Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas d

Produced by Mike Silva

Ladislau Patrício

Aquela família...

(Tipos, caricaturas e episódios provincianos)

1914--COIMBRA

MOURA MARQUES

Livreiro editor

19, Largo Miguel Bombarda, 25

* * * * *

Aquela família...

* * * * *

TIPOGRAFIA PROGRESSO

DE DOMINGOS AUGUSTO DA SILVA

Rua Dr. Souza Viterbo, 91

Porto--1914

* * * * *

Ladislau Patrício

Aquela família...

(Tipos, caricaturas e episódios provincianos)

1914--COIMBRA

MOURA MARQUES

Livreiro editor

19, Largo Miguel Bombarda, 25

* * * * *

Aquela família...

Aquela família...

A princípio eu ia só, numa carruagem de _segunda_, o que me permitia

desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante,

numa estação qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o

meu compartimento foi invadido de assalto por uma família inteira que

atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, com malas,

embrulhos e cestinhos,--uma infinidade de volumes!

O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma

senhora pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um

garoto, de marinheiro, magrinho, linfático e triste.

Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas a subir. E quando a

máquina apitou e o trem se pôs em marcha com um ranger de molas e de

engates, ainda nós todos dispúnhamos a bagagem amontoada nas proporções

dum Himalaia.

Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente,

o dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor,

pediu-me licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.

--Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a

exigir tanga...

Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm,

ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim

uma índole comunicativa, inquiriu satisfeito:

--O cavalheiro vem de Lisboa?

--Não senhor. Eu sou da Beira.

--Da Beira!... Então é de Vizeu?

Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do

viajante simplório, que o acaso colocára assim na minha presença.

Apressei-me por isso a confirmar:

--Sou de Vizeu...

--Nesse caso conhece lá o Gastão?

--O Gastão?!

--Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos.

Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me:

--Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente...

Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi,

portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do

companheiro que eu perguntei do meu lado:

--E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios?

--Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com

um gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito,

tem escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!--Dizia-me o dr.

Maia... Conhece?

Declarei que não.

--Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma

ir muito a Vizeu. É irmão do padre Levi, Levi da Maia, duma

família muito ilustre que tem uma irmã viscondessa. O sr. conhece com

certeza...

E como eu insistisse na negativa:

--O padre Levi, homem! o que escreve no _Vouga_... Não conhece o senhor

outra coisa!

Tive de lhe dizer que sim.

Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha

desde a última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas

os olhos amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros,

sertanejos...

--Pois o dr. Maia,--tornava o pai--dizia-me muita vez: «Alves, leve você

o rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»--Mas ó doutor,

veja lá, tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa

que se pudesse aí endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«--Não,

não, sem banhos não se põe direito.»--Que havia eu de fazer? Que fazia o

senhor nas minhas condições?

Esperou resposta; e como lha não désse:

--Saía, não é verdade?

--Pois claro!

--Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda

esta tropa no comboio... e cá vamos!

--Faz muito bem.

--Acha?...--poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.--Acha

então o cavalheiro que faço bem?...

--Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.---Mesmo que não

houvesse precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar!

--Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão!

--Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no

estômago. É preciso ver, dar de comer aos olhos.

--Dar de comer a quê?

--Aos olhos...

--Huum! mugiu.

Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente

nos refêgos do cachaço, duma grande riquêsa de tecidos celulares...

Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia

o orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade

a compleição mórbida do filho:

--Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre

doente, sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada,

parecendo que vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de

cabeça! Mas já um tio que nos morreu há três anos...--Voltou-se para uma

das filhas:--O tio Aristides...

--Ah!

E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus

ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...

Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações

patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe

a tudo _que sim_, com a cabeça.

E a rapariga, de lá, muito meiga...

No meio desta felicidade, porêm, a certa altura--na altura de

Ovar--passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu

profundo desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu

lugar, ia uma cesta; senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no

meu chapéu mole, qualquer gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo.

Houve um alvoroço no compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh,

demónio!»

Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se

entornára...

O môlho do peixe!

Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra,

enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem

remédio!

Côro de lamentações e desculpas:

--Ora esta!

--Uma assim!

--Só a nós é que acontece...

E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu

ainda ganhei fôrças para lhes dizer:

--Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!...

Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas

meninas que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no

mais aceso da balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de

assoar e veio enxugar com êle a nódoa indelével.

Esquivei-me desvanecido:

--Oh, minha senhora...

E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando...

--Se calhar era novo...--disse-me, a meia-voz.

Respondi:

--Era novo.

--E bom?

Fiz um gesto de grandeza:

--Dezoito tostoes!

Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a

outra filha, a quem o irmãosito--que viera à janela do vagom a ver a

máquina--pedia choramigando e arregalando um dos olhos que lhe

tirasse um _algueiro_...

Daí a momentos o comboio parava:

--Espinho!

Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se;

tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos

préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras

cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu

desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se,

tremia como um passarinho, quando lha apertei numa pressão

significativa. Segui-a com a vista até desaparecer pela porta da

estação; e numa derradeira vez que ela se voltou a olhar-me, não sei,

mas ia jurar que lhe vi lágrimas...

Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito

oscilava como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu

ainda lhes não disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu

chapéu manchado. Ambos perdidos já agora para mim! ambos, pela

fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não mais

talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais

porventura o poder usar!

Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do

compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:

--V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu,

de me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe

escrever, hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a

todos. Criado de V. Ex.ª...

Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao

pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:

--Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas!

Deliciosas!

Corria junto da carruagem, ao longo da _gare_, gritando ainda a plenos

pulmões:

--Deliciosas!

* * * * *

A bôca do sapo

A bôca do sapo

_Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE

conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre

imperativo e enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde._

_Tarde de novembro. Ameaça chover._

CARLOS

Compreendes que me seria muito desagradável que alguêm soubesse o que

tem havido entre nós...

MARIA CELESTE, _como se despertasse_:

Ah!... o que tem havido...

CARLOS

Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai

acontecer, não quero romper comtigo duma maneira absoluta. Não se

vive impunemente três anos com uma mulher. És uma rapariga de

coração--não to digo para que mo agradeças; e sinto que não devo

abandonar-te...

MARIA CELESTE

Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver.

Nunca mais!

CARLOS

Endoidecêste?!

MARIA CELESTE

Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se

alguma vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma

mulher. Não nos conheceremos.

CARLOS

Ora! ora!

MARIA CELESTE

Afirmo-to!

CARLOS

Terás essa coragem?!

MARIA CELESTE

Se terei essa coragem!...

CARLOS, _após uns momentos de reflexão, conciliador_:

Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.

MARIA CELESTE

Criancices?!

CARLOS

Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja inabalável.

MARIA CELESTE

Verás.

CARLOS

Ou nunca me tiveste amor.

MARIA CELESTE

Seja: nunca te tive amor...

CARLOS, _apreensivo_:

E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a

perder-me. Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...

MARIA CELESTE

Por isso mesmo,--porque sou tua amiga...

CARLOS

Palavras...

MARIA CELESTE

Não quero tornar-me um fardo para ti.

CARLOS, _que principia a indignar-se_:

Palavras! Palavras!

_Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem._

CARLOS, _com uma serenidade forçada, momentos depois_:

Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...

MARIA CELESTE

Nem tenho êsse direito.

CARLOS

Sabes muito bem como as coisas se passaram.

MARIA CELESTE

Sei.

CARLOS

Não ignoravas que um dia eu havia de me casar.

MARIA CELESTE

Não ignorava.

CARLOS

Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me pertenceres.

MARIA CELESTE

Tiveste.

CARLOS

Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste

minha por tua livre e espontânea vontade!

MARIA CELESTE

Lembro, lembro...

CARLOS

O teu acto foi, portanto, premeditado...

MARIA CELESTE

Pois foi.

CARLOS

Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com

a mira numa conquista. Eu disse-te: «Maria Celeste, pensa,

reflecte, olha o que te póde suceder... esquece-me». É isto verdade?

MARIA CELESTE

É.

CARLOS

Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste...

MARIA CELESTE

Fui eu que assim o quis.

CARLOS

Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a

amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te,

desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um

protector... alguêm...

MARIA CELESTE, _com tristeza_:

Alguêm!...

CARLOS

Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro,

o mais indigno dos homens!

MARIA CELESTE

Carlos!

CARLOS, _fóra de si_:

Oh! a ingratidão!... A ingratidão!

_MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de

lágrimas; e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a

passear na sala, resmungando censuras, e ela chorando, muda e

convulsivamente, sôbre o lenço molhado._

MARIA CELESTE, _dominando a comoção_:

Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as

palavras severas que me diriges, tudo, emfim, porque te

compreendo... porque te estimo. Ainda bem que reconheces que eu não fui

para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um amor verdadeiro,

livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me preveniste a

tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar conselhos

e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto,

calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar

pelo coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil

vezes não te falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e

ouvia o ruido dos teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as

minhas mãos arrefeciam, a minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira,

fugiam para ti! E pensava: é o Destino...--Uma tarde, uma noite, sabes

bem o que se passou... Era o céu, era a felicidade que se me deparava.

Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo acabaria depressa... que

havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me tão bem, tão

contente de viver assim, que não pensava, não queria pensar que

essa hora amarga chegaria breve! (_Comovida_:) O que me prendeu a ti,

sobretudo, foi a tua franqueza, êsse mixto de compaixão e indiferença

que por mim professavas, os melindres da tua consciência, a previsão do

que poderia resultar, na certeza de lhe não dares remédio... Tudo isso

me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se teme--e que

irresistivelmente nos atrai...

CARLOS, _condoído_:

Fui para ti--pobre dòninha inconsciente e louca!--uma espécie de bôca do

sapo, queres dizer...

MARIA CELESTE

Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (_Fita-o nos olhos

penetrantemente_). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é

verdade?!...

CARLOS, _impressionado_:

Ouve-me, Maria Celeste, escuta...

MARIA CELESTE

Não, não! não posso... não teimes.

CARLOS

Sê razoável...

MARIA CELESTE

Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.

_Há um silêncio concentrado._

CARLOS, _numa ideia repentina_:

E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares

comigo?...

_Olha-a com ansiedade._

MARIA CELESTE, _resolutamente_:

Não aceitaria.

CARLOS

Quê!?

MARIA CELESTE

Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita!

CARLOS, _abismado_:

E porquê?!

MARIA CELESTE

Porquê?...

CARLOS

Sim.

MARIA CELESTE

Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...

CARLOS

Depois...

MARIA CELESTE

Porque me não amas, Carlos...

CARLOS

Mentes!

MARIA CELESTE

Como queiras... (_Pausa_) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre rapariga

que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...

CARLOS

Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm!

MARIA CELESTE

?!

CARLOS

A tua honra. Déste-me a tua honra!

MARIA CELESTE, _com simplicidade_:

Pois nada mais tenho que te dar...

CARLOS

Como dizes isso!

MARIA CELESTE

Digo o que sinto.

CARLOS, _depois duma longa pausa_:

E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?

MARIA CELESTE, _encolhendo os ombros_:

Sei lá!...

CARLOS

Podias ter sido feliz com outro homem...

MARIA CELESTE, _convictamente_:

Não o podia ser com mais ninguêm.

CARLOS

Sacrifício inutil...

MARIA CELESTE

Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste

para mim o que tinhas de ser... Não és culpado do meu infortúnio.

Estou satisfeita, crê,--recompensada. (_Tentando convencê-lo_): Tu não

fizeste mais do que aproveitar uma mulher que se te oferecia...

CARLOS, _enternecido, toma-lhe as mãos, que beija_:

És uma santa! (_Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz_) E

lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!...

MARIA CELESTE

Paciência...

CARLOS

... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés

em tua casa!

MARIA CELESTE

Nunca.

CARLOS

Nem que um dia precise de ti?

MARIA CELESTE

Nem que um dia precises de mim.

CARLOS

É o fim de tudo, visto isso?

MARIA CELESTE

De tudo.

CARLOS, _num movimento impulsivo, de protesto_:

Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não

posso, não quero deixar-te.

MARIA CELESTE, _incrédula_:

Não queres...

CARLOS

Não quero. Duvidas?

MARIA CELESTE

Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres

daqui tudo se desvanecerá como fumo...

CARLOS, _sucumbido_:

Tudo se desvanecerá!

MARIA CELESTE

Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente--uma amante...

CARLOS

E então?

MARIA CELESTE

Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua

felicidade...

CARLOS

Maria Celeste: juro-te!

MARIA CELESTE

Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo

dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua

bondade conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!...

A que horas partes amanhã?...

* * * * *

Sr. Anselmo

(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)

(1906)

I

Sr. Anselmo

(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)

(1906)

I

Nasci em 74--eu, Teotónio Mendes, de muito boa família.

Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.

A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali

aperta sempre muito.

Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados)

no verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As

fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes

nuvens de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.

Horrível!

Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo,

celebravam-se procissões, missas--_ad petendam pluviam_--mas do céu

afogueado e sêco... nem pinga!

_Cumulus_ de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites

caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.

Dizia-se, farejando as alturas:

--Isto é que vai ser! isto é que vai ser!

Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento

implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.

O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo,

farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito

uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em

questões de pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da

vilota.

Mesmo os mais orgulhosos e independentes, senhores do seu nariz,

sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade.

--Ali, na Turquia...--dizia por exemplo êle.

E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois

passos, que podiamos lá chegar se quiséssemos,--a pé!

Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três

dias, e viu a Galvâni no Coliseu.

--Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.

--Um rouxinol!

Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito

entendido de música, recomendava:

---É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.

Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de

amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra,

caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que

trouxesse marca de tão abalisada procedência, dava sempre coisa

que se visse, convertia-se logo em rialidade: fôsse uma árvore, um

baile, o itenerário num cortejo, um espectáculo--um urinol.

Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo

professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm

diante dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a

assistência com a nova dalgum moderno escandalo em supuração, comentava

ruborisado e colérico:

--Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o

que todo o homem limpo deve fazer.

Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons

sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a

sua enorme fealdade--uma «fealdade específica», como diz

Camilo--prestava fiança idónea.

Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os

dias amigo Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor

meticuloso, scientífico, aquela probidade verdadeiramente spartana, que

era um dos ornamentos hereditários do seu caracter...

Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que

não fôsse primeiro consultar o Anselmo:

--Que diz você?

E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:

--Póde sair, homem; vá descançado que não chove.

Ou então:

--Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água.

Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em

assuntos meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a

observar-lhe:

--Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse

coisa que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...

Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia:

--Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha paciência.

Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não

manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?--Anselmo batia

o dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo

transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as

brazeiras...

Não era só respeito--era mêdo!

Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor

excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal

temperatura se não aturava, uff! que havia um calor excessivo...

Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois

surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se

como êle dizia...

Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: _a coluna_)

primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do sol,

na soleira da porta.

Freguês que após esta operação penetrasse na farmácia era antes de

mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura

ambiente:

--Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!

Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo

pano com que enxugava as garrafas dos remédios.

A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:

--Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?

E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:

--Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!

Desapertavam-se os colêtes...

De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas

ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor.

Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente

exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos

jornais, as janelas do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado

com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de

papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisára.

Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a

respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os

homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito

lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos--da transpiração diurna.

Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo

Felizardo--Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto--convidando-me a ir

passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia

nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito

conhecer-me.

No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados

do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais

intensa da vida agricola.

Adorável amigo!

Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em

par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e

pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar,

senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre

falar com tanto entusiasmo.

Fui ao telégrafo e expedi para _dr. Vieira Leite_ o seguinte aviso:

«Chego àmanha».

As delícias do progresso!

Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar

que se chama--o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda

vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,--contente, reconhecido...

De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me

dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do

boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com

que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor sombra de

prosápia e sem querer censurar ninguêm,--apenas para estabelecer a verdade.

Eu sou um apóstolo da Verdade!

Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha

frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal,

portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte

caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma

coisa «para êsse Minho»?

Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um

enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal

suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no

vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo

dum emblema galénico:

LABORATORIO

Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a

fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho,

rosnou por entre dentes:

--Boa viagem!...

Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai

não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,--das minhas...

Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.

Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror

supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.

Coisa esquisita!

Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só

coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu!

teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das

trovoadas?

Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que

mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro

duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.

Mas...--protestava uma voz do fundo de todo o meu ser

angustiado--o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha

humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que

o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o

meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!

Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e

varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia

de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da

evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por

dentro--como homem e como divindade!

Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento,

quebrando-me as forças, jugulando-me,--nem que alguma poderosa mão

invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à

primeira voz.

--Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!

E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava

indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore

polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais

cariciosa das maneiras:

--E que me diz o meu amigo do tempo?...

Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me

pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a

surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro

(ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador.

Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da

reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe

na intimidade... Que bom! Que pechincha!

Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a

dentro com os braços no ar, exclamando:

--Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?

Fitámo-lo surpresos.

Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.

--Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem

encobrir o seu mau humor.

E o outro, com muitos gestos, esbaforido:

--O ministério! caiu o ministério!

E sentou-se por já não poder.

Anselmo largou a espátula:

--Que me diz?!

--Olhe, veja!...--murmurou sufocado.

E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho:

«ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!

Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha

da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça,

doido com a história.

--Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó

Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!

E esfregava as mãos de contente.

--Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que

se vai ver o que é governar!

O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes,

vociferando:

--Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer,

tudo! E eu, e você, e os mais,--os que trabalhâmos--a pagarmos para

aqueles piratas!

Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que

prosseguia irado, numa linguagem perversa:

--Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!

E já frenético, em altos gritos:

--É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!

Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta,

enxotava, explicando:

--Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se

embora!

Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para

dentro, pelos vidros da outra porta,--a ver se via o ministério no

chão...

A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim

tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria

balela?

O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze

fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que

quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher.

Tomou fôlego, prosseguiu:

--Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o

outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha,

nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se

apresentar! Uma vergonha!

Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.

--Olha o Teotónio! Você aí!--disse, dando por mim.--Desculpe, não tinha

reparado... Então que diz a isto?

--Eu?...

--Sim, que diz você a isto?

Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:

--Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas

alturas foi a sorte grande para o país!

Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:

--É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a

câmara. Creio que agora...

--Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto--o que eu

quero é que me deixem. Teem aí muita gente...

Menezes não via, não achava:

--Muita gente! Aonde?...

Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:

--Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...

--Diga, diga! aprovou êste.

--É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr.

Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e

proficiência o papel de presidente do município.

--Apoiado!

--Haja em vista,--justifiquei, voltando-me para êle,--o que V. Ex.ª fez

da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!

--Ora, ora...--desdenhou Anselmo.

--É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.--Está na memoria de

todos. De todos!--repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.

--Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes

acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos

de dias!

--Um alimento de primeira necessidade...--avolumou o jornalista.

--Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu.

Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que

V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza

seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite,

fôsse feita pelas próprias vacas...

--Sim senhor...--confirmou o Menezes.--Lembro-me perfeitamente; eu

tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...

--Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o

melhoramento entre nós do carro do lixo?

Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:

--A êle!

--A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?

--A êle!

--A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?

--A êle! a êle só!

--Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!--bradou o boticário

rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo--Eu sou um humilde

trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os

amigos. Nada mais!

--Êsse pouco...

--Mas quanto a política, francamente, confesso--estou farto; estou farto

dela até aos olhos!

--Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes,

piscando-me o ôlho.--Olha quem, o régulo!

Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás

afogueado:

--Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?

Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto,

num gesto omnipotente, informou:

--Desce!

--Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!

E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.

Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e

preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a

opinião autorisada e justa...

Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com

efeito um extravagante acontecimento.

Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não

sabia mesmo se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma

vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais

inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um

progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma--que é

para o que eu me sinto rialmente com vocação...

Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha

animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que--seja

dito de passagem--significava uma grande segurança para a

inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.

Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria

satisfeito.

--Mas porque caíria o Hintze? indaguei.

Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:

--O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto

aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que

os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais

nas condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se

lhe constar, _verbi gratia_, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há

um homem com um cacete á espera dêle--acredite--é quando lá passa mais

depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!

Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E

quando Anselmo terminou:

--Efectivamente, o João Franco...

Anselmo benzeu-se:

--Ah! meu amigo: é um colôsso!

Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada

preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar

o hino da carta.

--Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?

--Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.

--Parece.

--E brioso; um cavalheiro.

--Parece.

--Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...

--O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!

--É. O sr. fala-lhe?

--Ás vezes, por cortesia...

--Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de

quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do

Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!--do Navarro, do

Emídio Navarro!

--Patife!

--... que tinha vindo nas _Novidades_ já não sei há quantos anos, e que

o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.

--Patife! patife!

--O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos--êle que é um

esturrado!--agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma

destas coças...

--Bem feito.

--De manhã já o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso:

«Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um

côrno».--Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.

--Anda-me.

--No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai

o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!

Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.

E com pesar:

--Já não vai; paciência!

--É pena.

--Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...--e beliscava o

lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o

polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma

pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma

coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os

aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.»

(Anselmo sublinhava: _como zagalotes no aço..._). «Todo o mundo sabe que

só usamos o que nos pertence...» (_Piscadela de ôlho do Anselmo_)

«Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos

ou as joias das amantes: _Meneses dos Santos_».

--Isso é medonho! comentei.

Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:

--«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do

notário... Genial! genial!

Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao

procedimento do Souto, que fôra indecente.

A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o

com a vista, distraído.

--Então sempre vai amanhã? perguntou-me.

--Sempre vou amanhã.

--Pois o tempo está firme. A _coluna_ desceu, mas descance que não há-de

haver novidade. Isto conserva-se.

Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:

--Pode ir descançado...

--O sr. Anselmo não quer para lá nada?--perguntei.

--Não; quero que tenha muita saúde.

Fitou-me carinhosamente:

--E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um

abraço.

Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me;

e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.

--Até à volta!

--Até à volta!...

O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo

à porta, dizia-me adeus de lá,--com a mão...

* * * * *

Sr. Anselmo

(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)

(1912)

II

Sr. Anselmo

(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)

(1912)

II

Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em

Lisboa o movimento revolucionário de outubro.

Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens

hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de

perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança

bárbara, grotesca, entre uivos e assobios.

O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por

tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de

matança na vila.

Não devia tardar.

D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas

assadas, raras naquela região e muito frêscas,--nem que Nagosa fôsse um

braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para

assentar, chá,--um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota

apurada da civilização após aquele _menu_ de cavadores.

Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não

espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com

a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e

incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo

funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em

deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era

um mar de sangue!

Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo

isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente,

mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado

edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo--homem de

processos sóbrios--veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço,

debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente

tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita

débil e epicena de maricas.

--Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.

A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da

noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não

o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.--Qual

seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os

insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?...

Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos

horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens,

violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma

esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de

honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a

mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...

--Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu

rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E

confirmada a notícia, comentou:--Pois bem... Nós cá não temos nada com

isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou

Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa

noite!

Havia lua cheia.

Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um

pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.

Murmurou arreliado:--«A mania de comer a esta hora há de acabar.»

O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe

o rosto afogueado.

Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.

De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou

esganiçada:

--Ansèlminho, olha a bronquite!

Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em

relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de

penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas

scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...

Murmurou, regalado:

--E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...

A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em

Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo

começava a ferver nas dornas.

De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia

da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já

içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na

população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que

se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns

novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do

sol outonal.

Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso

feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro:

--Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?

--Parece que sim, meu padrinho...

Era afilhado.

--A uvazita fundiu... dizias que não.

--Houve mais que eu sei lá!

--Pois sim, mas...

Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.

Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na

ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas

pitadas de tabaco francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do

rebordo da dorna a que se agarrára, a umas palhas que ali topou a geito,

e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a _Portuguesa_.

O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a

_lei da Separação_.

A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a

realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças

assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio,

vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o

facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos,

quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente

endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de

substituirem as antigas côres constitucionais pelo vermelho e pelo

verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra _verde_ com

intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a

mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos

sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no

edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo

republicano.

Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no

país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos.

Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos,

antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes;

principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva

Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um

exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho

ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:--«Vamos!» tudo

marcharia à uma sôbre as cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando,

rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!

O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as

suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As

redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens

armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo,

espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas

janelas, no meio da rua.

E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de

efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!

Anselmo indignava-se:

--O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir

semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.

Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir

ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não

devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio

Mendes, republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e

firmêsa estas sensatissimas explicações.

--Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não

diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver!

Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que

se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública

está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!

Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.

--Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A

verdade é só uma!

E cheio de provas, revoltado:.

--Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na

miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão

(emendava): com família numerosa.

Em volta houve um silêncio aprovativo.

Tudo mudára, na verdade...

Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia, as mãos atrás das

costas, a meditar no futuro do país. O barómetro marcava tempo sêco--e

lá fora chovia! A _coluna_ indicava uma temperatura alta, e Anselmo

tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo às

avessas, que ninguêm se entendia neste país, que a indisciplina

reinava--até no tempo!

Aquela Família: Tipos, caricaturas e episódios provincianos · 第 1 / 4 段