XIII

O baile do Bessa... (Commendador Saturnino Pecegueiro Bessa, 52 annos,

da ordem de Christo, alguns gráus maçonicos, varios predios e duas

filhas; viuvo.) O baile de 4 de Setembro, data do natal memoravel da

beneficencia encarnada... como descrevel-o neste tempo curto que me

resta emquanto arranjam a minha bagagem? Como descrevel-o assim asinha

e de afogadilho sem retocar o estylo? Arte exige, e muita, a pintura de

tão encantador e selecto convivio de damas e de cavalheiros.

Não, não descrevo, tenho tempo de sobra para commettimento que demanda

esmero e argucia, esmero para fazer com que brilhem, na fórma ingrata

das letras, a graça das senhoras e o sorriso das senhoritas, sorriso

que affixa o reclamo de um coração disponivel, sorriso com que a

garridice poz em reserva obsoleta a quadra da cantiga que começa:

Meu coração está vasio... etc.,

e argucia para penetrar o pensamento dos homens e as entrelinhas de

uma certa viuva prematura, tão habil na seducção que... não é exagero

dizer que essa notavel dama insinou em meu coração a mais inabalavel

certeza da victoria dos meus olhos, pronunciando durante uma valsa de

Strauss (o _Danubio azul_, que tem arrastado nas suas ondas harmoniosas

muitos pares ao altar) duas phrases simples, mas de uma intenção clara

e escandalosa que me fez corar. Simão Carreira, em uma ode immortal,

explica que o pudor no homem é uma tolice... para as mulheres. Eu fui

tolo durante os compassos de Strauss e a viuva acabou a noite nos

braços de um estudante de pharmacia, mais lepido nas danças e mais

desembaraçado em colloquios. O estudante, depois da quadrilha final,

sabia o endereço da viuva e eu aqui estou amarfanhando o enxoval para a

viagem de amanhan.

Dançou-se até meia noite com orchestra, dessa hora para a madrugada

senhoras revesaram-se ao piano. As filhas do commendador, gentis e

conversadas, entretiveram-me com algumas observações de fina e atilada

analyse--falaram-me, com enthusiasmo, das pelouses lamentando apenas

a falta de fiscalisação e os tribofes. Asseguro que esse termo feio e

desgracioso «tribofe» não é uma invenção cerebrina, cahiu dos labios

de Mlle, como uma lesma cahe das petalas de uma rosa. Os diccionarios

não o inserem por escrupulo e, em verdade, «tribofe» é horrivel.

Falaram-me da opera lyrica e, como eu indagasse se tinham ouvido

Wagner, uma affirmou--que sim! Mlle. Alice. A irman, porém, não se

lembrava e foi preciso que a outra recordasse a estréa de um vestido

de faille para que a doce e angelica Delphina sorrisse achando a vaga

reminiscencia dum cavalleiro e dum cysne.

Mlle. Delphina, romantica, durante uma languida habanera, falou-me,

enternecida, do _Serge Panine_ e criticou a toilette exagerada da viuva

que girava, com o busto em nudez, enlevada nas phrases therapeuticas do

seu amoroso par.

Do que ouvi, no vão de uma janella, emquanto D. Brites, contralto,

cantava ao piano um melancolico romance de Tosti, ficaram-me as

palavras do Dr. Silverio Torres, deputado da opposição, socialista.

Explicou-me, entre outras coisas, que a miseria é um resultado da

abundancia, como a lama é o resultado do excesso da chuva. O mundo,

no seu rudimento, não conhecia a miseria, disse-me---ella appareceu

com a primeira moeda. E teve este pensamento, que deve ficar eterno

como um dogma de economia politica: «Quereis ver um paiz de fome?

entrai num paiz de millionarios», e estendeu o braço para o jardim

procurando mostrar-me além, na grande noite, esse paiz de fome: Lá

está, é a Inglaterra. Olhei machinalmente e vi as estrellas do céu.

O Rio, disse-me mais, vive sitiado pelo varegista. Nós não temos

esquinas, temos vendas, barreiras onde o pobre vai diariamente pagar

o seu imposto. O taverneiro occupa os extremos da rua e, ás vezes,

assalta o centro--e esse excesso de mercado é uma das causas da luta

de contingencia. A luz é a vida, o excesso de luz é a chamma, é o

incendio, é a morte. O taverneiro estabelecido torna-se, em pouco

tempo, o senhor do quarteirão. Por intermedio do caixeiro, que vareja

o mais intimo recesso da casa e espia e ouve emquanto conduz a lenha,

levando para o patrão, conjuntamente com o dinheiro, o segredo da vida

privada do pobre, o taverneiro torna-se uma especie de suzerano--elle

fia, elle sabe. É das vendas que vêm os grandes desesperos para o

proletario, é das vendas que partem as diffamações mais crueis.

Dirão:--mas o pobre podia libertar-se desse jugo fugindo ao balcão do

taverneiro. Infelizmente assim não é--nem sempre o mealheiro tine na

casa do operario, o amanhan é tenebroso e no dia em que elle, baldo

de recursos, por molestia ou por desemprego, tentasse o credito para

o alimento dos filhos, o taverneiro, que não desconhece o prazer

dos deuses, vingar-se-ia. A venda é o terror do pobre porque é o

escoadouro do seu trabalho e, muitas vezes, a causa das suas lagrimas.

Concordei. Elle ainda me fez saber o que eu, até então, ignorava--que

essas casas de penhores são uma instituição do luxo. E demonstrou

com sabedoria: Esses estabelecimentos de recurso prompto só recebem

joias e objectos de alto valor. O pobre, quando muito, possue o collar

que enfeita o pescoço do filhinho, as bixas modestas da esposa, um

relogio de prata para marcar a hora do trabalho--tudo isso que vale?!

Entretanto vá o senhor a um dos leilões das casas de emprestimos e ha

de ver--braceletes preciosissimos, solitarios offuscantes, diademas,

chuveiros, toda a joalheria fidalga e cara, porque a outra nem sequer

é apreçada. O pobre vai aos belchiores e não empenha, vende: o casaco

dos domingos, a cama em que lhe nasceram os filhos, o oratorio dos

santos protectores. Logo: quem empenha? os remediados, os ricos,

para manutenção da apparencia. E perorou iracundo: o prego é uma

instituição do luxo, fomenta o vicio e a hypocrisia. Iamos entrar em

outras analyses quando o commendador Bessa, a conselho de meu tio, veiu

tirar-me para uma valsa com a Ex.ᵐᵃ Snr.ᵃ D. Adelaide Fogget, esposa de

um importador. Dancei e suei. E chamaram-nos para a ceia.

Lauta e facunda, bons vinhos e tropos. Falaram todos, menos eu, que

fujo á exhibição. D’entre os muitos discursos inspirados ficou-me o de

um Bartholomeu de tal, gordo e curto, homemzinho redondo, um frasco.

Louvou e bebeu com emphase; ao fim da terceira taça, rematou: que o

commendador era da massa de D. João de Castro e explicou o parallelo.

Perdi, infelizmente, a explicação porque Mlle. Delphina, que distribuiu

os lugares, fez com que eu ficasse entre a contralto e o deputado

opposicionista, de modo que, durante o transbordamento da facundia,

os arroubos melomanicos da direita e as invectivas da esquerda

distrahiram-me, ella que me dizia, com os olhos em alvo, que depois do

_Vorrei morire_, só a morte, e elle que soprava maliciosamente aos meus

ouvidos: Que áquillo só faltava o retrato a oleo.

Uma balburdia chamou a nossa attenção applicada á ironia--era entre as

senhoras. Todas as damas pediam ao deputado que respondesse por ellas

ao brinde do pharmaceutico, que saudara na mulher a joia mais delicada

sahida das mãos do Creador. E o deputado, mastigando, ás pressas, uma

febra de presunto, empunhou a taça e disse coisas lindas, agradecendo

em nome do sexo feminino. Depois da ceia (dezoito brindes e duas taças

quebradas para que nunca mais concorressem a elevação dos dotes de um

mortal, á mesa) voltámos ás danças.

Grande coisa a vida! Já não baixo á terra fria sem o supremo gozo de

ter passado uma noite em sociedade. Como é divertido um baile... Oh!

simplicidade do meu campo, oh! cateretês da minha serra ingenua...! Ó

noites no rancho, á beira da estrada, com a luz do luar, o bom cheiro

dos bogaris abertos e a cantilena do serrano, ao som da viola, emquanto

os curiangús contentes saltam piando na estrada lisa...

Recolhi-me com a noite--ella a desapparecer no céu, eu a mergulhar nos

lençoes, estafado e triste. Acordei ás tres da tarde, moído. Meu tio,

mal soube que eu abrira os olhos, subiu ao meu quarto para dizer-me

que o doutor estivera com elle; e deu-me um cartão. Li; era laconico e

generoso.

«Meu caro:

Vim trazer-lhe o abraço de despedida. Parto para Belém no comboio da

tarde. O meu caseiro escreveu-me, relativamente á venda de uma porcada

(é o termo). Vou á verdade da vida--o interesse. Tenho um sitio e

consolo-me das durezas e dos desenganos deste mundo cultivando rosas

e criando porcos: o perfume e a linguiça, a floricultura amada dos

atticos e o suino repellido pelo Koran. Levo commigo um livro seu que

achei sobre um dunkerque: Eschylo. É um scaphandro para garantir o

espirito. Boa viagem.

Sempre affectuoso

_Gomes_.»

--Então, meu tio, exclamei radiante, elle não levou a mal os murros...?

--Ora... A italiana não me atirou ao rosto _Amor e Psyché_, e eu?...

Deixa-te disso. O mundo é um jogo de concessões. Deste-lhe um murro,

amanhan ou depois elle t’o restituirá. Isto é assim. E, sem transição,

cravou os seus olhos empapuçados no meu rosto: estava terno como uma

mulher amorosa:

--Anselmo, porque não te formas? Não temos na familia um homem de

sciencia...

Arrisquei o nome de meu tio padre--Cleofano Ribas...

--Cleofano... nem para missas! Temos aqui uma academia livre, estás

prompto em humanidades, sabes latim, que é a palavra de honra de

convicção nas tribunas; porque não te matriculas? Em dois annos podes

estar formado. Ficas commigo. Que diabo! é preciso que eu faça alguma

coisa pela patria--quero deixar-lhe um bacharel.

--Mas meu pai é contrario ás cartas. Desde que lhe receitaram tartaro

para uma congestão hepatica tem horror aos homens formados.

--Teu pai é um misanthropo.

--Alceste, comparei sorrindo.

--Qual Alceste, nem meio Alceste. E serio: Que Alceste?

--De Molière, meu tio.

--Ah! pensei que era o das loterias, esse é um excellente homem. Mas

voltou logo á questão: Se queres escrevo a teu pai?

--Tente, meu tio.

Fiquei só na varanda emquanto Serapião Ribas, no seu gabinete, tratava

de converter o irmão com uma longa epistola sobre o meu futuro.

E o resto da ultima tarde foi de inenarravel tristeza. Os passaros

pareciam chorar adeuses e havia no rumor vesperal dos ramos do jardim e

na agua da rega, que jorrava sobre os canteiros, o suave e blandicioso

timbre de uma voz conhecida que me dizia, queixosa:

--Porque partes, ingrato? E eu? e o nosso amor?...

--É impossivel, Jesuina, comprei passagem de ida e volta, disse

enlevado.

--Que é isso, rapaz? estás falando só?

--Não, meu tio, falo com a minha illusão.

E a noite veiu funebre, mas rutilante de astros.

Ás quatro da manhan, cantavam os gallos pelos quintaes, quando o criado

bateu á porta do meu quarto avisando-me--que o carro estava prompto.

A lua viu-me atravessar o jardim e ella que conte os adeuses que

fiz, mais tristes do que os de Boabdil á Granada. E emquanto durou a

corrida, só tu, Jesuina, só tu, doce amor, mereceste os meus suspiros.

A capital federal (impressões de um sertanejo) · 第 17 / 18 题