Tu, imprudente moço da parabola messianica, tu, de certo, sentiste,
voltando ao lar, desilludido e pobre, a mesma impressão que me feriu o
espirito quando, abrindo os olhos á luz clara da manhan, reconheci o
meu quarto modesto, alvo como uma cella monastica, ornado singelamente
com os meus instrumentos de caça. Ao fundo, num velho armario tosco, os
livros das minhas leituras ao lado da mesa ampla e pesada das minhas
meditações.
Coisas minimas para as quaes raramente se voltavam meus olhos, como
as mirei extasiado! E que prazer em folhear brochuras, em reler
fragmentos, em passar a mão pelos couros estirados nos muros claros!
E quem diria que eu, tão exigente outr’ora, achando infecto esse
jornalesco patricio o _Phanal de Tamanduá_, havia de ler, desde o
artigo de fundo sobre a questão do casamento do Braz Lamenha, infenso
ao pretor e á lei, redigido pelo meu venerando mestre o reverendo
Coriolano, até o annuncio do bazar do Pindella. Decididamente não ha
nada para revigorar o amor como a saudade.
Os rumores deliciavam-me e enterneciam-me--deixei-me estar muito tempo
a ouvir o chofrar das aguas do moinho, perto do meu quarto, e descobri
um encanto divino no balido das ovelhas que erravam pelos caminhos.
Leve, longinquo, soava o sino da parochia, ora brando, ora forte,
conforme a brisa e nasceu-me uma estranha curiosidade de saber se
aquelles toques, que vinham pela manhan limpida, sonoros e festivaes,
eram por algum santo ou pelo baptismo de mais um sertanejo. Mas,
acalmando-me, entrei por uma duvida incoercivel recapitulando a vida
fantastica desses oito dias aventurosos, que tão depressa correram.
Pareceu-me que jámais passara além das montanhas levemente esfumadas no
horizonte, reduzi essa viagem da minha imaginação a uma simples sortida
de caça--a mesma fadiga que eu sentia era natural depois de tantas
escaladas atrevidas, depois de tantos saltos temerarios, ravinas acima,
penhascos abaixo.
Que trazia eu que me demonstrasse ter vivido nessa cidade de luxo e
de vicio, tão celebrada entre serras pelos que, uma vez, pisaram as
suas ruas e admiraram o seu fausto? Que trazia eu como documentos
affirmativos? a carta de meu tio...? Sim, era uma verdade a carta,
tanto que arrancara a meu pai estas profundas palavras cheias de
sabedoria: «Que eu me deixasse de sonhos. Que me dedicasse á terra,
que é uma fonte perenne de riqueza, porque neste paiz a lavoura é que
rende, e citou a phrase do estadista--isto é «um paiz essencialmente
agricola» aconselhando-me que não a perdesse de memoria. Tudo mais,
vaidade das vaidades.» E ajuntou: «que mais valia ter uma junta de
bois e uma charrua para sulcar o solo do que todas as cartas das
congregações. E, por fim, lembrou que a terra não produz perfidias nem
calumnias e que viver entre as arvores é bem melhor do que viver entre
os homens.» Convenci-me e decidi ficar no campo, lavrando.
Sonha-se tanto! Já uma vez sonhei que era amante de Cleopatra. Vivi
dois longos mezes felizes, de amor lascivo e de festas com a formosa
rainha que me chamava: Ri-Ri.
Com ella enlaçado subi o Nilo muitas vezes, numa barca de cedro, que
tinha um cysne de ouro á prôa. Charmion sempre mimosa, cuidava dos meus
cabellos lavando-os em essencias que vinham da Ethiopia e, até hoje,
guardo a physionomia simiesca de um retinto nubio de nome André, (coisa
estranha, nome exotico na terra de Isis), que era o encarregado de
encher o rython de prata por onde bebiamos, Cleopatra e eu, e descia a
comprar-me cigarros quando me faltavam.
André...! é uma figura indelevel na minha memoria. Entretanto foi tudo
sonho; porque, se a propria rainha, desligando-se das tiras com que os
embalsamadores a prenderam, quebrando o seu sarcophago, viesse dizer-me
que me pertencera um dia, eu lhe diria brutalmente na face: Mentes
como uma bruxa, filha dos Pharaós! Sonho, puro sonho. Com o Rio não
se teria dado o mesmo phenomeno? Porque a verdade é que todos quantos
caminharam pelas ruas da cidade excelsa gabam-lhe as maravilhas e de
todos ouvi narrações de aventuras que eu, nem mesmo em sonho, concebi:
mulheres que desciam a entregar-se, arrulhando entre limoeiros em
flor; outras, mais abrasadas, que, em furor de ciume, ameaçavam com
escandalos e punhaes, e noites delirantes e mil coisas que os persas
imaginosos não incluiram nos contos de Scherazada.
Eu só não vivi: atravessei o Rio como uma sombra perdendo o fio do
prazer quando já o tinha seguro e vendo differentemente de todos,
atravéz do meu tedio e do meu sonho.
Assim foi que achei a rua do Ouvidor infima e acanhada; assim foi que
abandonei o jogo no momento em que começava a accumular; assim foi
que apenas provei o beijo de Jesuina e perdi a viuva. Todos os factos
experimentados, sem remate, interrompidos em meio, justamente como
nos sonhos. Seria embriaguez?... Teria eu atravessado toda uma semana
bebedo como Pedro _Macaco_, que confunde os dias com as noites e não
tem, desde muito, a noção exacta do tempo? Não creio. Sonhei, foi sonho
decididamente. É assim quando sonho, sempre ha de vir uma mulher para
suppliciar-me: foi Cleopatra primeiro, amei-a muito e passou; agora
Jesuina.
A vida é um sonho. Quem sabe se não sonhei? Mas lá fóra ha uma voz que
indaga--se cheguei do Rio. É Simão Carreira, sempre rouco, o mavioso
lyrico. Então não, não é sonho.
Não ha nada mais real do que um poeta e Simão que pergunta se cheguei é
porque sabe que parti. Então os sonhadores são outros que me fizeram
a descripção do Rio, sonhadores ou mentirosos, sonhadores, em summa,
porque a mentira é um producto de sonho. Mas Jesuina!? Foi sonho como
Cleopatra, como Charmion, como o nubio André. _Dreams! Dreams! Dreams!_
E a vida é isto: sonho ou tedio. Antes sonhar.