Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da
tyrannia, comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a
illustração pelo meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na
França, na Italia, na Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada
passo escholas para o pobre, e não é raro topar o trabalhador, pela hora
da sésta, entretendo-se a folhear, lêr e entender livrinhos, que,
apesar de mui comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de
o iniciar no saber.
É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não
são os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e
bayonetas: são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por
elle velam, e cuja voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de
proscripta e desterrada, brada tão alto, que a propria tyrannia, em que
lhe pese, se vê forçada a se sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses
representantes da opinião: parece que a providencia capricha em haver os
tyrannos por instrumento da propria ruina; pois só a illustração, que dá
ao homem a consciencia de seus direitos, póde derribar ruins governos e
oppressores. Assim a instrucção progride e gradualmente estende a
sua rede, anhelando abraçar todas as camadas da sociedade, ministrando á
terra virgem, mas productivel semente de muita ideia, que se há de
resolver em ainda muito mais obras de bem e só para o bem.