No seminario, dizia-nos o lente de rhetorica:--A theologia é a cabeça do
genero humano, o latim a perna esquerda, e a rhetorica a perna direita.
Justamente da perna direita é que o Theophilo coxeava. Sabia muito as
outras cousas: theologia, philosophia, latim, historia sagrada; mas a
rhetorica é que lhe não entrava no cerebro. Elle, para desculpar-se,
dizia que a palavra divina não precisava de adornos. Tinha então vinte
ou vinte e dous annos de edade, e era lindo como S. João.
Já n'esse tempo era um mystico; achava em todas as cousas uma
significação recondita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo
servia de altar, a alma de sacerdote e o corpo de acolyto; nada
respondia á realidade exterior. Vivia ancioso de tomar ordens para sahir
a prégar grandes cousas, espertar as almas, chamar os corações á Egreja,
e renovar o genero humano. Entre todos os apostolos, amava
principalmente S. Paulo.
Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se póde avaliar um
homem pelas suas sympathias historicas; tu serás mais ou menos da
familia dos personagens que amares devéras. Applico assim aquella lei de
Helvetius: «o grau de espirito que nos deleita dá a medida exacta do
grau de espirito que possuimos». No nosso caso, ao menos, a regra não
falhou. Theophilo amava S. Paulo, adorava-o, estudava-o dia e noite,
parecia viver d'aquelle converso que ia de cidade em cidade, á custa de
um officio mecanico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha sómente
esse modelo, tinha mais dous: Hildebrando e Loyola. D'aqui podeis
concluir que nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era um
faminto de ideal e creação, olhando todas as cousas correntes por cima
da cabeça do seculo. Na opinião de um conego, que lá ia ao seminario, o
amor dos dous modelos ultimos temperava o que pudesse haver perigoso em
relação ao primeiro.
--Não vá o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com
brandura; não pareça que, exaltando sómente a Paulo, intenta diminuir
Pedro. A egreja, que os commemora ao lado um do outro, metteu-os ambos
no Credo; mas veneremos Paulo e obedeçamos a Pedro. _Super hanc
petram..._
Os seminaristas gostavam do Theophilo, principalmente tres, um
Vasconcellos, um Soares e um Velloso, todos excellentes rhetoricos. Eram
tambem bons rapazes, alegres por natureza, graves por necessidade e
ambiciosos. Vasconcellos jurava que seria bispo; Soares contentava-se
com algum grande cargo; Velloso cobiçava as meias roxas de conego e um
pulpito. Theophilo tentou repartir com elles o pão mystico dos seus
sonhos, mas reconheceu depressa que era manjar leve ou pesado de mais, e
passou a devoral-o sosinho. Até aqui o padre; vamos agora á dama.