II

A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco

amigos acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a

almoçar.

--Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos, disse

elle.

Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou uma

anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do

almoço, como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao

gabinete, e escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma

caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim

sentia-se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete

tal qual estava. Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com

elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos,

programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de

mistura e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos

manuscriptos, numerados e datados.

--Um diario! disse Benjamim.

Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de memorias

secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoção dos

amigos; lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão discreto

espirito! Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe

depressa, e João Braz continuou-a.

O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do

prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica,

anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras

puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um

repertorio de factos e commentarios. Cada um admirava o talento do

finado, as graças do estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela

impressão typographica; Benjamim dizia que sim, com a condição de

excluir alguma cousa, ou inconveniente ou demasiado particular. E

continuavam a ler, saltando pedaços e paginas, até que bateu meio-dia.

Levantaram-se todos; Diogo Villares ia já chegar á repartição fóra de

horas; João Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a

loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher á

rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunião para proseguir a leitura.

Certas particularidades tinham-lhes dado uma comichão de escandalo, e as

comichões coçam-se: é o que elles queriam fazer, lendo.

--Até amanhã, disseram.

--Até amanhã.

Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras cousas,

admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e

semelhança, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma

rara isenção de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos.

Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos,

outros de mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano,

Olinda, etc. Eram curtos e substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos

firmes, com tal fidelidade e perfeição, que a figura parecia

photographada. Benjamim ia lendo; de repente deu com o Diogo Villares. E

leu estas poucas linhas:

«DIOGO VILLARES.--Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e

fal-o-hei algumas outras mais, se elle me não matar de tedio, cousa em

que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um

emprego, e arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me pagaria. Que

singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o.

Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim,

acabou. Mais tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda

melhor. _C'est le genre ennuyeux._ Não é mau parceiro de voltarete.

Dizem-me que não deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e

credulo. Com intervallo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um

ministerio que era excellente e detestavel:--differença dos

interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o vê pela primeira

vez, começa por suppol-o um varão grave; no segundo dia dá-lhe

piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente, as bochechas,

que lhe emprestam um certo ar superior.»

A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo

Villares estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia

negal-o, era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra do

tio. E não era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o

Elias:

«ELIAS XAVIER.--Este Elias é um espirito subalterno, destinado a servir

alguem, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa

elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com alguma

arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras

semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e não menos

comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio

da rua. Ha occasiões em que me chama a um vão da janella para fallar-me

secretamente do sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a

suspeita de que ha entre nós cousas particulares, e alcança isso mesmo,

porque todos lhe rasgam muitas cortezias. É intelligente, risonho e

fino. Conversa muito bem. Não conheço comprehensão mais rapida. Não é

poltrão nem maldizente. Só falla mal de alguem, por interesse;

faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicencia legitima é gratuita.

Dedicado e insinuante. Não tem idéas, é verdade; mas ha esta grande

differença entre elle e o Diogo Villares:--o Diogo repete prompta e

boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazel-as suas e

plantal-as opportunamente na conversação. Um caso de 1865 caracterisa

bem a astucia d'este homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do

Paraguay, ia receber uma commenda. Não precisava de mim; mas veiu pedir

a minha intercessão, duas ou tres vezes, com um ar consternado e

supplice. Fallei ao ministro, que me disse:--«O Elias já sabe que o

decreto está lavrado; falta só a assignatura do imperador.» Comprehendi

então que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom

parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido.»

--Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de alguns

instantes, reflexionou comsigo:--Estou lendo um coração, livro inedito.

Conhecia a edição publica, revista e expurgada. Este é o texto primitivo

e interior, a lição exacta e authentica. Mas quem imaginaria nunca...

Ora o tio Joaquim!

E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar,

meditando as feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a

verdade do escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era

semelhante. Cotejava essas notas iconographicas, tão cruas, tão seccas,

com as maneiras cordiaes e graciosas do tio, e sentia-se tomado de um

certo terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o

finado? Com esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto

algumas damas, alguns homens publicos, deu com o Fragoso,--um esboço

curto e curtissimo,--logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o

João Braz. Justamente o primeiro levára delle uma caneta, pouco antes,

talvez a mesma com que o finado o retratára. Curto era o esboço, e dizia

assim:

«FRAGOSO.--Honesto, maneiras assucaradas e bonito. Não me custou

casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinaria

adoração,--quasi tanta como a si mesmo. Conversação vulgar, polida e

chocha.»

«GALDINO MADEIRA.--O melhor coração do mundo e um caracter sem macula;

mas as qualidades do espirito destroem as outras. Emprestei-lhe algum

dinheiro, por motivo da familia, e porque me não fazia falta. Ha no

cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega e cai no

vacuo. Não reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de

imagens, de phrases translatas. Os «dentes da calumnia» e outras

expressões, surradas como colchões de hospedaria, são os seus encantos.

Mortifica-se facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre em

perder, e em mostrar que é de proposito. Não despede os maus caixeiros.

Se não tivesse guarda-livros, é duvidoso que sommasse os quebrados. Um

subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous

annos, dizia-me com muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em

vez de lhe pedir a divida, pedia-lhe noticias do ministerio.»

«JOÃO BRAZ.--Nem tolo nem bronco. Muito attencioso, embora sem maneiras.

Não póde ver passar um carro de ministro; fica pallido e vira os olhos.

Creio que é ambicioso; mas na edade em que está, sem carreira, a ambição

vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em que serviu de

deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e fez

alguns discursos bons, não brilhantes, mas solidos, cheios de factos e

reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambição, é o ardor

com que anda á cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha

alguns mezes consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. José, e

segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que é

atheu, mas não affirmo. Ri pouco e discretamente. A vida é pura e

severa, mas o caracter tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só

faltou a mão do artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.»

Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.--«Este meu sobrinho,

dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um projecto de

reforma judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu não o amo menos.

Discreto leal e bom,--bom até á credulidade. Tão firme nas affeições

como versatil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no

direito o vocabulario e as formulas.»

Quiz reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um

espelho. Levantou-se, foi á janella, mirou a chacara e tornou dentro

para contemplar outra vez as suas feições. Contemplou-as; eram poucas,

falhas, mas não pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, é

provavel que a mortificação do rapaz fosse menor, porque a necessidade

de dissipar a impressão moral dos outros dar-lhe-ia a força necessaria

para reagir contra o escripto; mas, a sós, comsigo, teve de supportal-o

sem contraste. Então considerou se o tio não teria composto essas

paginas nas horas de máu humor; comparou-as a outras em que a phrase era

menos aspera, mas não cogitou se alli a brandura vinha ou não de molde.

Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as

horas de intimidade e riso, a sós com elle, ou de palestra com os demais

familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a

pilheria grave; em logar d'essa, tão candida e sympathica, a que lhe

appareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos e

o labio arregaçado. Sacudiu-a do espirito, mas a imagem ficou. Não

podendo rejeital-a, Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e

concertar-lhe a bocca; mas tão depressa o fazia, como a palpebra tornava

a levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já não era o homem, era o

auctor do manuscripto.

Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, á tarde,

apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram

sofregos, anciosos; fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com

instancia para ver o manuscripto. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto

e aquillo, inventava pretextos; por mal de peccados, appareceu-lhe na

sala, por traz d'elles, a eterna bocca do defunto, e esta circumstancia

fel-o ainda mais acanhado. Chegou a mostrar-se frio, para ficar só, e

ver se com elles desapparecia a visão. Assim se passaram trinta a

quarenta minutos. Os cinco olharam emfim uns para os outros, e

deliberaram sahir; despediram-se ceremoniosamente, e foram conversando,

para suas casas:

--Que differença do tio! que abysmo! a herança enfunou-o! deixal-o! ah!

Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!

Historias Sem Data · 第 30 / 72 题