insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos
acontecimentos, gerando nos cérebros ideias insubmissas...
--V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?--perguntou a meia voz um
desconhecido que entrou, descobrindo-se.
--Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?
Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do
sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo.
--Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele
gesto,--eu não sou quem pensa... pelo contrário.
--Ah!
--Sou dos _fieis_. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...
E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido:
--Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.
E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia.
--Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.
E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório:
--Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.
Todo êle tremia.
O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima
incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua
seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e
munições. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da
Religião e da Pátria.»
Anselmo gaguejou:
--Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas,
desde já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de
contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa é muito
freqùentada, tudo meche e remeche... não há esconderijos...
--Nesse caso...
--Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem
contar apenas com o apoio moral.
O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança;
--Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição...
O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.
--Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle
apertada,--o nosso Paiva Couceiro como ficou?
--Bem.
--E o rei, tem-no visto?
Não o tinha visto. Estava em Londres.
--Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados
meus, sim?
O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica.
--Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D.
Amélia. Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.
Fez-lhe uma mesura aparatosa:
--Meu caro senhor...
Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios
fronteiros, a ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao
laboratório, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na
perturbação que o invadira, de perguntar o nome do tipo. «E a gente às
vezes a supôr que ninguêm nos conhece, que não consta, que se não sabe
lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...»
Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um
fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência,
reduzindo-a a cinzas.
O documento!
Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia, a correr, sem chaile, a
pedir linhaça para o sr. administrador que estava a morrer com uma cólica.
Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a
mulher, e de repente:
--Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.
--Não tem linhaça?!
--Não tenho. Acabou-se-me.
--E agora?
--Agora... deve chegar amanhã.
--Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!
Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia
trair-se, não podia mais.
--No outro mundo?!
--Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!
Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é
dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente
condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!»
--Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...
--El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,--o
que o sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há
mais boticas!
Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm,
fazendo escândalo:
--É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia,
o talassa, e esquece-se das obrigações...
O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram
sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros
viriam--se viriam!--com larga usura e gratidão...
--Talassa! Talassa!...--gritava a mulher.
--Pois sim...
A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores
assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a
existência do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso voou
por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela
criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios,
gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico.
--E para a farmácia, quem vai?
--Vai a senhora, rosnou, de mau humor.
E abafou-se na roupa.
O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do
caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos
mínimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último,
convencido da derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou:
--E dos _nossos_, quem foi?
--Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.
--Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela
tropa fandanga a ponta-pé?
O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:
--Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre
correligionário...
Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a
funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.
--Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos
embasbacados,--que ideia aquela da restauração! São doidos!... A
Rèpública tem, não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a
reconhecê-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar
para que as novas instituições sejam aquilo para que as creámos.--Não é
isso, Teotónio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido.
E com descaramento:
--Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no
tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por
histórico.
Eu, moita.
--Você não fala? não diz nada?
Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar de indignação
contra aquele farçante; mas ao mesmo tempo sentia--como sentíamos todos
aliás, diante dêle--que nem que fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia
e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir!
Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo
o que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de
julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e
jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que
se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos _democráticos_. E o
ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e
de noite.
Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e
o administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes
jornalista, que tambêm já era _democrático_. Assistiu ao jantar, fez um
brinde condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se
sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo bispo daquela
terra!». Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à Rèpública que
atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.
O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou
pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a
todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira,
«figura prestimosa da Rèpública, homem de bem às direitas, livre
pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.--Hip! hip! hip!
Hurrah!».
As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com
a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:
--Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da
propaganda, ouviste? Que desafôro!
O administrador comentou:
--E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e
de opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...
Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.
--Então e nós? indaguei por fim, despeitado.
--Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu
velho... Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa
cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da
monarquia, maioral se vai tornando dentro da Rèpública. Era de esperar!
Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se êles
é que deitaram a monarquia a terra, não achas justo que quem plantou a
vinha pense tambêm agora em comer os cachos?...
* * * * *
Candidinha Cerdeira
(Novela romântica)
Candidinha Cerdeira
(Novela romântica)
«Pasmei, como a gente pasma até certa idade, das maravilhas que se
fazem no coração das raparigas.»
CAMILO.
Em casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,--que era irmão do afamado
cónego Amorim Cerdeira, vigário geral na diocese d'Angra--falou-se muito
toda essas noite na vinda do novo professor do liceu.
Chamava-se Hipólito e trouxera a irmã, Alzira, rapariga loira que usava
uns chapeus enormes e punha beladona detrás das orelhas para fazer os
olhos bonitos...
Era uma excêntrica. A história da vida e obras de certa princezinha
otomana, filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante
até à loucura em matéria de garridice, lida num volume que o irmão lhe
emprestára, pô-la em termos de aspirar a utopias: desejaria banhar-se
num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'óleos aromáticos, ter um
jardim suspenso e uma multidão de escravas que fossem todas as manhãs
colher o orvalho das flôres... para ela refrescar o rosto.
Custára-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa
aldeia,--porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo
d'aspecto desolado e monótono, onde não conheciam ninguêm.
Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e
incertezas das grandes horas da Revolução, aquilo até certo ponto
convinha. Tinha amenidades de paraiso a paz pôdre, o sossêgo vegetativo
e pacovio daquela terra pequena, com sua vida imutável, seus hábitos
conservadores e sedentários, um modo bisbilhoteiro de vir às portas e às
janelas espreitar, e certo _centro_ palreiro de maledicência e política,
que logo lhes disseram ser ali a loja do _amigo Palma_.
Quem pôs a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irmã foi
o Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, médico do
partido, dizia: «--Êste não se formou: formáram-no...»--Conhecia-os de
lhe terem sido apresentados há anos na Figueira da Foz. Alzira
confessou-lhe agora, quando os visitou, que gostava muito da cidade.
--O quê! sério?
Sério. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudáveis, e com a água,
magnífica! Apenas uma única coisa a contrariava devéras: ter de viver
num hotel..
Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referências uma pontinha
de malícia.
--No hotel? disse.--E porque é que V. Ex.^as não arrendam uma casa?
--Porquê? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as não há!
Rialmente não as havia. Que aborrecimento!
--Eu não sei o que os senhores fazem ao dinheiro...--tornou Alzira,
achando móle e carregando.
--Tambêm o não há...--respondeu o bacharel.
Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se
resignado, contente... Apesar dêsses pequenos defeitos--e qual era a
terra que os não tinha?--aquele meio era delicioso.
--Só esta pacatez!...
E abeirou-se da janela, encheu os pulmões do ar puro que vinha das altas
montanhas distantes.
--Quer saber? murmurou,--minha irmã, a primeira noite que aqui ficámos,
não conseguiu pregar ôlho...
--Então? Porquê?
--Por causa do silêncio!
D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,--a Candidinha--que andava
agora nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de
congestão cerebral. Reunia aos sábados. Iam quase sempre o juiz da
comarca e a mulher; o sr. Xavier--o _Xavier das massas_--solteirão
abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D. Josefina, tambêm
viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo gente de
idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a
dizer-lhe:
--Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes.
Endireita-te! Que há de dizer a outra gente.
O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta,
interessante, em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade.
Dedicára-se-lhe por isso com um entranhado amor de pai, em certas
ocasiões surpreendendo-se a chamá-la, a acarinhá-la como se ela
rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a cachopinha, logo de tenra
idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a brincar, lhe
perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza
saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,--lá no
fundo a desejar que êle a levasse... D. Leonor sorria; intimamente
porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa, espigou dum dia para o
outro, Maria Cândida. Todos diziam:--«Está uma senhora!» E deu então em
andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar,
perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava:
--Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda
em casa, que estas idades querem sol...
Maria Cândida tinha-lhe dito um dia:
--A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia,
proíbe-me que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros
do tio Cerdeira, que são todos em latim. É pior!
O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»;
distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração
da sala, onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão:
educar, pensava êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer
aptidões e tendências naturais por forma a amoldá-las ao próprio
interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser isto ou has de ser
aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e não admitir
sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro modo,--é um
absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado momento,
exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...
O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa
das paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental:
palmeiras, filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino
barbinêgro, prosternado, osculando o solo poeirento, onde poisára o
cajado de larga crossa e as babuchas de palha de arroz...
O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:--Lindo!--e encavalava a
luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.
Maria Cândida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de
embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a influência
duma vida pendular, claustral e monótona, reflectindo-se-lhe nos
sentimentos, como a aspiração vaga e inquieta duma alma que procura no
ritmo da música o ritmo do vôo...
Conheceu Hipólito num domingo, à saída da missa, onde o professor fôra
acompanhar a irmã. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um
maravilhoso dom de ubiqùidade, mal os avistou, fez as apresentações.
D. Leonor não gostou. Aconselhára-a o sr. Xavier que não quisesse
relações com semelhante gente: «gente de Lisboa, sabe? uma educação
muito livre.» E torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prevê calamidades.
Durante a missa Maria Cândida notou que o professor a fitava com uma
curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no
côro. Através dos balaústres ela via o padre ao fundo, oficiando; e
atrás, enchendo a comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos
mercados semanais.
Hipólito ficára junto de Alzira, que trazia como sempre um chapéu
escandaloso, e observava os menores gestos de Maria Cândida. Viu-a abrir
o livro, persinar-se, bater no peito devotamente quando o padre
consagrou a hostia e ergueu o cálice e, no silêncio religioso da igreja,
o som da campainha vibrou, duas vezes, com solenidade e cadência.
Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave
e foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da
abóboda, incidindo por fim, já irisado, no cabelo, nas faces, no manto
azul duma Senhora das Dôres, que chorava no altarzinho duma das capelas
laterais... Maria Cândida resou-lhe uma oração fervorosa e a Virgem
pareceu sorrir por entre as lágrimas, agradecer, no seu banho de luz--no
que Maria Cândida viu um sinal de bom agoiro...
Quando lhe apertou a mão, cá fora, e a poude observar à claridade crua
do meio dia, perto de si, Hipólito ficou encantado. Era o tipo sonhado,
inédito, da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala
o sotaque da pronúncia beirôa, autêntica, sibilante de _ss_; e
nos olhos um ar assustadiço, implorativo e meigo, de herbívora.
A caminho de casa, Alzira disse ao irmão:
--Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma
rapariga assim...
E êle:
--Quem havia de dizer que numa terra destas!...
D. Leonor guardava a filha como um dia santo. Não a votava decerto,
estèrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gôsto. Não
a tinha trazido no ventre? Não a tinha criado, educado, sofrendo por ela
penas e reveses? Sabe Deus!
--Quando se tem a tua idade, prègava-lhe, não se pensa, não se reflecte,
deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando
casámos, não tinha vintêm,--e diziam que era esperto... Ao princípio
vi-o muita vez a chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe
servia a esperteza? Serviu-lhe mas foi o irmão, que era um homem de tino
e de fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram o despacho...
Maria Cândida escutava sem retorquir. Percebêra que a mãe queria casá-la
com o Xavier.--O Xavier! Um velho! um antipático que usava meias de lã
ásperas como urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e,
sobretudo, que podia ser avô dela! Metia-lhe horror e repugnância tal
ideia. Nunca! Nem que tivesse de ficar solteira, como as tias de
Freixinho...
Uma amiga do colégio--a Matôso--tinha-lhe jurado que o professor andava
com boas intenções; que aquilo não era um passatempo; que lhe afirmára o
Malafaia--sabes? o Malafaia que agora me faz a côrte...--que o casamento
era infalível.
Ela punha-se com evasivas:
--Pois sim... Eu então já ouvi dizer que era comtigo...
Entretanto o namôro progredia. Não era segrêdo para ninguêm que se
carteavam e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em toda
a parte se comentava isto: a paixão do professor do liceu e da
Candidinha Cerdeira.
E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem
tivesse visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda
para o muro do quintal! Méra invenção, claro. Mas o Matos do govêrno
civil tambêm vira--porque via sempre tudo e jurava ser verdade por duas
filhas que lá tinha em casa.
D. Leonor deu conta que Hipólito lhe passava repetidas vezes à porta,
que se pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar
para as janelas. Estremeceu de angústia! Deu terminantes ordens à filha,
que passou a habitar os aposentos interiores do prédio. O sr. Xavier
tinha-lhe abertamente declarado, submetendo-se a tudo:
--Arranje a sr.ª cá e chame-me quando fôr preciso...
Era o momento!
Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na
opinião do médico, pessoa tambêm da sua inteira confiança.
--A minha opinião? disse-lhe êle.--Mas alguêm tem que dar para aí a sua
opinião?
Ela encarou-o com espanto, sem compreender.
--Entendo que um casamento deve ser feito à vontade dos que se casam,
explicou o médico.--Casam bem? casam mal? Lá é com êles...
--Perdão, interrompeu a viuva.--Eu, que sou a mãe, tenho naturalmente
que intervir dalgum modo na orientação, ou na escolha...
--Conforme, minha sr.ª, conforme... Se se trata apenas de orientar, de
dirigir a sua filha nêsse passo, está bem; mas propriamente a _escolha_,
é a ela só que pertence. Os filhos não são--como muita gente póde ainda
erradamente presumir,--uma legítima propriedade dos pais... Os filhos
são pessoas independentes, com direitos, com atribuições...
--De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo
desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?...
--Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, não, evidentemente...
--Bonita doutrina, não haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir,
fula, mordendo o beiço, batendo nervosamente com o leque no joelho,
repetidas vezes.--«Casa-te, casa-te p'r'aí, rapariga, com o primeiro que
te apareça...» Haviamos de vê-las bonitas, se assim fôsse!...
O médico desistiu de discutir.
--Bem! rematou, erguendo-se,--para terminar: quer V. Ex.ª um conselho,
um conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem
levado muito ponta-pé e aprendido à sua custa o pouco que sabe? Quer?
D. Leonor não respondeu.
--Não obrigue sua filha a casar com semelhante homem.
--Ora essa! Com quem quer o doutor então que ela case?
--Sei lá! Mas naturalmente com quem ela quiser...
E pôs termo.
D. Leonor não desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus
trâmites. Na cidade a indignação era geral. Para mais havia constado a
scena da entrevista com o médico, as suas discordâncias, o ligeiro amuo
subseqùente...
--Víbora! víbora! dizia-se.--O dr. Marim bem a conhece...
E formulavam-se as piores insídias: que o ilustre Xavier era amante da
D. Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum
escândalo.
Havia quem gostasse disto, havia quem não gostasse; a maioria dizia:
--É bem feito! aquilo não se faz...
No cúmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comícios nas lojas,
lembrava que era preciso salvar aquela criança custasse o que
custasse... E com teatral entono, instigava:
--É preciso ir lá (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar
as portas e pôr a infeliz no ôlho da rua!
A coisa estava neste pé.
Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoçar. A criada, uma
velha servente encarquilhada e sêca como uma casca de noz, a coxear da
sciática, disse-lhe, mal êle se poz a desdobrar o guardanapo:
--Então, já sabe? A menina Candidinha parece que já não casa com o sr.
Xavier. Está desfeito.
O médico teve um gesto de mau humor irreprimivel:
--Lá esta você! Todos os dias novidades! Quando é que esta criatura se
cansará de dar novidades?
E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sôbre os
calcanhares, saíu da sala.
--Pois é tudo cheio cá na cidade, insistiu quando voltou.--A menina
julgo que sempre confessou...
--Confessou o quê, mulher?
--Olha o quê! O que já corria: que é amante do professor...
O médico ergueu-se de golpe, lívido, transfigurado, fazendo
recuar até à porta a pobre velhota espavorida de o ver assim:
--Crédo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o médico
fôra acometido de loucura.
--Você ouviu isso?
--Ouvi, sim senhor.
--A quem? Aonde? Diga.
--Por aí, diz-se em toda a parte; é tudo cheio...
Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer
palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo,
empurrou a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír--e saíu,
deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.
Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito,
o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse
trespassado mortalmente.
Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a
tremenda nova da desonra da filha. Fôra ela, a dissimulada, quem
se denunciára--com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule
o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da
terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer como se contivéra e
porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! Maria Cândida
morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns
restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua
filha: era uma mulher perdida!