Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da

primeira infancia, ha de permittir que o autor da _Talitha_ prefira as

autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao

impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de

autoridade litteraria, não chegou ainda se quer á categoria de

trintanario do _Pegaso_, na estrebaria de Augias.

* * * * *

A critica indigena censura a pobreza de rima da _Talitha_: não tem razão.

A _Ceia dos Cardeaes_ é uma obra prima: assim o prégou a critica, assim

a considera a opinião.

Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto da _Talitha_

compõe-se de 492.

A _Ceia dos Cardeaes_ tem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto da

_Talitha_ dispõe de 127 rimas differentes: a proporção naquella é de 5%,

nesta é de 25%.

Na _Ceia dos Cardeaes_ ha apenas 31 rimas que não foram repetidas; no

1.° acto da Talitha ha 80.

Na primeira, a obra prima, essa proporção é de 9%, na _Talitha_, a

condemnada, a proporção é de 17%. A critica indigena tem cabellos na

lingua e fel no coração.

A _Samaritana_ é a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica

europea, assim a julga o proprio poeta.

O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos.

Pois bem: entre esses ha 322 repetições, apenas em 17 rimas.

Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica

para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que é

pobreza ou riqueza de rima.

A opulencia de rima póde ser exigida em composições poeticas esparsas,

que não tenham grande extensão, mas em um poema dramatico essa exigencia

da critica é despotica, é absurda, principalmente quando os personagens

que o movimentam são da especie daquelles que figuram no entrecho da

_Talitha_.

Collocar nos labios de _Joaquina_ versos de rima escolhida, apurada, sem

repetições de termos que andam constantemente na conversa commum,

substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas,

sómente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica,

equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma

santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a

espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao

rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo

rimador, o sentimento pela paciencia.

A opulencia da rima importaria necessariamente na elevação da

linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa fórma o que

já condemnára, considerando alcandorada em demasia para personagens de

aldeia a linguagem que o autor da _Talitha_ confiou a cada um d'elles.

Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras são simples,

corriqueiras; o vocabulario dos aldeãos é pouco extenso e

tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto

da vida, póde-se dizer, um termo que não se substitue, um conceito

consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros

termos, em phrase diversa, não é comprehendido.

O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o

notavel mestre da lingua vernacula, Snr. José Verissimo, doutrina

superiormente:

«O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue

todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do

povo--que é realmente pobre--mas da litteratura do seu tempo.»

Citação de Elysio de Carvalho no livro--_As modernas correntes

estheticas_, pag. 27.

Em taes condições, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir,

quanto possivel, as condições normaes da vida e do personagem, attribuir

a este a expressão dos seus affectos, das suas dôres, das suas alegrias,

dos seus desejos ou das suas esperanças, por meio de palavras em rima

opulenta, será desnaturar o personagem, será mentir á realidade, será

phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, não

creou na vida real.

Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou

ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem póde e deve

ser alcandorada sem inverosimilhança, os personagens vem

distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que

substituem toda a realidade objectiva.

A admiração, a fé e a idolatria pódem crear os maiores absurdos: Esopo,

Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado,

terso, brilhante, sonóro, de rima opulentissima.

Zola escreveu:

«C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le

dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie,

et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de

ce bas monde.

..................................................................

«Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et

la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils

veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.

..................................................................

«La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être

vraisemblables.»

Zola. _Le Naturalisme au théâtre_, pag. 357, 358.

Mas João de Deus, que foi em Portugal «a mais completa encarnação do

lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupações

estylisticas visando á erudição», que foi «sentimento singelo, o amor,

esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida

simples e estylo simples», João de Deus que cantou a simpleza rural da

sua terra, a alma dôce do povo e dos campos, esse «que é o lyrico mais

portuguez» como considera Fidelino Figueiredo, «um grande scismador e um

grande artista, que não tem artificios na sua poesia, singela como todos

os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de

creança, suave e consoladora como uma parábola de Christo, serena e

luminosa como um dialogo de Platão», no dizer profundo de Alexandre da

Conceição, João de Deus não se preoccupou com a opulencia da rima, nem

mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um

acto _Horacio e Lydia_, romana pelo assumpto, grega pela technica.

Ora, a _Talitha_ é composta de 1873 versos de varios metros,

predominando o alexandrino.

Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor da _Talitha_ reservou

as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura a _Ode ás

Arvores_, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compõe de 312

alexandrinos, e não tem sequer uma rima repetida, além da grande

abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima é conhecida.

Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos

d'esse evangelho são indigentes de rima, nota que no 2.° acto a palavra

enferma rima com erma e no 3.° acto tambem enfermo rima com ermo.

E o zoilo exclama:

«Para _Enfermo_ o poeta encontrou apenas a rima _ermo_, uma rima

pobrissima.»

Mais pobre de espirito é o critico.

A _Talitha_ compõe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente

encontrou a rima em _erma_, ainda assim uma vez no masculino e outra no

feminino, e fulmina a censura:

«o poeta só encontrou a rima _ermo_ para _enfermo_, rima pobrissima.»

Ignorante, perverso, futil, ou lorpa.

Pois bem, o autor da _Talitha_ consultou os diccionarios de rima de

Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e para _enfermo_

apenas encontrou _ermo_, _termo_ e _estafermo_. As duas primeiras foram

applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto.

Quanto á terceira--_estafermo_--o poeta da _Talitha_ só a poderia

utilizar se fizesse referencia ao critico.

Para agradar á sua opinião e corresponder á sua exigencia, o zoilo

pretende que o autor da _Talitha_ deveria forgicar palavras,

neologismos, sómente com o fim de não repetir a rima!

Mas se essa rima é pobrissima, que culpa tem o autor da _Talitha_, se a

lingua apenas lhe faculta, além dessa, mais duas, uma das quaes

pertencente ao calão?

Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima de _enferma_ é

_erma_; no terceiro acto á palavra _enfermo_ foi dada a rima--_termo_.

2.º acto, pag. 64:

«seria bem melhor que cuidasse da enferma,

que vive ali no escuro abandonada e erma»

3.º acto, pag. 89:

«de acudir pressuroso ao leito dum enfermo

ardendo em alta febre e bem proximo ao termo

d'uma longa existencia...»

Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo: á mentira.

* * * * *

Por ultimo a critica indigena censura o autor da _Talitha_ por ter

escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente,

no terceiro, a _marqueza_, mãe da heroina.

E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que appareça

tambem o Pae de _Talitha_.

O autor não teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo

mais dois actos para apresentação da sogra de _Talitha_, se tambem a

critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, não houvesse

solicitado a redacção dos tres actos simplesmente aos dois primeiros

para que esse obscuro trabalho

«seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a,

cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais

o milagre e a oração; assim _Talitha_ será um primor litterario...»

Critica da _Tribuna do Rio_.

«O drama é magnifico. E porque não dizer o melhor drama que se tem

escripto no Brazil?»

Critica da _Gazeta de Noticias_, do Rio.

«Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha dão a quem os ouviu a

satisfação rara e salutar que só produzem as obras de arte, erguidas

severamente com a segurança de que só é capaz a sinceridade.»

Critica do _Paiz_, do Rio.

«...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na

peça, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura.

«... pois nao ha muito disso por toda essa America afóra.»

Arthur Azevedo--Critica da _Noticia_, do Rio.

Á critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixão

politica, o autor da _Talitha_ contrapõe a critica da imprensa do Rio.

Será vaidosa a citação d'essas opiniões, mas o obscuro autor da

_Talitha_ tem orgulho do seu trabalho e esse orgulho é como a

soberbia das mães que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os

no coração como as imagens incomparaveis da suprema formosura.

A _Talitha_ não será brasileira porque o assumpto e os personagens são

portuguezes; não será portugueza porque o seu autor não teve a

felicidade de nascer em Portugal, mas...

Mas a _Talitha_ é mais que portugueza, mais que brazileira, é humana.

Mas a _Talitha_ é minha... É o producto do meu espirito, do meu

trabalho, é filha da minha mocidade...

É modesta, é pauperrima, e futil, mas é minha.

E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada;

póde viver noventa annos, como Sárah, não haverá Abrahão na terra que

lhe arranque um Isaac das entranhas...

Os zoilos são admiraveis, sabem tudo e não fazem cousa alguma.

Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a

fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do céo; desde a

constituição intima da familia á grandeza fulgurante da historia.

Os primores da paysagem, a belleza e a simplicidade dos costumes, os

encantos da musica popular e da poesia anonyma, a bravura dos homens com

o typo legendario do gaúcho, a formosura das mulheres inspirando os

altos feitos heroicos, o mysterio das florestas que dá o aspecto

profundo á alma do povo, a vastidão das campinas que modela a franqueza

limpida das consciencias, o desdobrar ondulante das cochilhas que

imprime ao typo riograndense a epopeia da nossa historia, os vultos

homericos dos nossos guerreiros, a envergadura dos nossos estadistas, a

intelligencia dos nossos escriptores, a obra dos nossos politicos, tudo

isso a critica dos zoilos conhece... _à merveille_.

Sabe ella que o verso está banido do theatro moderno e só é admittido

nos assumptos historicos ou nas phantasias caprichosas dos sonhos e

devaneios litterarios; sabe ella que os alexandrinos devem ser

emparelhados á maneira de Corneille e Racine, alternando-se agudos e

graves, na symetria impeccavel de parallelas geometricamente exactas;

sabe ella que o rythmo do verso não deve ser apenas o junqueireano para

evitar a monotonia: sabe ella que a rima deve ser opulenta: sabe que no

theatro moderno a prosa supplanta o verso, porque se presta melhor ás

exigencias do estudo da psychologia dos personagens; que a escola

romantica foi batida pelo naturalismo; que hoje os exemplos a seguir não

são os d'Ennery, os Augier, os Scribe, os Labiche, os Dumas, os Meilhac:

que os modelos acceitaveis são Suderman, Ibsen, Hauptmann Bjornsen; tudo

isso a critica dos zoilos sabe perfeitamente.

Além disso a critica tem talento, tem erudição, tem admiradores, tem

bibliothecas, tem a vida garantida e facil pela munificencia do thesouro

publico, tem o apoio da sociedade, não sabe o que seja a amargura da

lucta pela existencia...

Entretanto as horas passam, os dias correm, os mezes flúem, os annos se

succedem e a critica deixa em abandono todo esse material soberbo e

magestoso, esquece todos esses elementos de incomparavel riqueza, e não

produz absolutamente nada.

Atravessa a existencia, como um janota futil que vive preoccupado com a

coloração garrida das gravatas, com o brilho frio dos collarinhos, com o

figurino do fato, empanturrando-se da leitura _à la diable_, maldizendo

do tudo e de todos e vivendo de um usofructo que a sociedade constituiu

pelo trabalho accumulado exactamente d'aquelles que a critica dos zoilos

alveja, fere, offende e babuja.

Vive para gozar e maldizer.

A critica indigena dos zoilos é como o Sahára: esterilidade completa,

beduinos e camellos.

Á caravana dos zoilos, o deserto e a receita de Ezequiel.

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Talitha: evangelho em tres actos · 第 7 / 7 段