_Necessidade da obediencia: elogios da naçaõ Portugueza: utilidades da
Agricultura: quanto foi apreciada pelos antigos Portuguezes: castigos
dos pedantes na ilha dos Mortos: chegada de Crates Mallotes, para me
persuadir a ser Grammatico, &c._
Logo que Crates Mallotes mandou os seus subditos, nada se demoráram, e
eu naõ pude tambem fazer outra despedida, que voltar o rabo para o ar, e
o bico para o chaõ, e fazer-me de volta com taõ respeitaveis
companheiros. Accusava-vos todavia de sahirem taõ apressados, que me naõ
deixaram fazer os devidos comprimentos, ao menos a todos os que haviam
fallado no Congresso, de quem tinha eu recebido taõ altas mercês;
porque a toda a multidaõ era impossivel.
Comprimentaste a todos, disse Sanches, sem nicas, nem fingimentos dos
Politicos mundanos. A obediencia he o eixo da carroça social, por falta
deste dever he que ninguem hoje póde viver no mundo. A nossa sociedade
compoem-se de sabios que sabem muito bem a sua obrigaçaõ, sem o conselho
dos quaes nenhuma póde ser bem dirigida. O nosso velho mandou, governa,
obedecemos.
Os sabios! disse Diogo de Teive com hum grande suspiro: A pedantaria!...
Mas foi Deos, Gúliver, o que te fez aqui arribar: para remedio de muitos
abusos literarios da minha naçaõ, que a pedantaria das outras naõ me
importa. Has de achar ahi, dizia elle, has de achar, quem te ajude em
este grande serviço. Já Portugal estava com seu rosto coberto de luzes,
quando outros póvos estavam sepultados em as mais escuras trevas da
ignorancia. Naõ ha no mundo quem tenha melhor legislaçaõ; os nossos
Monarcas saõ Senhores no nome, e na Magestade; pais no procedimento:
has de achar hum Principe Religioso, Pio, moderado, amigo de Deos, e dos
homens; hum Principe, como Tito, que chora o dia em que naõ póde fazer
mercê: que está immovel aos conselhos menos piedosos: e que naõ quer
tirar o paõ aos servos do Sanctuario, para sustentar o odio, que a
pedantaria do tempo tem aos altares.
Na verdade, disse Sanches, nenhuma naçaõ da Europa tem tido melhores
Reis, e por isso nunca outros tiveram iguaes vassallos.
Tem boa dúvida, disse Diogo de Teive, os Portuguezes pódem-se chamar
melhor filhos, que vassallos dos seus Soberanos, pela fedilidade, e amor
com que todo o povo os serve.
Para que estais com isso? replicou Sanches, toda a naçaõ Portugueza se
tem distinguido em tudo das mais. Quem tem tido melhores Reis? quem
melhores vassallos? Quem melhores letrados? Quem melhores soldados?
E quem, continuou Teive, hum Joaõ das Regras? hum Camões? hum Barros?
hum Heitor Pinto, gloria dos Frades de Belém, honra de Portugal?
Entaõ foi desenvolvendo a Historia de todos os Reis de Portugal, os
sabios de todas as épocas: acções que pareciam fabulas: guerreiros:
proezas até das proprias mulheres. O que tudo vos deixo de contar naõ
tanto por se naõ engrossar o volume, como para economia da bolsa de meus
apaixonados. Além de que tudo achareis em as Historias daquella naçaõ,
ainda que os mortos sabiam o que ellas vos naõ contam.
Já Teive entrava a elogiar muitos dos vivos, sem todavia proferir os
nomes de cada hum, até que todo inflammado disse: Será mais facil acabar
toda a geraçaõ Portugueza, do que apossar-se della o inimigo.
O que saõ os Portuguezes, disse Sanches, ainda neste tempo dos chás, e
dos caffés, em o Rossilhaõ, e em Napoles muito bem se conheceu.
Em quanto eu hia caminhando entre os dois amigos, ouvindo attentamente
os elogios dos Portuguezes, que muito me deleitáram os ouvidos: tambem
hia desfructando com os olhos a linda prespectiva naõ só de verdes
seáras, mas tambem de vistosas arvores, carregadas de bellas fructas,
assim como risonhos prados: muitas vinhas; olivaes &c. ví muitos
carreiros, almocreves: muitos homens a assar castanhas, outros a pôr
hortalica, outros em fim a semear batatas. Estava na verdade ancioso por
saber que gente fosse aquella: e ainda mais fiquei, quando vi outros a
esfolar mosquitos: e muitissimos á caça de moscas.
Já com difficuldade me podia ter; porem Teive que previo a minha
curiosidade, disse-me: Bem sei que estás admirado do que vês: por isso
deves saber, que naõ pódem aqui morar senaõ Grammaticos, e Professores
de ler, e á medida do seu pedantismo se lhes dá cá occupaçaõ competente:
Lavradores somos nós todos: os charlatães tem differentes
ministerios, ou almocreves, ou carreiros, &c. os delicados assam
castanhas: os negligentes caçam moscas: os que deixam de exprimir os
seus pensamentos, porque naõ acham em Cicero palavras para isso, estaõ
se cançando a tirar a pelle aos mosquitos. Mas como naõ gostamos de
gente ociosa todos nas occasiões vaõ trabalhar em Agricultura.
Se lá no mundo, disse Sanches, mandassem cultivar a terra a homens
inhabeis para as letras (naõ deixando em silencio aquelles infinitos
estudantes de Mathematica, que nem sabem ler) nem mortificariam a seus
Mestres, nem faltaria paõ.
Assim como em meu tempo, disse Teive, em que a Agricultura era taõ
estimada: entaõ naõ era preciso vir trigo de fóra, antes havia muito
para vender, e quando era cáro naõ passava o alqueire do preço de trinta
réis. Oh! Felizes tempos, em que haviam sabios, haviam soldados, havia
de comer!
E naõ haviam, disse Sanches, casquilhos sem religiaõ, a medirem as
verdades Positivas a compasso: feitos Juristas, e Theologos abstractos.
Estas, e outras coisas diziam, e tinhamos já bastante caminhado; porém
nunca me custou taõ pouco o andar. Eu bem podia voar; todavia por
decencia hia a pé. Cada vez mais campinas cultivadas hia descobrindo,
até que chegámos a hum oiteiro carregado de tójos, e de cardos, por onde
pastava huma grande manada de jumentos, guardados por infinitos homens.
Estes saõ os Professores de ler, disse Teive, que no mundo só ensináram
os meninos a gaguejar, e que foram a causa de nunca poderem avançar ao
estudo das sciencias. Naõ foram como os que viste em o congresso, os
quaes aproveitáram mais ás suas respectivas nações, do que muitos
Rhétoricos, e Filósofos.
A literatura, disse Sanches, he a base das sciencias, e quem poderá ser
sabio, sem que saiba ler?
Resolvi-me pois, a fazer minhas perguntas; mas sempre commedidas
para naõ me portar, como tolo. Abrí o bico, dizendo: Aonde estaõ
aquelles defunctos, que nem foram Grammaticos, nem Professores de ler?
Além daquelle rio caudaloso (respondeu Sanches, apontando com o dedo) ha
muitas ilhas, e cada qual tem a sua jerarquia; porém se algum foi
Mestre, ou escriptor de Grammatica, ou Professor de primeiras letras,
ainda que tambem fosse Rhétorico, Filósofo, Theólogo, ou General, &c.
faz-nos entaõ o favor de vir para aqui.
Em quanto Sanches me satisfazia, puxou Teive de huma luneta, e olhando
para além do rio, entrou a rir como hum perdido.
Aqui me obrigou a fazer segunda pergunta; porque em similhantes
occasiões tem muita desculpa a curiosidade.
Naõ ha coisa mais galante, respondeu, lá está Pythágoras, com a
escudélla de Diógenes entre pernas, comendo favas, como o lobo carne
de borrego.
No mundo, disse Sanches, naõ houve quem mais asco lhes tivesse, e agora
está capaz de engolir a mesma escudélla. Ora o certo he, que se entre os
Grammaticos ha pedantes, muitos mais achareis entre os Filósofos.
Já haviamos passado as fraldas de huma montanha de mais de tres legoas
de altura: quando ví os seus lados cobertos de bois, cabras, ovelhas: de
maneira que naõ avistava palmo de terra; e muito tempo estive
persuadido, que os pegureiros eraõ pedras cor de musgo. Mas a poucos
passos ví em o cume do monte hum mirante de tal grandeza, e magestade,
que a pobreza de minha penna naõ o póde debuxar. Basta dizer, que a sua
escadaria principiava desde seis milhas, e era de tal arquitectura, que
me parecia ir correndo por huma eira.
Ainda Sanches hia batendo nos Filósofos pedantes, dizendo raios
contra Voltaire, e contra outros impios: senaõ quando ahi chega Crates
Mallotes em huma cadeirinha, trazida aos hombros de dois mariólas,
vestidos com saiaes até o joelho de pelles de bóde côr de cinza. Tenho
vergonha de dizer a naçaõ a quem pertenciam: Portuguezes naõ eram, o que
digo por descargo de minha consciencia; pois que Sanches me disse, serem
taõ respeitados naquella ilha os Portuguezes, que até os mesmos pedantes
eram muito favorecidos.
Para que saibas, disse o meu Velho, para que saibas quanto te estimo; e
para que agradecido a esta boa hospedagem, venhas em outro tempo para a
nossa companhia, he que venho estar comtigo até que daqui te safes.
Dizendo isto sahio pela cadeirinha fóra, e fomo-nos sentar bem perto da
entrada do mirante.
Fez varias perguntas, entre outras, que me tinha parecido a sua ilha? E
tambem me disse a razaõ de naõ haver nella jardim, nem coitada: e
por fim levantou-se, e bateu a pórta do mirante, que logo se abrio; e o
que se passou, logo o vereis: e espero que muito vos divirta, e que nada
menos vos aproveite.