Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos

da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes

fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130)

diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e

pescarias, era cidade florescente[35].

O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado

para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto

consentia a arqueação das caravelas.

D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de

Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de

Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).

O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num

local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que

em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga

cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e

agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a

desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho

Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_).

Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais

minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du

Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é

uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo

que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de

limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8

ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do

sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações

constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.

Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon.

Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam

as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV,

144).

O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do

sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o

braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo

para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329).

Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se

encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou

caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente,

tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297).

Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem

sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a

obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma

noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto

topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do

que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao

trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das

minas.

XIII

De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor

do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.

É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser

considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os

oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.

Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais

frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu,

germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia

tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar

a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu

apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o

seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto

foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado

de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu

braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos

transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos

prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens.

Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres

e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que

seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para

obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro

que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o

effeito produzido.

Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos

habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a

sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras

tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza,

incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J.

Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou

a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes

tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o

outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na

impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os

Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a

cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec.

II, antes de Christo (138 a. C).

Feito isto, o conquistador regressou a Roma.

Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é,

com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos

oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da

conquista, não deixa de ser elucidativa.

Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum

quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti

amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as

ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás

cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que

chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o

soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já

da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem

tumidos de calor.

Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca

imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de

Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).

Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal

afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real

que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?

Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o

jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de

independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a

probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de

averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as

trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.

Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o

onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso

mais provavel do verso susodito de Vergilio:

_Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_

Março de 1907.

_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo

nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch.

Port._, XII, 42).

[1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas

Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de

_civitas aeminiensis_.

[2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de

Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone

Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques

Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em

consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito

reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza

Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não

podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que

ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a

Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).

[3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como

o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim

anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de

Lusitania_, II, 28.

[4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do

Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed.

de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de

Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV.

[5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor.

[6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás

eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre

«Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de

passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de

Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que

escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I,

137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio

circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non

licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão.

Veja-se Sousa a O. de Vagos.

[7] Por partes temos:

De Gaia á Feira 21:900 metros

Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros

De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros

De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros

Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros

De Agueda á Mealhada 22:000 metros

Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros

105:100 metros

[8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana

seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era

preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no

troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso,

porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo

menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115

kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e

da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das

distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea

(45:800 metros e 59:000 metros).

[9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos

que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci

alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.

[10] É força porém attentar na exigua differença que no caso

presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos

(Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela

estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes

parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que,

acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale,

delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via

militar. Veja-se o diagramma.

[11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo

caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.

[12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas

poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro

romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga

(Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é

apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_

não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que

nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere

_Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido

pelos AA.

Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em

Viseu. Peor!

[13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento

(n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se

lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego

densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus

habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo.

[14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46,

57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos

estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na

hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou

proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a

atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E

digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem

direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice

meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e

Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi

tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra

incomparavelmente melhor?

[15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus

foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue

des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a

caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que

beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les

héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._

[16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria

ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente

estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla

em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata

dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg)

fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha:

nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as

haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no

fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas

muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com

vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de

fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros,

cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os

romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país.

Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua

decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização

romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá

então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto

encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje

esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos

documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou

secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI

da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776):

Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires!

At qui umbrata gerunt civili tempora quercu,

Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam,

Hi Collatinas imponent montibus arces,

775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque:

Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.

(_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).

(Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos

ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo

carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de

Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas,

Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do

Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na

terra sem nome._

Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e

em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a

denominação de _castro_ ou _crasto_.

Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de

citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra

_castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de

entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13):

_Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com

referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido

_Portumcale castrum_, de Idacio.

Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_,

_cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev.

des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e

applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte

permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio &

Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem

popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos

estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais

deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as

designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_

e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado

a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda

se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo,

o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello,

altura fortificada (_Talabriga_).

Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes

montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico

e uma directriz frequentada.

[17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de

_Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem

estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191).

[18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro

compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não

pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até

se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do

anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.

[19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p.

226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem

entendeu.

[20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um

documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o

n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto

de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como

_Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch.

Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.

[21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de

Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão,

IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas

de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87).

[22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario,

mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em

consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa

de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da

Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a

actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port.

Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141,

parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_

que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000

metros para leste da lagoa.

Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram

difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes

des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907).

[23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a

escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do

roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma

averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu,

collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo

anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico

systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me

seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação

d'aquella natureza.

Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.

Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de

fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra

e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.

[24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio

no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!

[25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La

geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_,

I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a

Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro

descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do

Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois

chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma

aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas

jornadas a Braga e outras duas a Tuy.

Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_!

[26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais

documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por

exemplo:

N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era

nas vizinhanças de Villa do Conde).

N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio

de Arouca).

Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas,

como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser

inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores

aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam

andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em

fórma, por serem invios os territorios.

Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam

estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o

fallar do povo.

É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,

III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um

seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a

interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera

conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as

obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se

_Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se

dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p.

569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que

vay a Avinham».

[27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses

documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de

caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o

termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata

ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_

(id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit

via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e

549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os

620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_

(n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e

_strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje

se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi

só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas

de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana;

certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra

denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º

676), que parece corresponder a caminho publico.

_Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já

naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde

concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc.

n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no

concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via

militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca

romana.

Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga · 第 2 / 3 段