O almôço foi uma devastação, uma hecatombe.
Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que só se tornava a
almoçar... no outro dia.
Quando saímos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde
se começaria? Os fumos capitosos do almôço accenderam brios quixotescos
no espirito da maioria dos nove. A burro e á Pena! era o grito do
Vasconcellos, reforçado por mais cinco ou seis vozes.
--Mas isso é a semsaboria de toda a gente! disse o Gonçallinho.
--Ó meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez
fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e á Pena! insistiu.
Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro cêrco,
largaram a correr para ir buscar os burros.
Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:
--Já perguntei no _Victor_, e não ha lá hospeda nenhuma. Mas ha criadas,
ao menos.
E d'ahi a pouco dizia-me o Gonçallinho, tambem em tom de confidencia,
muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo
da encosta:
--Como isto é bello!
A burricada á Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante,
cheia de episodios comicos. Quando o burro não caía, caía o cavalleiro;
e as mais das vezes caíam ambos.
N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu
despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um
verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos nós sentados junto ao
_Chalet de Madame_, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:
--Agora, sim senhor. Agora é occasião propicia de darmos principio ao
nosso _Decameron_. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.
Era eu. Pois não houve meio de resistir.
--Ora então, senhores e...
--Senhoras não ha infelizmente! exclamou o Leotte.
--Peço attenção, que eu principio.
E principiei.
--O morgado de Muxagata, ou simplesmente o _Muxagata_, como elle era
conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego,
na aldea d'aquelle nome.
Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que
lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e
lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido
aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.
Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se
perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e
boleeiro.
Ha sempre um para amostra.
Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a
menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio
era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por
investir com a onda.
O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos
hombros.
Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía
alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado
como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.
Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua
Bella.
Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e
um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio
chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos,
e palha.
Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.
Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da
Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.ª
Mas s. ex.ª não chegou.