_Do Barbilho, & do modo de o aparelhar._
O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda, a que
chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu
casulo.
Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que
se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar,
& juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os
desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.
Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas
he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este
effeito, faraõ primeiro o que se segue.
Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os
bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a
meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer
outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias;
cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se
faça mais aluo.
Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que
os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.
Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella
clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita.
Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz
tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os
fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os
fiar com mais facilidade.
Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos
tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na dobadoura,
outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.
Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda,
tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de
mortos, aproueita.
[Illustração]
[Illustração]