_Modo de colher a semente das aruores, para as semear._
As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de
amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou
pretas.
As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras,
& de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto das
amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como
fica dito.
Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas
a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as
melhores.
As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na
forma seguinte.
Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de
pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,)
& abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que cayão as
amoras maduras.
He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo
no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a
semente.
Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa
meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco,
ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para
euitar a podridão.
Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma
peneira muito fina, & molhada, & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as
mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o
que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar
cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente,
porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està
nadando em cima.
Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho,
& se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se
limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear na
sesão, & forma, que fica dito no _Capitulo II._ onde tambẽ se disse,
que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por abano, &
postas a amadurecer o tempo necessario.
Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros
lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas,
por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado,
de amoras podres.
Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em
hum vazo de agoa, & a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo,
he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.
Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com
as amoras pretas, que se comem cõmumente.
De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade,
em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.
Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar
as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre
a mais geral, nobre, & vtil occupaçaõ dos homens.
Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os
Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.
Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os
ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que
os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.
Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação,
tiraráõ della tres grãdes ventagens.
Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver
crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando
sahem, como obras das nossas mãos.
Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque
he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual
grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode
tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar
estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior.
Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem
as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que
obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do
Mercador.
E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma
razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu.
Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens
da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.
Deste erro, que justamẽte deueser condenado de todos, nos liura a
consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ
aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho,
& com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na
posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem
à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram.
Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de
tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os
frutos, & as riquezas?
Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as
terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos,
& agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm
muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na
terra, em que viuimos.
Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta
rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha,
depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os
bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem
produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto.
A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em
algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a
memoria do tempo em que foram plantadas.
Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda,
affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes,
os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado, & ajuda dos
homens,[12] porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam
singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas
aruores a seda.
Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram
trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França,
como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de
criar os bichos; & as aruores, que se plantârão naquelle tempo, estão
agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais
lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos.
[Illustração]