Ser literato... fosse como fosse, custasse o que custasse, desse no que
desse, era o meu diuturno desejo.
Sahi do torrão natal no firme proposito de estudar _mathematicas_ e os
primeiros livros que comprei nesta côrte foram o _Diccionario poetico_,
por Candido Lusitano e o das _Rimas_ por Beltrano de Tal Guerreiro.
Eu era um _montão de poetas_ a um só tempo, não se enganara o _Lagarto_.
Todas as paixões me ferviam dentro da alma, como a um tempo fervem
muitas panellas n'um só fogão.
Na segunda feira, eu era poeta sceptico e crente; na terça, ascetico e
materialista; na quarta, pudico e licencioso, e d'ahi até o domingo,
mais seis poetas extremamente oppostos.
Animações choviam.
Os _jornaes diarios_ e _periodicos_, a partir dos mais rispidos e
terminando na benevolentissima _Marmota Fluminense_, me gritavam
_avante_!
Se eu dava á luz uma poesia recendendo scepticismo--é Byron, é
Voltaire... diziam elles; se asceticismo--é o novo padre Caldas, é
Racine (pai e filho), é o nosso David... se materialismo--é, outra vez,
Byron, Piron, Parny... se tristeza--André Chénier e mais quatro; se
facecia--é Bocage, Diniz e não sei quaes mais... se pudicicia e amor,
não tem que vêr,--é Bernardim Ribeiro e até Sapho! se epigramma--é
Juvenal, é Marcial, é Nicoláo Tolentino e mais tres vivos, sendo um
destes o meu amigo Faustino Xavier de Novaes... se... o menos que me
chamaram foi Homero!
E o echo repercutia pelos angulos do imperio--Homero!
Estavam cumpridas as prophecias do _Camarão_ mais do _Lagarto_: na minha
vanguarda não se via outro literato mais consummado.
E quando ao por do sol, do postigo das minhas aguas-furtadas, eu
percorria in mente as paginas da literatura de todas as nações partindo
do 1.º até o 19.º seculos, eu desdenhava os genios com a sobranceria do
Pão d'Assucar contemplando as microscopicas ilhas dispersas pelo oceano,
como pés de repolhos á tona d'agua.