Verdade lizas diziam os antigos, diziam elles: _hospede ao terceiro dia
fede._
Na casa do proprio amor, tres dias depois, não cheira o hospede.
Ao quarto dia, me disse Aurora:
--Não te amuas comigo?
--Porque? perguntei.
--Se eu te disser a verdade?
--Não.
--És um _empecilho_...
--Só?
--E é pouco?
Era de facto assaz. Puz-me a pensar.
--No que pensas? tornou ella.
--Na cousa mais simples deste mundo.
--Qual?
--N'um chapéo...
--Por fallares em chapéo, de quem será um, que anda pelo sotão?
--Poderá ser meu... anda vêr...
A rapariga não se deixou rogar. Lesta foi, lesta voltou.
--É justamente meu, clamei, antes de pôr o chapéo na cabeça.
O chapéo era tanto meu como de quem me ouve. Ficava-me na cabeça por
muito obsequio.
--Acautela-te, acudio Aurora, olha que elle quer subir...
--Aurora, lhe disse com seriedade, toma um beijo... é tudo quanto posso
dar-te, como lembrança de minha gratidão...
Ao proferir a palavra gratidão--cresceu-me o nó da garganta.
--Não me deves nada, meu querido, respondeu a meia voz. Eu sinto muito
mas... tu sabes...
--Sei... tens razão... adeus...
Beijamo-nos...
--Tornas ao tio?
--Torno.
Sahi.
--Pois, se tornares ao tio, rematou ella fechando a porta, apparece por
aqui de quando em quando...
--Se tornares ao tio, repeti a mim mesmo, sim! se tornares ao tio, isto
é, quando tiveres casa, a minha estará as tuas ordens... Agradecido,
Aurora.
No entanto, Aurora tinha coração.
Assim houvesse ella juizo.