O baile do Bessa... (Commendador Saturnino Pecegueiro Bessa, 52 annos,
da ordem de Christo, alguns gráus maçonicos, varios predios e duas
filhas; viuvo.) O baile de 4 de Setembro, data do natal memoravel da
beneficencia encarnada... como descrevel-o neste tempo curto que me
resta emquanto arranjam a minha bagagem? Como descrevel-o assim asinha
e de afogadilho sem retocar o estylo? Arte exige, e muita, a pintura de
tão encantador e selecto convivio de damas e de cavalheiros.
Não, não descrevo, tenho tempo de sobra para commettimento que demanda
esmero e argucia, esmero para fazer com que brilhem, na fórma ingrata
das letras, a graça das senhoras e o sorriso das senhoritas, sorriso
que affixa o reclamo de um coração disponivel, sorriso com que a
garridice poz em reserva obsoleta a quadra da cantiga que começa:
Meu coração está vasio... etc.,
e argucia para penetrar o pensamento dos homens e as entrelinhas de
uma certa viuva prematura, tão habil na seducção que... não é exagero
dizer que essa notavel dama insinou em meu coração a mais inabalavel
certeza da victoria dos meus olhos, pronunciando durante uma valsa de
Strauss (o _Danubio azul_, que tem arrastado nas suas ondas harmoniosas
muitos pares ao altar) duas phrases simples, mas de uma intenção clara
e escandalosa que me fez corar. Simão Carreira, em uma ode immortal,
explica que o pudor no homem é uma tolice... para as mulheres. Eu fui
tolo durante os compassos de Strauss e a viuva acabou a noite nos
braços de um estudante de pharmacia, mais lepido nas danças e mais
desembaraçado em colloquios. O estudante, depois da quadrilha final,
sabia o endereço da viuva e eu aqui estou amarfanhando o enxoval para a
viagem de amanhan.
Dançou-se até meia noite com orchestra, dessa hora para a madrugada
senhoras revesaram-se ao piano. As filhas do commendador, gentis e
conversadas, entretiveram-me com algumas observações de fina e atilada
analyse--falaram-me, com enthusiasmo, das pelouses lamentando apenas
a falta de fiscalisação e os tribofes. Asseguro que esse termo feio e
desgracioso «tribofe» não é uma invenção cerebrina, cahiu dos labios
de Mlle, como uma lesma cahe das petalas de uma rosa. Os diccionarios
não o inserem por escrupulo e, em verdade, «tribofe» é horrivel.
Falaram-me da opera lyrica e, como eu indagasse se tinham ouvido
Wagner, uma affirmou--que sim! Mlle. Alice. A irman, porém, não se
lembrava e foi preciso que a outra recordasse a estréa de um vestido
de faille para que a doce e angelica Delphina sorrisse achando a vaga
reminiscencia dum cavalleiro e dum cysne.
Mlle. Delphina, romantica, durante uma languida habanera, falou-me,
enternecida, do _Serge Panine_ e criticou a toilette exagerada da viuva
que girava, com o busto em nudez, enlevada nas phrases therapeuticas do
seu amoroso par.
Do que ouvi, no vão de uma janella, emquanto D. Brites, contralto,
cantava ao piano um melancolico romance de Tosti, ficaram-me as
palavras do Dr. Silverio Torres, deputado da opposição, socialista.
Explicou-me, entre outras coisas, que a miseria é um resultado da
abundancia, como a lama é o resultado do excesso da chuva. O mundo,
no seu rudimento, não conhecia a miseria, disse-me---ella appareceu
com a primeira moeda. E teve este pensamento, que deve ficar eterno
como um dogma de economia politica: «Quereis ver um paiz de fome?
entrai num paiz de millionarios», e estendeu o braço para o jardim
procurando mostrar-me além, na grande noite, esse paiz de fome: Lá
está, é a Inglaterra. Olhei machinalmente e vi as estrellas do céu.
O Rio, disse-me mais, vive sitiado pelo varegista. Nós não temos
esquinas, temos vendas, barreiras onde o pobre vai diariamente pagar
o seu imposto. O taverneiro occupa os extremos da rua e, ás vezes,
assalta o centro--e esse excesso de mercado é uma das causas da luta
de contingencia. A luz é a vida, o excesso de luz é a chamma, é o
incendio, é a morte. O taverneiro estabelecido torna-se, em pouco
tempo, o senhor do quarteirão. Por intermedio do caixeiro, que vareja
o mais intimo recesso da casa e espia e ouve emquanto conduz a lenha,
levando para o patrão, conjuntamente com o dinheiro, o segredo da vida
privada do pobre, o taverneiro torna-se uma especie de suzerano--elle
fia, elle sabe. É das vendas que vêm os grandes desesperos para o
proletario, é das vendas que partem as diffamações mais crueis.
Dirão:--mas o pobre podia libertar-se desse jugo fugindo ao balcão do
taverneiro. Infelizmente assim não é--nem sempre o mealheiro tine na
casa do operario, o amanhan é tenebroso e no dia em que elle, baldo
de recursos, por molestia ou por desemprego, tentasse o credito para
o alimento dos filhos, o taverneiro, que não desconhece o prazer
dos deuses, vingar-se-ia. A venda é o terror do pobre porque é o
escoadouro do seu trabalho e, muitas vezes, a causa das suas lagrimas.
Concordei. Elle ainda me fez saber o que eu, até então, ignorava--que
essas casas de penhores são uma instituição do luxo. E demonstrou
com sabedoria: Esses estabelecimentos de recurso prompto só recebem
joias e objectos de alto valor. O pobre, quando muito, possue o collar
que enfeita o pescoço do filhinho, as bixas modestas da esposa, um
relogio de prata para marcar a hora do trabalho--tudo isso que vale?!
Entretanto vá o senhor a um dos leilões das casas de emprestimos e ha
de ver--braceletes preciosissimos, solitarios offuscantes, diademas,
chuveiros, toda a joalheria fidalga e cara, porque a outra nem sequer
é apreçada. O pobre vai aos belchiores e não empenha, vende: o casaco
dos domingos, a cama em que lhe nasceram os filhos, o oratorio dos
santos protectores. Logo: quem empenha? os remediados, os ricos,
para manutenção da apparencia. E perorou iracundo: o prego é uma
instituição do luxo, fomenta o vicio e a hypocrisia. Iamos entrar em
outras analyses quando o commendador Bessa, a conselho de meu tio, veiu
tirar-me para uma valsa com a Ex.ᵐᵃ Snr.ᵃ D. Adelaide Fogget, esposa de
um importador. Dancei e suei. E chamaram-nos para a ceia.
Lauta e facunda, bons vinhos e tropos. Falaram todos, menos eu, que
fujo á exhibição. D’entre os muitos discursos inspirados ficou-me o de
um Bartholomeu de tal, gordo e curto, homemzinho redondo, um frasco.
Louvou e bebeu com emphase; ao fim da terceira taça, rematou: que o
commendador era da massa de D. João de Castro e explicou o parallelo.
Perdi, infelizmente, a explicação porque Mlle. Delphina, que distribuiu
os lugares, fez com que eu ficasse entre a contralto e o deputado
opposicionista, de modo que, durante o transbordamento da facundia,
os arroubos melomanicos da direita e as invectivas da esquerda
distrahiram-me, ella que me dizia, com os olhos em alvo, que depois do
_Vorrei morire_, só a morte, e elle que soprava maliciosamente aos meus
ouvidos: Que áquillo só faltava o retrato a oleo.
Uma balburdia chamou a nossa attenção applicada á ironia--era entre as
senhoras. Todas as damas pediam ao deputado que respondesse por ellas
ao brinde do pharmaceutico, que saudara na mulher a joia mais delicada
sahida das mãos do Creador. E o deputado, mastigando, ás pressas, uma
febra de presunto, empunhou a taça e disse coisas lindas, agradecendo
em nome do sexo feminino. Depois da ceia (dezoito brindes e duas taças
quebradas para que nunca mais concorressem a elevação dos dotes de um
mortal, á mesa) voltámos ás danças.
Grande coisa a vida! Já não baixo á terra fria sem o supremo gozo de
ter passado uma noite em sociedade. Como é divertido um baile... Oh!
simplicidade do meu campo, oh! cateretês da minha serra ingenua...! Ó
noites no rancho, á beira da estrada, com a luz do luar, o bom cheiro
dos bogaris abertos e a cantilena do serrano, ao som da viola, emquanto
os curiangús contentes saltam piando na estrada lisa...
Recolhi-me com a noite--ella a desapparecer no céu, eu a mergulhar nos
lençoes, estafado e triste. Acordei ás tres da tarde, moído. Meu tio,
mal soube que eu abrira os olhos, subiu ao meu quarto para dizer-me
que o doutor estivera com elle; e deu-me um cartão. Li; era laconico e
generoso.
«Meu caro:
Vim trazer-lhe o abraço de despedida. Parto para Belém no comboio da
tarde. O meu caseiro escreveu-me, relativamente á venda de uma porcada
(é o termo). Vou á verdade da vida--o interesse. Tenho um sitio e
consolo-me das durezas e dos desenganos deste mundo cultivando rosas
e criando porcos: o perfume e a linguiça, a floricultura amada dos
atticos e o suino repellido pelo Koran. Levo commigo um livro seu que
achei sobre um dunkerque: Eschylo. É um scaphandro para garantir o
espirito. Boa viagem.
Sempre affectuoso
_Gomes_.»
--Então, meu tio, exclamei radiante, elle não levou a mal os murros...?
--Ora... A italiana não me atirou ao rosto _Amor e Psyché_, e eu?...
Deixa-te disso. O mundo é um jogo de concessões. Deste-lhe um murro,
amanhan ou depois elle t’o restituirá. Isto é assim. E, sem transição,
cravou os seus olhos empapuçados no meu rosto: estava terno como uma
mulher amorosa:
--Anselmo, porque não te formas? Não temos na familia um homem de
sciencia...
Arrisquei o nome de meu tio padre--Cleofano Ribas...
--Cleofano... nem para missas! Temos aqui uma academia livre, estás
prompto em humanidades, sabes latim, que é a palavra de honra de
convicção nas tribunas; porque não te matriculas? Em dois annos podes
estar formado. Ficas commigo. Que diabo! é preciso que eu faça alguma
coisa pela patria--quero deixar-lhe um bacharel.
--Mas meu pai é contrario ás cartas. Desde que lhe receitaram tartaro
para uma congestão hepatica tem horror aos homens formados.
--Teu pai é um misanthropo.
--Alceste, comparei sorrindo.
--Qual Alceste, nem meio Alceste. E serio: Que Alceste?
--De Molière, meu tio.
--Ah! pensei que era o das loterias, esse é um excellente homem. Mas
voltou logo á questão: Se queres escrevo a teu pai?
--Tente, meu tio.
Fiquei só na varanda emquanto Serapião Ribas, no seu gabinete, tratava
de converter o irmão com uma longa epistola sobre o meu futuro.
E o resto da ultima tarde foi de inenarravel tristeza. Os passaros
pareciam chorar adeuses e havia no rumor vesperal dos ramos do jardim e
na agua da rega, que jorrava sobre os canteiros, o suave e blandicioso
timbre de uma voz conhecida que me dizia, queixosa:
--Porque partes, ingrato? E eu? e o nosso amor?...
--É impossivel, Jesuina, comprei passagem de ida e volta, disse
enlevado.
--Que é isso, rapaz? estás falando só?
--Não, meu tio, falo com a minha illusão.
E a noite veiu funebre, mas rutilante de astros.
Ás quatro da manhan, cantavam os gallos pelos quintaes, quando o criado
bateu á porta do meu quarto avisando-me--que o carro estava prompto.
A lua viu-me atravessar o jardim e ella que conte os adeuses que
fiz, mais tristes do que os de Boabdil á Granada. E emquanto durou a
corrida, só tu, Jesuina, só tu, doce amor, mereceste os meus suspiros.