazer o seu
berlote.
Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, ás 7 horas, já o
Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.
Varias pessoas foram vêr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro á
espera dos dois melhores espectaculos que os _mirones_ apanhavam: o
banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o
banho da Cacilda, filha do banheiro Leão, que nadava para o mar largo.
Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um
sótão da rua de S. João Novo, que travei relações com o Muxagata.
Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flôr dos
_sportmen_ da Foz, me tratasse mano a mano.
Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no
seu garbo de cavalleiro pelos hospedes do _Hotel da Boa Vista_, dizia-me
adeus com o chicote, e eu parava muito ancho, dando-me ares de
entendedor, até o vêr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa
acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar ás
upas.
Havia sempre senhoras no balcão de pedra, que tinha um toldo listrado de
branco e escarlate.
Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de
Lamego. Falava-se que os irmãos d'ella o queriam matar. Mas não morreu
ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera
estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella
raptada. A historia do rapto augmentára-lhe a nomeada de fidalgo
extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa
lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente á Foz por Lordello do
Ouro; voltavam por Miragaia.
Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas,
sentindo o tropel dos cavallos, vinham á porta. O escandalo d'aquella
mancebia publica indignava-os; não obstante, cumprimentavam risonhamente
o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.
Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e
lenço branco serviam o chá. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como
um homem entre os homens.
_Saltava_ nos valetes, e _fazia cerco_ ás quinas.
Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se
uma boa portuguesa de Lamego.
Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos
dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.
Usava o cabello apartado ao lado, com duas _bellezas_. Chamava-se
_bellezas_ aos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa
tentadora, que desappareceu da circulação.
--É verdade! obtemperou o Leotte.
Prohibiram-lhe que interrompesse.
O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como um _deboche_ de
_toillette_. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e
nas mãos, especialmente nas mãos.
Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram
n'aquelle tempo outro _deboche_ de _toilette_. As mulheres não cheiravam
a nada ou cheiravam mal.
Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez
annos ás outras portuguezas em _mise-en-scène_ de _coquettismo_. D.
Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas
aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos
presuntos de Lamego póde nascer tão _coquette_ a dois passos da serra da
Gralheira, quanto uma creatura nascida entre os jardins de Harlem
póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.
De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa,
desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando
precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em
tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se
representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto
domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D.
Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que
nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a
conveniencia das aptidões theatraes da artista.
Rodaram mais dois annos.
A casa da rua das Fontainhas continuava a ser o _rendez-vous_ dos
estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do
Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda
o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma
pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos
appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.
Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua
principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito.
Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em grande quantidade,
mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e
outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam
atrazados.
Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar
rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos.
Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi
perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas.
Não saía a pé nem a cavallo.
Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho
de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia
os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o
fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.
Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar
introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr.
Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em
companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.
A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em
abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives
do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se
á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario.
O regedor Antonio Pedro, emquanto os cabos de policia dormiam á
sombra das arvores, _micava_ no rei.
Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na
feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o
Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.
--Que sim; que estava ali para cima a jogar.
--Mas que veiu elle cá fazer?
--Anda aos fóros. Quer dinheiro.
N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:
--Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena já começa a pôr o seu
barrete de nevoa. É a _toilette_ de noite. Vamos indo para baixo. Depois
de jantar se acabará o conto.
--Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonçallinho.
--Isso é lá como quizerem. Que não esqueça o fio da historia. O Muxagata
estava na feira e queria dinheiro--como eu.
--Como nós todos! gritaram uns poucos.
--A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.