A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido.
Ouvíra, assentada impaciente á porta de sua casa, darem oito horas, oito
e meia; nove, nove e meia. «Que teria acontecido, Mãe Santissima ... Pois
o homem ainda não estava prompto de todo e punha-se ao fresco,
mal engolira o jantar, para demorar-se d'aquelle modo?... Elle que nunca
fôra capaz de semelhantes tonteiras!...»
--Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!
Foi até ao portão da estalagem, perguntou a conhecidos que passavam se
tinham visto Jeronymo; ninguem dava noticias d'elle. Sahio, correu á
esquina da rua; um silencio de cansaço bocejava n'aquelle resto de
domingo; ás dez e meia recolheu-se sobresaltada, com o coração a
sahir-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ella acudisse ao
primeiro toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo
o candieiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com assucar
e manteiga ficou intacta sobre a meza.
Não conseguio dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para longe o
somno. Começou a imaginar perigos, rôlos, em que o seu homem recebia
novas navalhadas; Firmo figurava em todas as scenas do delirio; em todas
ellas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de um para
outro lado do colchão, a infeliz ia cahindo em modorra, o mais leve
rumor lá fóra a fazia erguer-se de pulo e correr á rotula da janella.
Mais não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de nenhuma
das vezes.
Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais afflicta; na sua
sobre excitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as
agoas do mar, embarcado, entregue unicamente á protecção da Virgem,
em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratorio e rezou
com a voz emmaranhada por uma agonia suffocadora. A cada trovão
redobrava o seu sobresalto. E ella, de joelhos, os olhos fitos na imagem
de Nossa Senhora, sem consciencia do tempo que corria, arfava
soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver sozinha,
como se só n'aquelle instante déra pela falta do marido a seu lado.
Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de pedir
soccorro; as sombras espichadas em volta do candieiro, tracejando
tremulas pelas paredes e pelo tecto, pareciam querer dizer-lhe alguma
coisa mysteriosa. Um par de calças, dependurado á porta do quarto, com
um paletó e um chapéo por cima, representou-lhe de relance o vulto de
um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quiz saber que horas
eram e não poude; afigurava-se-lhe terem decorrido já tres dias pelo
menos durante aquella afflicção. Calculou que não tardaria a
amanhecer, se é que ainda amanheceria; se é que aquella noite infernal
não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais apparecer o sol!
Bebeu um copo d'agoa, bem cheio, apezar de haver pouco antes tomado
outro, e ficou immovel, de ouvido attento, na espectativa de escutar as
horas de algum relogio da visinhança.
A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com desespero. Lá
de fóra a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da fechadura e pelas
frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a misera julgava ver
surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de Jeronymo. O desejo
impaciente de saber que horas eram punha-a doida; foi á janella,
abrio-a; uma rajada humida entrou na sala, esfuziando, e apagou a luz.
Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de phosphoros, aos
esbarrões, sem conseguir reconhecer os objectos que tacteava. Esteve a
perder os sentidos; afinal achou os phosphoros, accendeu de novo o
candieiro e fechou a janella. Entrára-lhe um pouco de chuva em casa;
sentio a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo d'agoa; um calafrio
de febre percorreu-lhe a espinha, e ella atirou-se para a cama, batendo
o queixo, e metteu-se debaixo dos lençóes, a tiritar de febre. Veio de
novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, assentando-se no
colchão: parecia lhe ter ouvido alguem fallar lá fóra, na rua; o
calafrio voltou; ella, tremula, procurava escutar. Se se não enganava,
distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de homem;
deixou-se ficar á escuta, concheando a mão atraz da orelha; depois
ouvio baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para adiante, na
casa da das Dôres, da Rita, ou da Augusta. «Devia ser o Alexandre que
voltava do serviço...» Quiz ir ter com elle e pedir-lhe noticias de
Jeronymo, o calafrio porém obrigou-a a ficar debaixo das cobertas.
Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá
fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella,
mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma
preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a
resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria
nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade
ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas
vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do
seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza!
ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles
cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço.
«Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali
teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam
emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia.
--Jeromo! gritou ella.
As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais
se ouvio.
Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade
triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo
espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava
com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de
paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando
fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar;
rescendia o cheiro do café torrado.
Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona,
que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar
a familia de uma só vez, gritou-lhe:
--Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor?
Piedade soltou um suspiro.
--Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra!
--Peiorou, filha?
--Não veio esta noite pr'a casa...
--Olha o demo! Como não veio? Onde ficou elle então?
--Cá está quem não lh'o sabe responder.
--Ora já se vio?!
--Estou com o miolo que é agoa de bacalháo! Não preguei olho durante
a noite! Forte desgraça a minha!
--Teria-lhe succedido alguma?...
Piedade pôz-se a soluçar, enxugando as lagrimas no chale de lã; ao
passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma
trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jeronymo não se
recolhera aquella noite á estalagem.
--Talvez voltasse pr'o hospital ... obtemperou Augusta, que lavava junto
a uma tina a gaiola do seu papagaio.
--Mas elle hontem veio de muda ... contrapoz Leandra.
--E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra
lavadeira.
E os commentarios multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, n'uma
boa disposição para fazer d'aquillo o escandalo do dia. Piedade
respondia friamente ás perguntas curiosas que lhe dirigiam as
companheiras; estava triste e succumbida; não se lavou, não mudou de
roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na bocca e não lhe
passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se.
--Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante.
--Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona,
chegando á porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de
manteiga. Que diabo, creatura! O homem não te morreu, pr'a estares
agora ahi a carpir d'esse modo!
--Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta
coisa esta noite!...
--Elle te appareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro.
--Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que phantasmas...
E chorava.
--Ai, credo, filha!
--Estou desgraçada!
--Se te appareceram almas, de certo; mas põe a fé em Deus, mulher! e
não te rales d'esse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa
muita coisa!
--Ai, o meu rico homem!
E o mugido lugubre d'aquella pobre creatura abandonada antepunha á rude
agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vacca
chamando ao longe, perdida ao cahir da noite n'um logar desconhecido e
agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta á outra da estalagem;
ria-se, cantava-se, soltava-se a lingua; o formigueiro assanhava-se com
as compras para o almoço; os mercadores entravam e sahiam: a machina de
massas principiava a bufar. E Piedade, assentada á soleira de sua
porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a
hora em que sahíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo,
n'aquelle limiar de granito, onde ella, tantas vezes, com a cabeça
encostada ao hombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na
guitarra d'elle os queridos fados de além mar.
E Jeronymo não apparecia.
Ella ergueu-se finalmente, foi lá fóra ao capinzal, pôz-se a andar
agitada, fallando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de
desespero, quando levantava para o ceu os punhos fechados, dir-se-ia que
não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquella
amaldiçoada luz allucinadora, contra aquelle sol crapuloso, que fazia
ferver o sangue aos homens e mettia-lhes no corpo luxurias de bode.
Parecia rebellar-se contra aquella natureza alcoviteira, que lhe
roubára o seu homem para dal-o a outra, porque a outra era gente do seu
peito e ella não.
E maldizia soluçando a hora em que sahira da sua terra; essa boa terra
cansada, velha, como que enferma; essa boa terra tranquilla, sem
sobresaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e
melancolicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e
esmeraldinos e affogados em tanto sol e em tanto perfume como os d'este
inferno, onde em cada folha que se pisa ha debaixo um reptil venenoso,
como em cada flôr que desabotôa e em cada moscardo que adeja ha um
virus de lascivia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouviam
em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao
romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava
pelas florestas a anta feia e terrivel, quebrando arvores; lá a
sucurujú não chocalhava a sua campainha funebre, annunciando a morte,
nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote
certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciume de
um capoeira; lá Jeronymo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e
meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que á
tarde levanta para o ceu de opala o seu olhar humilde, compungido e
biblico.
Maldita a hora em que ella veio! Maldita! mil vezes maldita!
E tornando á casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali
defronte, no numero 9, a mulata bahiana, a dansadeira de chorado, a
cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando á
janella para vir soprar fóra a cinza da fornalha do seu ferro de
engommar, olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a
affectar indifferença pelo que não era de sua conta, e desapparecendo
logo, sem interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah!
essa não fez commentarios sobre o estranho procedimento de mestre
Jeronymo, nem mesmo quiz ouvir noticias d'elle; pouco arredou o pé de
dentro de casa e, n'esse pouco que sahio, foi ás pressas e sem dar
trela a ninguem.
Nada! que as penas e desgostos não punham a panella no fogo!
Entretanto, ah! ah! ella estava bem preoccupada. Apezar do allivio que
lhe trouxera ao espirito a morte do Firmo e a despeito do seu
contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um
sobresalto vago e oppressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de
impaciencia por atirar-se á procura de noticias sobre as occorrencias
da noite; tanto assim que, ás onze horas, mal percebeu que Piedade,
depois de esperar em vão pelo marido, sahia afflicta em busca d'elle,
disposta a ir ao hospital, á policia, ao necroterio, ao diabo, com
tanto que não voltasse sem algum esclarecimento, ella atirou logo o
trabalho para o canto, enfiou uma saia, crusou o chale no hombro, e
ganhou o mundo, tambem disposta a não voltar sem saber tim-tim por
tim-tim o que havia de novo.
Foi cada uma para seu lado e só voltaram á tarde, quasi ao mesmo
tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da
morte de Firmo e do terrivel effeito que esta causara no Cabeça de
Gato, onde o crime era attribuido aos Carapicús, contra os quaes
juravam-se extremas vinganças de desaffronta. Soprava de lá, rosnando,
um halito morno de colera mal soffrida e sequiosa que crescia com a
approximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, a
irrequieta flamula amarella.
O sol descambava para o ocaso, indefesso e nú, tingindo o ceu de uma
vermelhidão presaga e sinistra.
Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha
enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava.
Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois
fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia
da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante
amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal
perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle
n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera
ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e
que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia
com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da
praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do
crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera
aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e
que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que
o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria
outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro
um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa
de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda
tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam
suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar
palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a
sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave
á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe
ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso
presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com
medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se
no numero 35.
Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido
nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas
pareciam-lhe de chumbo.
Seria elle?!... interrogou a si propria.
E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados,
atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma
idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando
superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou
o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então
deixou-me de feita pela Rita!»
Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não
era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua
filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre
respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a
abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que
diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro
como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o
trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então
porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava
noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da
roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas
da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um
instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa!
Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a
nunca mais tornar para junto d'ella?
Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha
satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto;
ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para
não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos
mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do
transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a
trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma
semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!--Por aqui
é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João
Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com
boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura
está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe
conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e,
feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres
e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna
embriaguez de gosos.
Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava
defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe:
--Faz favor?
--Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a
dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita
conversa.
--Diga-me uma coisa, inquerio aquella; você muda-se?
A mulata não contava com semelhante pergunta, assim á queima-roupa;
ficou calada sem achar o que responder.
--Muda-se, não é verdade? insistio a outra, fazendo-se vermelha.
--E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar
satisfações! Metta-se lá com a sua vida! Ora esta!
--Com a minha vida é que te metteste tu, cigana! exclamou a portugueza,
sem se conter e avançando para a porta com impeto.
--Hein?! Repete, cutruca ordinaria! berrou a mulata, dando um passo em
frente.
--Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e agora
carregas-me com elle! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! Mas
deixa estar que has de amargar o que o diabo não quiz! quem t'o jura
sou eu!
--Pula cá pr'a fóra, perúa chóca, se és capaz!
Em torno de Rita já o povaréo se reunia alvoroçado; as lavadeiras
deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nús, cheios de espuma
de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem
nenhuma d'ellas querer metter-se no barulho. Os homens riam e atiravam
chufas ás duas contendoras, como succedia sempre quando no cortiço
qualquer mulher se disputava com outra.
--Isca! Isca! gritavam elles.
Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus
tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do
queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma
formidavel pancada na cabeça.
E pegaram-se logo a unhas e dentes.
Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande
algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as;
todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando
ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas
scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi
todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela
outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas;
rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas
recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras
por todo o busto.
Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de
bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas
ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota,
offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a
bocca escorrendo sangue:
--Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te
metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia!
Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata.
Os brasileiros oppozeram-se ferozmente.
--Não póde?
--Enche!
--Não deixa!
--Não tira!
--Entra! Entra!
E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos,
como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um
formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de
uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As
cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar,
estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um
fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o
que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de
planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e
doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o
quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela
frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais
se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças
berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para
conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que
imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão
da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na
gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás
prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a
saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma
grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do
seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um
terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas
e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o
povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de
medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia
appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço
de praças, que um permanente fôra buscar a galope!
E o rôlo fervia.
Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se
approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos
capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para
vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.