D. RAFAEL BLVTEAV.

INSTRVCÇAM

SOBRE A CVLTVRA

das Amoreiras, & criaçaõ dos Bichos da seda,

_DIRIGIDA_

A conseruaçaõ, & augmento das manufacturas

da seda,

_ESTABELECIDAS_

Pelo muito alto, & poderoso Principe

DOM PEDRO

GOVERNADOR, E REGENTE

dos Reinos de Portugal,

_E commetidas á direcçaõ_

DE D. LVIS DE MENEZES

Conde da Eiriceira, & Veedor da fazenda Real,

Pelo P. D. RAFAEL BLVTEAV,

Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia,

Doutor na sagrada Theologia, Prégador da Magestade

da Raynha Mãy de Inglaterra, & Calificador

do S. Officio no Reino de Portugal.

[Illustração]

EM LISBOA.

Na Officina de Ioam da Costa.

Com todas as litenças necetiarias. 1679.

[Illustração]

AO

PRINCIPE

NOSSO SENHOR.

SENHOR.

_Sigo o discreto dictame de Parisatis[1] Rainha de Persia, que

costumaua dizer, que com os Principes naõ se ha de falar, senaõ com

palauras de seda._

_Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com

que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste

liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da

seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque

de todas as vtilidades, que a industria & trabalho dos homens, pode

grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, & à criaçaõ

destes insectos._

_Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza, &

a Arte, a natureza nas Minas, & a Arte nas Manufacturas, com esta

differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza,

naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, & trabalhos, com que

se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, & se perturba

o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem

os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com

muito menòr gasto & trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio

das Artes se procurão, & sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas

as Artes, muito deue Portugal ao cuidado, & generosa liberalidade,

com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como

aduirtio[2] Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo

modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ

as Artes com a munificencia dos Princepes._

_Em todas as historias, antigas, & modernas, celebra a fama o zelo, cõ

que os Reys, & os Emperadores solicitàrão a introducção das sciencias,

& das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a conseruaçaõ,

& augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ perfeito,

como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia para o

estabelecimento desta Arte taõ nobre, & tão vtil ao Reino; quãto mais

que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos olhos os

exẽplos dos maiores Potentados da Asia & da Europa._

_A cultura, & criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa

atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous Mõges[3]

vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente

dos bichos, & mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, &

quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as

Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de

dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ casulo, que forma de si mesmo,

architecto, & hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis,

sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè

se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera._

_Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia,

pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais

Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha

naquelle tempo perdida a antiga policia, & França, & Hespanha estauão

padecendo as rusticas oppressoẽs do mesmo jugo._

_Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos della,

os mais polidos, & melhor gouernados, a saber a China, & a Persia,

deuião jà então, & deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à criação

dos bichos, & à Arte da seda._

_Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, & da China

se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China

a troco da seda, & hoje passa huma grande parte da prata do Potossí

pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas, que delle

nauegão os Castelhanos à America._

_A Persia, mete na India a troco de prata, & ouro, Cafilas riquissimas

de seda, & por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes, Cafilas de

seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, & Esmirna nas

muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores Imperios da

Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura._

_Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais

Prouincias que dominarão, à Scitia, & a toda a Asia menor; por elles

passou a Hespanha, & se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda,

que se conhecia em Europa, & elles leuarão esta cultura a Sicilia,

aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, & dali se

cõmunicou a toda Italia._

_Em Sicilia, & principalmente em Messina, se cultiua com tanta

abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em

rama, mais de hum milhão & meio de patacas todos os annos, & assim a

nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, & outras

muitas de Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque

assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, & ao

recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor

despeza, & trabalho, & cõ lucro incõparauelmẽte maior._

_Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de cõseguida

a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse huma

junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro na

cultura das Amoreiras, & logo na criação dos bichos, as palauras do

decreto com que se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são

as seguintes._ El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção das

sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio para

euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs de ouro

a terras estrangeiras para a compra das sedas, & por ser conueniente

esta introducção ao decoro publico, à occupação, & riqueza dos pouos

do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, & ver as experiencias,

& conhecer por estas a facilidade, & vtilidade que virà a nossos

subditos, &c.

_França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por

hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua

riqueza; & suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda,

he o trato cõmum, & a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc,

Prouença, & Delfinado, & da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias,

creceo o numero da gente, & as Cidades dobrarão o numero das casas, &

dos habitadores, & se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das

sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a Italia, &

Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por

toda Europa._

_A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura,

& hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, & para muitas

fabricas, que tem de excelentes veludos, & damascos._

_Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa

semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, & o

mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de

Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda._

_A producção das amoreiras, & a criação dos bichos da seda, hão mister

clima temperado, & daqui nace, que entre os Tropicos, & fora de 45.

graos ao Norte se não faz esta criação, & se em algumas partes se fas;

he com grande trabalho, & com pouco fruto. Depois de 25. graos até

45. se dâ com abundancia esta producção, & daqui vem a abundancia da

Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da

China na Prouincia de Nanchim, & nas mais que correm de 25. até 45.

ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no meio das

duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, & da

calma de 25. são as mais benignas, & as mais abundantes na criação dos

bichos._

_Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està

situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, & Murcia, de

Messina, & Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, & da Prouincia de

Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a

seda, & com menos cuidado, & trabalho, se dão, & se crião os bichos,

dõde se segue, que produzir à Portugal com abundancia esta excellente

materia._

_Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na Prouincia

de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais setentrional

deste Reino, & daqui se pode colher, o que serà, nas Prouincias

mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo, Algarue, &

Estremadura, & jà de dous annos a esta parte se tem experimentado esta

verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno, & tẽperado Ceo,

que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem tirado dos bichos,

que se criarão nas casas, em que se deu principio âs manufacturas, he

mais forte, mais fina, & rende mais, que a melhor seda de Italia._

_Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em

abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca,

porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas

terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria;

& se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar

as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, & Esmirna,

achando tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como

pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, &

seis mezes menos, & menos gasto de conboys, & riscos de Piratas, &

terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, & fazendas que meterem

nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs

de si, antes de cultiuar, & laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens

pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si,

a quarta parte da que ha mister para as suas manufacturas._

_A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de

contrariedades, & sendo as manufacturas da seda vteis a todos os

Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas

manufacturas._

_A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios

fantasmas da propria conueniẽcia, & do mesmo modo que cada Planeta luz

com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão

luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque

as cores que se vem no ar, não sempre são intrinsecas, & verdadeiras,

mas sô superficiaes, & apparentes, aos olhos dos mais perspicazes

Ministros de V. A. parecerão aereas, & fantasticas as cores, com que

estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus

argumentos._

_A mais forçosarazão de que se quizerão valer, foi, que prohibindose

neste Reino, (como serà preciso, depois do perfeito estabelecimento

das manufacturas da seda) todos as sedas dos Reinos estrangeiros,

infaliuelmente faltaria a saca das drogas do Brasil, com manîfesta

destruiçaõ do comercio, que ate agora se sustentou pella continua

entrada, & sahida do açucar, & do tabaco._

_Semelhãte objecção a esta se fez aos Ministros del Rey

Christianissimo, quando por ordem daquella Magestade, forão prohibidas

em França as manufacturas dos outros Reinos; porque com zelosa

ignorancia lhe foi representado, que os Ingrezes, & Holandezes não

virião mais a França buscaros vinhos, nem os trigos, com que todos

os annos carregauão suas frotas: mas deu a experiencia a conhecer a

futilidade desta objecção, porque no tempo que a tranquilidade da

paz deixa liure o comercio destas Naçoẽs, não cessão os Ingrezes, &

Holandezes de carregar infinitas embarcaçoens com os vinhos, & trigos

de França._

_A indigencia, & a necessidade saõ os fundamentos da vniaõ, & sociedade

humana, & foi effeito da diuina[4] Prouidencia, que algũas terras

careceßem dos mãtimẽtos, & regalos, de que outras abundaõ, paraque

com os vinculos do comercio se vnissem os habitadores das mais remotas

Regioens do mundo; logo he taõ infaliuel, o comercio da Europa com o

Brazil, que de duas huma, ou quererà a Europa passarse de açucar, que

he o mais delicioso mimo da terra, & austerse do tabaco, que he o mais

attractiuo feitiço da natureza; ou com huma prodigiosa mudança dos

ares, & sobre natural melhor a dos climas, se farà a Europa capaz de

produzir o que ateagora naõ produzio desde o principio do mundo, senaõ

em algumas partes do Reino de Sìcilia, & em taõ pequena cantidade, que

naõ sei se he sufficiente para prouer a ametade d’Italia._

_O açucar pois das Barbadas (Ilhas da America) he muito inferior ao do

Brazil na quantidade, & qualidade, & porque em todos os Emporios do

mundo, as drogas mais finas, saõ as mais appetecidas, sempre o açucar

do Brazil, terà sobre todo o mais, huma incontrastauel preferencia,

verdade taõ certa, que hum dos mais celebres historiadores deste

seculo escreueo ha mais de sessenta ãnos, que naõ sò a venda do açucar

do Brazil he infaliuel mas que tambẽ he certissimo o lucro desta

venda._[5]

_Com outra razaõ taõ futil como a primeira, condena o aparente zelo de

alguns, o estabelecimento das manufacturas da seda neste Reino, & he

que cessando nas alfandegas os direitos que se pagaõ da entrada das

sedas estrangeiras, naõ hauerà dinheiro, com que pagar os filhos da

folha._

_Mas facilmente remedearà V. A. este inconueniente com os direitos

que se pagaraõ a V. A. de toda a seda que se fabricar no seu Reino,

dandose a V. A. hum tanto por cada arratel, conforme se paga a el Rey

de Castella, & se se plantarem neste Reino cinco ou seis milhoens de

amoreiras, daqui a poucos annos hauerà huma taõ grande abundancia de

seda, que os direitos da que se fabricar no Reino & suas conquistas,

com os da que se repartirà com os Reinos estrangeiros, importaraõ hũa

excessiuamente maior summa de dinheiro, que a que hoje se tira de

todos os direitos da alfandega._

_Tem os Ministros de V. A. ponderado estas razoens com madura

prudencia, & porque os bons principios saõ o presagio das venturas

que se seguẽ, no felice exordio desta empreza, todos estaõ preuendo a

publica vtilidade dos futuros progreßos._

_A V. A. pois, como suprema intelligencia, que moue, & regula os orbes

da sua Monarquia, agradece esta era, & successiuamente agradecerà a

Posteridade os victoriosos impulsos desta gloriosa determinação._

_Huma das maiores felicidades de hum Reino, he que o Rei se enriqueça

sem empobrecer aos pouos; com as manufacturas da seda; procura V. A.

este bem comum, como verdadeiro pay dos seus vassalos, & quererá o Ceo,

que no Reinado de V. A. logremos Portuguezes em realidade, as ditas,

que os Poetas fabulosamente attribuirão ao seu seculo dourado._

_Assim o espero, & peço a V. A. queira aceitar com agrado este pequeno

trabalho, que entre os estudos mais serios, & proprios da minha

profissão, tomei, por se me significar da parte de V. A. o gosto, que

teria de ver esta materia praticada em lingoa Portugueza, pella grande

vtilidade que della resultarià ao Reino; não esperando eu do desuelo,

com que desejo de me empregar, em tudo, o que toca ao seruiço de V. A.

outro premio, que o ver effeituados os tão proueitosos documentos, que

neste liurinho se encerrão._

_Aos dous Religiosos, que primeiro mostràraõ na Corte de Constantinopla

os prodigiosos segredos da natureza na criação dos bichos da seda,

fezo Emperador Iustiniano consideraueis merces de presente,[6]

prometendolhe outras maiores para o futuro, & para mim as maiores, que

podere receber da Real grandeza de V. A. serâm a da sua beneuolencia,

& protecçam, junta com o conhecimento, de que ainda que estrangeiro

no sãgue, sou Portuguez no amor, & se a Inglaterra deuo o nacimẽto,

a França a criaçam, & a Italia, o habito, da sagrada Religiam que

professo, em Portugal deuo à summa piedade de V. A. tam singulares

beneficios, que em demonstraçam do meu agradecimento, de sejo de

vencer todos os vassallos de V. A. no affecto, no zelo, & no obsequio.

Deos guarde a Real pessoa de V. A. como estes Reynos haõ mister, &

todas os seus vassallos desejamos._

De V. A. o menor Capellaõ, & Orador.

D. RAFAEL BLVTEAV.

Clerigo Regular da diuina Prouidencia.

Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal · 第 1 / 62 题