Meia hora depois, quando João Romão se vio menos occupado, foi ter com
o sujeito que o procurava e assentou-se defronte d'elle, cahindo de
fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trahir na physionomia o menor
symptoma de cansaço.
--Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Elle fallou-me de um
homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lagedo...
--Sou eu.
--Estava empregado n'outra pedreira?
--Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me d'ella e quero
passar adiante.
--Quanto lhe dão lá?
--Setenta mil réis.
--Oh! Isso é um disparate!
--Não trabalho por menos...
--Eu, o maior ordenado que faço é de cincoenta.
--Cincoenta ganha um macaqueiro...
--Ora! tenho ahi muitos trabalhadores de lagedo por esse preço!
--Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não
encontra por cincoenta mil réis quem dirija a broca, pese a polvora e
lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres!
--Sim, mas setenta mil réis é um ordenado impossivel!
--N'esse caso vou como vim... Fica o dito por não dito!
--Setenta mil réis é muito dinheiro!...
--Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um pouco a um
trabalhador bom, do que estar a soffrer desastres, como o que soffreu
sua pedreira a semana passada! Não fallando na vida do pobre de Christo
que ficou debaixo da pedra!
--Ah! O Machucas fallou-lhe no desastre?
--Contou-m'o, sim senhor, e o desastre não aconteceria se o homem
soubesse fazer o serviço!
--Mas setenta mil réis é impossivel. Desça um pouco!
--Por menos não me serve... E escusamos de gastar palavras!
--Você conhece a pedreira?
--Nunca a vi de perto, mas quiz me parecer que é boa. De longe
cheirou-me a granito.
--Espere um instante.
João Romão deu um pulo á venda, deixou algumas ordens, enterrou um
chapéo na cabeça e voltou a ter com o outro.
--Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco se
esvaziara de todo.
O cavouqueiro pagou doze vintens pelo seu almoço e acompanhou-o em
silencio.
Atravessaram o cortiço.
A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido almoçar e tinham
voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chapéo de
palha, apezar das toldas que se armaram. Um calor de caustico
mordia-lhes os toutiços em brasa e scintillantes de suor. Um estado
febril apoderava se d'ellas n'aquelle rescaldo; aquella digestão feita
ao sol fermentava-lhes o sangue. A Machona altercava com uma preta que
fôra reclamar um par de meias e destrocar uma camisa; a Augusta, muito
molle sobre a sua taboa de lavar, parecia derreter-se como cebo; a
Leocadia largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as
comichões do quadril e das virilhas, assanhadas pelo mormaço; a Bruxa
monologava, resmungando n'uma insistencia de idiota, ao lado da
Marcianna que, com o seu typo de mulata velha, um cachimbo ao canto da
bocca, cantava toadas monotonas do sertão:
«Maricas tá marimbando.
Maricas tá marimbando,
Na passage do riacho
Maricas tá marimbando.»
A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar sem
fadigas, assobiava os chorados e lundús que se tocavam na estalagem, e
junto d'ella, a melancolica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a
sua roupa dentro da tina, automaticamente, como um condemnado a
trabalhar no presidio; ao passo que o Albino, saracoteando os seus
quadris pobres de homem lymphatico, batia na taboa um par de calças, no
rhythmo cadenciado e miudo de um cozinheiro a bater bifes. O corpo
tremia-lhe todo, e elle, de vez em quando, suspendia o lenço do
pescoço para enxugar a fronte, e então um gemido suspirado subia-lhe
aos labios.
Da casinha numero 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a das Dores
que principiava o seu serviço; não sabia engommar sem cantar. No
numero 7 Nênêm cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos
quartos do fundo da estalagem sahia de espaço a espaço uma nota aspera
de trombone.
O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que no momento apanhava
roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo então mais em
evidencia.
--Não bula, hein?!... gritou ella, rapido, erguendo-se teza.
E, dando com João Romão:--Eu logo vi! Leva implicando aqui com a gente
e depois, vae-se comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do
gallego! Eu não te quero, sabe?
O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e fugio, porque ella
se armára com um regador cheio d'agoa.
--Vem p'ra cá, se és capaz! Diabo da peste!
João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro.
--O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe este.
--Oh! fez o outro, sacudindo os hombros, r disse depois com
empafia:--Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é tudo
gente séria! Não ha chinfrins n'esta estalagem; se apparece uma rusga,
eu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou cá a policia, nem nunca
la deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas!
Tudo gente muito boa!
Tinham chegado ao fim do pateo do cortiço e, depois de transporem uma
porta que se fechava com um pezo amarrado a uma corda, acharam-se no
capinzal que havia antes da pedreira.
--Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou o vendeiro.
E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim quente e
trescalante.
Meio dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava á luz
irreconciliavel de dezembro, n'um dia sem nuvens. A pedreira, em que
ella batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso
martyrisar a vista para descobrir as nuances da pedra; nada mais que uma
grande mancha branca e luminosa, terminando pela parte de baixo no chão
coberto de cascalho miudo, que ao longe produzia o effeito de um betume
cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do arvoredo, onde
se não distinguiam outros tons mais do que nodoas negras, bem negras,
sobre o verde-escuro.
Á proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira, o
terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos
enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali,
havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e cheias
de calhaus partidos; outras já promptas para seguir, a espera do
animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de
ser despejadas n'aquelle instante. Homens labutavam.
Á esquerda, por cima de um vestigio de rio, que parecia ter sido bebido
de um trago por aquelle sol sedento, havia uma ponte de taboas, onde
tres pequenos, quasi nús, conversavam assentados, sem fazer sombra,
illuminados a prumo pelo sol do meio dia. Para adiante, na mesma
direcção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre
columnas de pedra tosca; ahi muitos portuguezes trabalhavam de canteiro,
ao barulho metallico do picão que feria o granito. Logo em seguida,
surgia uma officina de ferreiro, toda atravancada de destroços e
objectos quebrados, entre os quaes avultavam rodas de carro; em volta da
bigorna dois homens, de corpo nú, banhados de suor e alumiados de
vermelho como dous diabos, martellavam cadenciosamente sobre um pedaço
de ferro em brasa; e ali mesmo, perto d'elles, a forja escancarava uma
guela infernal, d'onde sahiam pequenas linguas de fogo, irrequietas e
gulosas.
João Romão parou á entrada da officina e gritou para um dos
ferreiros:
--Ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão!
Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho.
--Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena concertal-o;
está todo comido de ferrugem! Faz se-lhe um novo, que é melhor!
--Pois veja lá isso, que a lanterna está a cahir!
E o vendeiro seguio adiante com o outro, emquanto atrás recomeçava o
martellar sobre a bigorna.
Em seguida via-se uma miseravel estrebaria, cheia de capim secco e
excremento de bestas, com logar para meia duzia de animaes. Estava
deserta, mas, no vivo fartum exhalado de lá, sentia-se que fora
habitada ainda aquella noite. Havia depois um deposito de madeiras,
servindo ao mesmo tempo de officina de carpinteiro, tendo á porta
troncos d'arvore, alguns já cerrados, muitas taboas empilhadas, restos
de cavernas e mastros de navio.
D'ahi á pedreira restavam apenas uns cincoenta passos e o chão era já
todo coberto por uma farinha de pedra moida que sujava como a cal.
Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol,
outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de
palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a
picareta; de outro afeiçoavam lagedos a ponta de picão; mais adiante
faziam parallelepipedos a escopro e macete. E todo aquelle retimtim de
ferramentas, e o martellar da forja, e o côro dos que lá em cima
brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zuada ao longe, que
vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéa de uma
actividade feroz, de uma luta de vingança e de odio. Aquelles homens
gottejantes de suor, bebedos de calor, desvairados de insolação, a
quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de
demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que os
contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os golpes e a todos os
tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe
abrissem as entranhas de granito.
O membrudo cavouqueiro havia chegado á fralda do orgulhoso monstro de
pedra; tinha-o cara a cara, medio-o de alto abaixo, arrogante, n'um
desafio surdo.
A pedreira mostrava n'esse ponto de vista o seu lado mais imponente.
Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se
altaneira e desassombrada, affrontando o céo, muito ingreme, lisa,
escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela
cyclopica nudez com um effeito de teias de aranha. Em certos logares,
muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando,
sobre um precipicio, miseraveis taboas que, vistas cá de baixo,
pareciam palitos, mas em cima das quaes uns atrevidos pigmêos de forma
humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante.
O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lastima. O seu gesto
desaprovava todo aquelle serviço.
--Veja lá! disse elle, apontando para certo ponto da rocha. Olhe
pr'aquillo! Sua gente tem ido ás cegas no trabalho d'esta pedreira!
Deviam atacal-a justamente por aquel'outro lado, para não contrariar os
veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe
só o que elles têm tirado de lá--umas lascas, uns calháos que não
servem para nada! É uma dôr de coração ver estragar assim uma peça
tão boa! Agora o que hão de fazer d'essa cascalhada que ahi está
senão macacos? E brada aos céos, creia! ter pedra d'esta ordem para
empregal-a em macacos!
O vendeiro escutava-o em silencio, apertando os beiços, aborrecido com
a idéa d'aquelle prejuizo.
--Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está aquelle
homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo
toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ahi o senhor
capaz de fazer isso? Ninguem; porque é preciso um empregado que saiba o
que faz; que, se a polvora não fôr muito bem medida, nem só não se
abre o veio, como ainda succede ao trabalhador o mesmo que succedeu ao
outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se poder tirar
partido vantajoso d'esta pedreira! Boa é ella, mas não nas mãos em
que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé! Quem lhe
lascar fogo não póde fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito
não fôr fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz!
E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa como o
proprio cascalho, um parallelipipedo que estava no chão:--Que digo eu?!
Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que estes burros
deviam esconder por vergonha!
Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ella
dava depois, formando um angulo obtuso, é que se via quanto era grande.
Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a matta.
--Que mina de dinheiro!... dizia o homemzarrão, parando enthusiasmado
defronte do novo panno de rocha viva que se desdobrava na presença
d'elle.
--Toda esta parte que se segue agora, declarou João Romão ainda não
é minha.
E continuaram a andar para diante.
D'este lado multiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros trabalhavam
á sombra d'ellas, indifferentes áquelles dois. Viam-se panellas ao
fogo, sobre quatro pedras, ao ar livre, e rapazitos tratando do jantar
dos paes. De mulher nem signal. De vez em quando, na penumbra de um
ensombro de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de cocaras
defronte uns dos outros, uma sardinha na mão esquerda, um pão na
direita, ao lado de uma garrafa d'agua.
--Sempre o mesmo serviço mal feito e mal dirigido!... resmungou o
cavouqueiro.
Entretanto, a mesma actividade parecia reinar por toda a parte. Mas, lá
no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns
trabalhadores dormiam á sombra, de papo para o ar, a barba espetando
para o alto, o pescoço entumecido de cordoveias grossas como enxarcias
de navio, a bocca aberta, a respiração forte e tranquilla de animal
sadio, n'um feliz e plethorico resfolgar de besta cansada.
--Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo isto está a
reclamar um homem tezo que olhe a sério para o serviço!
--Eu nada tenho que ver com este lado! observou Romão.
--Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olaré!
--Abusam, porque tenho de olhar pelo negocio lá fora...
--Commigo aqui é que elles não fariam cera. Isso juro eu! Entendo que
o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida á farta, o seu
gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua!
Rua, que não falta por ahi quem queira ganhar dinheiro! Auctorise-me a
olhar por elles e verá!
--O diabo e que você quer setenta mil réis... suspirou João Romão.
--Ah! nem menos um real!... Mas commigo aqui ha de ver o que lhe faço
entrar pr'algibeira! Temos cá muita gente que não precisa de estar.
Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquillo é serviço para
descanço; é serviço de criança! Em vez de todas aquellas lesmas,
pagas talvez a trinta mil reis...
--É justamente quanto lhes dou.
--... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cincoenta, que fazem
o dobro do que fazem aquelles monos e que podem servir para outras
coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que
aquelle que alli está deixa cahir o escopro! Com effeito!
João Romão ficou calado, a scismar, emquanto voltavam. Vinham ambos
pensativos.
--E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para
estalagem?
--Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço
aqui!...
--E a comida, forneço-a eu?...
--Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras sahem-lhe da
venda...
--Pois está fechado o negocio! deliberou João Romão, convencido de
que não podia, por economia, dispensar um homem d'aquelles. E pensou
lá de si para si: «Os meus setenta mil reis voltar-me-hão á gaveta.
Tudo me fica em casa!»
--Então estamos entendidos?...
--Estamos entendidos!
--Posso amanhã fazer a mudança?
--Hoje mesmo, se quizer; tenho um commodo que lhe ha de calhar. É o
numero 35. Vou mostrar-lh'o.
E, aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direcção
ao fundo do cortiço.
--Ah! é verdade! como você se chama?
--Jeronymo, para o servir.
--Servir a Deus. Sua mulher lava?
--É lavadeira, sim senhor.
--Bem, precisamos ver-lhe uma tina.
E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, d'onde escapou,
como de uma panella fervendo que se destapa, uma baforada quente,
vozeria tresandante á fermentação de suores e roupa ensaboada
seccando ao sol.
V
No dia seguinte, com effeito, ali pelas sete da manhã, quando o
cortiço fervia já na costumada labutação, Jeronymo apresentou-se
junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na vespera.
A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta annos, boa estatura,
carne ampla e rija, cabellos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco
alvos, mas solidos e perfeitos, cara cheia, physionomia aberta; um todo
de bonhomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela bocca numa
sympathica expressão de honestidade simples e natural.
Vieram ambos á boléa da andorinha que lhes carregou os trens. Ella
trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de panninho de algodão
e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do
dia anterior.
E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objectos que não
confiaram dos homens da carroça; Jeronymo abraçado a duas formidaveis
mangas de vidro, das primitivas, d'essas em que se podia á vontade
enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relogio de parede e
com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o
pateo da estalagem, entre os commentarios e os olhares curiosos dos
antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os
inquilinos novos que surgiam.
--O que será este pedaço d'homem? indagou a Machona da sua visinha de
tina, a Augusta Carne-molle.
--A modos, respondeu esta, que vem pr'a trabalhar na pedreira. Elle
hontem andou por lá um rôr de tempo com o João Romão.
--Aquella mulher que entrou junto será casada com elle?
--E de crer.
--Ella me parece gente das ilhas.
--Elles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a Leocadia.
Uma cama que deve de ser um regalo e um toucador com um espelho maior do
que aquella peneira!
--E a commoda, você vio, nhá Leocadia? perguntou Florinda, gritando
para ser ouvida, porque entre ella e a outra estavam a Bruxa e a velha
Marcianna.
--Vi. Rico traste!
--E o oratorio, então? Muito bonito!...
--Vi tambem. E obra de capricho. Não! elles, sejam lá quem fôr, são
gente arranjada... Isso não se lhes póde negar!
--Se são bons ou máos só com o tempo se saberá!... arriscou Dona
Isabel.
--Quem vê cara não vê corações ... sentenciou o triste Albino,
suspirando.
--Mas o numero 35 não estava occupado por aquelle homem muito amarello
que fazia charutos?... inquirio Augusta.
--Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a Leocadia, porém creio que
arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então esvaziou-lhe
hontem a casa e tomou conta do que era d'elle.
É! accudio a Machona; hontem, pelo cahir das duas da tarde, o Romão
andava ahi as voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o
pobre homem não levou a breca, como succedeu aquel'outro que trabalhava
de ourives?
--Não! Este creio que está vivo...
--O que lhe digo é que aquelle numero 35 tem máo agouro! Eu cá por
mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do
Farjão!
Tres horas depois, Jeronymo e Piedade achavam-se installados e
dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais
depressa que poude. Elle contava aviar até á noite uma infinidade de
coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte.
Era tão methodico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem.
Jeronymo viéra da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena,
tentar a vida no Brazil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em
cuja fazenda moirejou durante dois annos, sem nunca levantar a cabeça,
e donde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela
lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que
sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com elles no
mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem
futuro, trabalhando eternamente para outro.
Não quiz. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e
atirar-se para a côrte, onde, diziam-lhe patricios, todo o homem bem
disposto encontrava furo. E, com effeito, mal chegou, devorado de
necessidades e privações, metteu-se a quebrar pedra n'uma pedreira,
mediante um miseravel salario. A sua existencia continuava dura e
precaria; a mulher já então lavava e engommava, mas com pequena
freguezia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não
morrer de fome e pagar o quarto da estalagem.
Jeronymo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa
habilidade. Em poucos mezes se apoderava do seu novo officio e, de
quebrador de pedra, passou logo a fazer parallelepipedos; e depois foi
se ageitando com o prumo e com a esquadria e metteu-se a fazer lagedos;
e finalmente, á força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom
como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salario igual ao
d'elles. Dentro de dois annos, distinguia-se tanto entre os
companheiros, que o patrão o converteu n'uma especie de contra-mestre e
elevou-lhe o ordenado a setenta mil réis.
Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôz assim para
a frente; duas outras coisas contribuiram muito para isso: a força de
touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos
trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade
do seu caracter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma
honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo
de viver. Sahia de casa para o serviço e do serviço para a casa, onde
nunca ninguem o vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha
sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um como o outro, eram sempre os
primeiros á hora do trabalho. Aos domingos iam ás vezes á missa ou,
á tarde, ao passeio publico; n'essas occasiões, elle punha uma camisa
engommada, calçava sapatos e enfiava um paletó; ella o seu vestido de
ver a Deus, os seus oiros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao
monte de soccorro, máo grado as difficuldades com que os dois lutaram a
principio no Brazil.
Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte,
bem acommodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando
sempre tão boas contas da obrigação, que os seus freguezes de roupa,
apezar d'aquella mudança para Botafogo, não a deixaram quasi todos.
Jeronymo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor,
fizéra-se irmão de uma ordem terceira e tratára de ir pondo alguma
coisinha de parte. Metteu a filha num collegio, «que a queria com outro
saber que não elle, a quem os paes não mandaram ensinar nada.» Por
ultimo, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a mais
decente, a mais respeitada e a mais confortavel; porém, com a morte do
seu patrão e com uma reforma estupida que os successores d'este
realisaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se d'ella
e resolveu passar para outra.
Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do desastre
do seu melhor empregado, andava justamente á procura de um homem nas
condições de Jeronymo.
Tomou conta da direcção de todo o serviço, e em boa hora o fez,
porque dia a dia a sua influencia se foi sentindo no progresso do
trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente
serios e zelosos. Elle não admittia relaxamentos, nem podia consentir
que um preguiçoso se demorasse ali tomando o logar de quem precisava
ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despedio alguns
trabalhadores, admittio novos, augmentou o ordenado dos que ficaram,
estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. No
fim de dois mezes já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via,
radiante, quanto lucrara com a acquisição de Jeronymo; tanto assim que
estava disposto a augmentar-lhe o ordenado para conserval-o em sua
companhia, «Valia a pena! Aquelle homem era um achado precioso!
Abençoado fosse o Machucas que lh'o enviára!» E começou a
distinguil-o e respeital-o como não fazia a ninguem.
O prestigio e a consideração que Jeronymo gosava entre os moradores da
outra estalagem d'onde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre
os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era
consultado e ouvido, quando qualquer questão difficil os preoccupava.
Descobriam-se defronte d'elle, como defronte de um superior; até o
proprio Alexandre abrira uma excepção nos seus habitos e fazia-lhe uma
ligeira continencia com a mão no boné, ao atravessar o pateo, todo
fardado, por occasião de vir ou de ir para o serviço. Os dois
caixeiros da venda, o Domingos e o Manoel, tinham enthusiasmo por elle.
«Aquelle é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e
destemido! Com aquelle ninguem brinca!» E, sempre que a Piedade de
Jesus ia lá a taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam
era bem escolhida, bem medida ou bem pezada. Muitas lavadeiras tomavam
inveja d'ella, mas Piedade era de natural tão bom e bemfazejo que não
dava por isso e a maledicencia murchava antes de amadurecer.
Jeronymo acordava todos os dias ás quatro horas da manhã, fazia antes
dos outros a sua lavagem á bica do pateo, soccava-se depois com uma boa
palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em
mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem
meias mettidos em um formidavel par de chinellos de couro crú, seguia
para a pedreira.
A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquella
ferramenta movida por um pulso de Hercules valia bem os clarins de um
regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do chaos
opalino das neblinas vultos côr de cinza, que lá iam, como sombras,
galgando a montanha, para cavar na pedra o pão-nosso de cada dia. E,
quando o sol desfechava sobre o pincaro da rocha os seus primeiros
raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito,
aquelle misero grupo de obscuros batalhadores.
Jeronymo só voltava á casa ao descahir da tarde, morto de fome e de
fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas
da terra d'elles. E ali, n'aquella estreita salinha, socegada e humilde,
gosavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, o
voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canceiras ao sol.
E, defronte do candieiro de kerosene, conversavam sobre a sua vida e
sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no collegio e que só os
visitava aos domingos e dias santos.
Depois, até ás horas de dormir, que nunca passavam das nove, elle
tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher,
dedilhar os fados da sua terra. Era n'esses momentos que dava plena
expansão ás saudades da patria, com aquellas cantigas melancolicas em
que a sua alma de desterrado voava das zonas abrazadas da America para
as aldeias tristes da sua infancia.
E o canto d'aquella guitarra estrangeira era um lamento choroso e
dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto
mar, quando a tempestade agita as negras azas homicidas, e as gaivotas
doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos presagos,
tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abobada de chumbo.