Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os
olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de
chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras
notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz
loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra
alheia.
A roupa lavada, que ficára de vespera nos córadoiros, humedecia o ar e
punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão,
esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo
anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações
de espumas seccas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno;
ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas;
pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a
tilintar; o cheiro quente do café aquecia, supplantando todos os
outros; trocavam-se de janella para janella as primeiras palavras, os
bons dias; reatavam-se conversas interrompidas á noite; a pequenada cá
fora traquinava já, e lá de dentro das casas vinham choros abafados de
crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava,
destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde,
grasnar de marrecos, cantar de gallos, cacarejar de gallinhas. De alguns
quartos sabiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a
gaiola do papagaio, e os loiros, á semelhança dos donos,
cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se á luz nova do dia.
D'ahi a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma
agglomeração tumultuosa de machos e femeas. Uns, após outros, lavavam
a cara, incommodamente, debaixo do fio d'agoa que escorria da altura de
uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já
prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a
tostada nudez dos braços e do pescoço, que ellas despiam, suspendendo o
cabello todo para o alto do casco; os homens, esses não se preoccupavam
em não molhar o pello, ao contrario mettiam a cabeça bem debaixo da
agoa e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era
um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sahir sem treguas. Não
se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias;
as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali
mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto
das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias
accentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruido
compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na
venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e
pragas; já se não fallava, gritava-se. Sentia-se n'aquella
fermentação sanguinea, n'aquella gula viçosa de plantas rasteiras que
mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer
animal de existir, a triumphante satisfação de respirar sobre a terra.
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas,
fazendo compras.
Duas janellas do Miranda abriram-se. Appareceu n'uma a Izaura, que se
dispunha a começar a limpeza da casa.
--Nhá Dunga! gritou ella para baixo, a sacudir um panno de mesa; se
você tem cús-cús de milho hoje, bata na porta, ouvio?
A Leonor surgio logo tambem, enfiando curiosa a carapinha por entre o
pescoço e o hombro da mulata.
O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu
banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do
pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que
elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente.
As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada
homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o
peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando
tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem
carregado de vasilhame de folha.
O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali
mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o
seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda
reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro
assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os
feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima;
sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras
enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que
ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados
portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com
grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha
algaraviada pelo carroceiro contra o burro.
E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os
taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não
vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os
ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas
caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de
caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o
seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com
as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que
elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro
guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma
enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com
grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando
supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia
o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente
tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos
importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas,
sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões.
A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona»,
portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal
do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das
Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a
Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que
gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á
parte, mas toda a familia habitava no cortiço.
Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os
filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam
que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do
commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo
soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco
annos.
Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de
orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos
rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer
roupa branca de homem com muita perfeição.
Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle,
brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos,
soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre
escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na
farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda
pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se
encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis
para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza.
Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua
camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o
bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar
as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos
fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu
quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no
cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu
temperamento e não do arbitrio do seu caracter.
Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro
chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma
fama terrivel de leviana entre as suas visinhas.
Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam
todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e
cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia,
grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha,
formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda
retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.»
Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira,
mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava
sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor
punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era
grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo
chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente,
beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella
estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não
cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a
desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das
compras que Florinda fazia diariamente á venda.
Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na
estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas
suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher
comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos,
que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e
fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até
de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já
foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos
cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos
castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em
bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de
amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda
preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado
que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza
só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel
senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.
A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto
que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns
modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem
engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente.
Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do
patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia
desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse
já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha
ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da
velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as
prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No
emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas,
porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de
quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de
estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha
desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de
dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples
que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas
havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma
d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser
mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor,
entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça
que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira
toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da
estalagem!»
Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo
para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e
tres vezes á velha com estas phrases:
--Então? já veio?
--Porque não tenta os banhos de mar?
--Porque não chama outro medico?
--Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!
A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E
suspirava resignada.
Quando o Costa apparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva,
os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silencio com um
respeitoso ar de lastima e piedade, empenhados tacitamente por aquelle
caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa.
Pombinha era muito querida por toda aquella gente. Era quem lhe escrevia
as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as
contas; quem lia o jornal para os que quizessem ouvir. Presavam-na com
muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permittia certo luxo
relativo. Andava sempre de botinas ou sapatinhos com meias de côr, seu
vestido de chita engommado; tinha as suas joiazinhas para sahir á rua,
e, aos domingos, quem a encontrasse á missa na egreja de São João
Baptista, não seria capaz de desconfiar que ella morava em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito
afeminado, fraco, côr de espargo cozido e com um cabellinho castanho,
deslavado e pobre, que lhe cahia, n'uma só linha, até ao pescocinho
molle e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem
já estava tão familiarisado que ellas o tratavam como a uma pessoa do
mesmo sexo; em presença d'elle fallavam de coisas que não exporiam em
presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e
das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem
commovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era
sempre Albino quem tratava de reconcilial-os, exhortando as mulheres á
concordia. D'antes encarregava-se de cobrar o rol das collegas, por
amabilidade; mas uma vez, indo a uma republica de estudantes, deram-lhe
lá, ninguem sabia porque, uma duzia de bolos, e o pobre diabo jurou
então, entre lagrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de
receber os róes.
E d'ahi em diante, com effeito, não arredava os pésinhos do cortiço,
a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dansarina,
passear á tarde pelas ruas e á noite dansar nos bailes dos theatros.
Tinha verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro
durante o anno para gastar todo com a mascarada. E ninguem o encontrava,
domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com
a sua calça branca engommada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado á cinta, um avental que lhe cahia sobre as pernas
como uma saia. Não fumava, não bebia espiritos e trazia sempre as
mãos geladas e humidas.
N'aquella manhã levantára-se ainda um pouco mais languido que de
costume, porque passára mal a noite. A velha, Isabel, que lhe ficava ao
lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistencia, perguntou-lhe o que
tinha.
Ah! muita molleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!
A velha receitou diversos remedios, e ficaram os dois, no meio de toda
aquella vida, a fallar tristemente sobre molestias.
E, emquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocadia, a
Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e
quasi sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte
d'ellas, separado pelos giráos, formava-se um novo renque de
lavadeiras, que acudiam de fóra, carregadas de trouxas, e iam
ruidosamente tomando logar ao lado umas das outras, entre uma agitação
sem tregoas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era
briga. Uma a uma occupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do
cortiço sahiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que
havia ao fundo da estalagem desappareciam os trabalhadores da pedreira,
donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de
calças de brim, chapéo alto e sobrecasaca preta, passou lá fóra, em
caminho para o armazem, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas.
O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solemne,
atravessou o pateo, sem fallar a ninguem, nem mesmo á mulher, e
recolheu-se á casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o
Pompéo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande
caixa de bugigangas, sahio para a perigrinação de todos os dias,
altercando e praguejando em italiano.
Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar á Machona pela
inhá Rita.
--A Rita Bahiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ella arribou!
A Leocadia explicou logo que a mulata estava com certeza de pandega com
o Firmo.
--Que Firmo? interrogou Augusta.
--Aquelle cabravasco que se mettia ás vezes ahi com ella. Diz que é
torneiro.
--Ella mudou-se? perguntou o pequeno.
--Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem coisas
lá. Você o que queria?
--Vinha buscar uma roupa que está com ella.
--Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te
possa dizer alguma coisa.
--Ali?
--Sim, pequeno, n'aquella porta, onde a preta do taboleiro está
vendendo! Ó diabo! olha que pizas a boneca de anil! Já se vio que
sorte? Parece que não vê onde piza este raio de criança!
E, notando que o filho, o Agostinho, se approximava para tomar o logar
do outro que já se ia:--Sahe d'ahi, tu tambem, peste! Já principias na
reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade,
que fazes tu que não vaes regar a horta do Commendador?
--Elle disse hontem que eu agora fosse á tarde, que era melhor.
--Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil réis, que é fim
do mez. Olha! Vae lá dentro e diz a Nênêm que te entregue a roupa que
veio hontem á noite.
O pequeno afastou-se de carreira, e ella lhe gritou na pista.--E que
não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido!
Uma conversa cerrada travára-se no resto da fila de lavadeiras a
respeito da Rita Bahiana.
--É doida mesmo!... censurava Augusta. Metter-se na pandega sem dar
conta da roupa que lhe entregaram... Assim ha de ficar sem um freguez...
--Aquella não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!...
Parece que tem fogo no rabo! Póde haver o serviço que houver,
apparecendo pagode, vae tudo pr'o lado! Olha o que sahio o anno passado
com a festa da Penha!...
--Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca vergonha! Est'ro
dia, pois você não vio? levaram ahi n'uma bebedeira, a dansar e cantar
á viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!
--Para tudo ha horas e ha dias!...
--Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é apparecer
quem puxe por ella!
--Ainda assim não é má creatura... Tirante o defeito da vadiagem...
--Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o
dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
--Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia!
--Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem
dinheiro é porque o gasta mesmo!
E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a
torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que,
em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa
molhada, donde o sol tirava scintillações de prata.
Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha
reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente,
caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma
das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas
vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda,
indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua
tranquillidade de entes felizes.
Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da
estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para
o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir
com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello
succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta.
--Meio kilo de arroz!
--Um tostão de assucar!
--Uma garrafa de vinagre!
--Dois martellos de vinho!
--Dois vintens de fumo!
--Quatro de sabão!
E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.
Ouviam-se protestos entre os compradores:
--Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!
--O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer!
--Seu Manoel, não me demore essa manteiga!
Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no
quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma
panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira
aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um
novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia
chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel
lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito
predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de
café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho
queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se
conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes
punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os
que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de
contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.
N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede
e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de
couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o
vendeiro.
Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto,
espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe
sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço
de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os
olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade.
--Então ainda não se póde fallar ao homem? perguntou elle, indo ao
balcão entender-se com o Domingos.
--O patrão está agora muito occupado. Espere!
--Mas são quasi dez horas e estou com um gole de café no estomago!
--Volte logo!
--Moro na cidade nova. É um estirão d'aqui!
O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia:
--O homem que ahi está, seu João, diz que se vae embora!
--Elle que espere um pouco, que já lhe fallo! respondeu o vendeiro no
meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!
--Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o
hercules com a sua voz grossa e sonora.
--Ó filho, almoce ahi mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já
podia estar aviado!
--Pois vá lá! resolveu o homemzarrão, sahindo da venda para entrar na
casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso,
medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ahi
se apresentavam pela primeira vez.
E assentou-se a uma das mezinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a
lista dos pratos.
--Traga lá o pescado com batatas e venha um martello de vinho.
--Quer verde ou virgem?
--Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo!